MEDO - Conto Clássico de Horror - José Más
MEDO
José Más
(1885 – 1941)
Tradução de L. Papaterra
(Séc. XX)
Entre a espessa vegetação de uma pequena colina, da qual se divisava a povoação cinzenta, sórdida e nauseabunda, na qual estavam espalhadas pobres e minúsculas vivendas, inclinadas, sujas, torcidas e enegrecidas como dentes carcomidos e saturados de nicotina, achava-se encravada a choça que servia de albergue a Gervasio e à sua mãe.
Era Gervasio, o estafeta dos correios daquela povoação feia e desengraçada, que, por irônico contraste, se chamava Vila Gradosa. Ganhava Gervasio duas pesetas diárias e seu escasso e irrisório ordenado não podia isentá-lo da grave responsabilidade que contraía no delicado exercício do seu cargo. A correspondência era sagrada; nem demoras, nem intermitências eram admitidas; a mãe de Gervasio, nas proximidades daquela colina, cultivava uma pequena horta, e, com o ordenado de seu filho e o fruto daquelas terras, bem ou mal podiam ir adiante.
Uma noite, Gervasio entrou mal-humorado em sua choça. Haviam mudado as horas de recolher a correspondência. A partir do primeiro mês, em vez de sair de dia, teria que se pôr a caminho às doze horas da noite para chegar a Veguilla, a estação mais próxima, às três da madrugada, e regressar à povoação às seis da manhã. Por aquela troca de serviço, não lhe aumentavam o salário. Gervasio teve que se conformar. Aquelas duas pesetas eram o pão de sua casa. Trabalhando no campo não ganharia nem a metade. E isso não seria por pouco tempo. Estava tudo muito mal.
—Filho, alguma coisa te aborrece? — disse a anciã, com o temor do desconhecido, como que vislumbrando os perigos que acarretavam aquelas caminhadas noturnas através do campo.
—Não, mãe; não há cuidado. Por aqui, não há gente má. A guarda civil limpou todos os arredores. Podia temer-se os lobos; mas estes não saem da mata. Sinto unicamente por ti, que ficas sozinha toda a noite. Pensei em alugar uma casinha na povoação, e assim eu ficaria mais tranquilo, até que voltasse o serviço diurno.
—Por mim, não, Gervasio — respondeu a mãe.—Estamos bem aqui. Ninguém virá roubar nossas riquezas. Já que trabalhas tanto, esse dinheirinho que pensavas gastar na casa, gasta-o aos domingos na povoação, dançando com as moças. Desfruta alguma coisa da juventude. Que não sejam somente pesares e misérias.
—Mãe, como és boa!
—E tu, meu filho, és mau?
E no interior da choça desmantelada, com quatro tamboretes e uma mesa de pinho gretada e velha, a mãe abraçou o filho que lutava e vivia para ela.
*
Um mês levou Gervasio fazendo o serviço noturno sem o menor contratempo.
Às doze da noite, saía da choça, levando sua ampla carteira de couro com fortes correias que passava sobre um dos ombros, como sacola de caçador e, por uma trilha estreita, descia à povoação, onde recolhia a correspondência; depois, cortava ligeiramente por um atalho para adiantar terreno e seguia depressa o seu caminho para a estação.
Às primeiras noites, durante a longa caminhada, envolto no silêncio misterioso e inquietante do campo, Gervasio sentiu o medo do desconhecido. O ruído surdo e quase apagado ao roçar a terra enchia-lhe o ânimo de um temor pueril; um ramo movido pelo vento, uma folha desprendida de uma árvore, todos esses rumores quase imperceptíveis, que palpitam serena e suavemente na calma e na solidão da noite, povoavam-lhe o cérebro de imagens diabólicas e faziam-lhe acelerar a marcha, como se alguma coisa vaga, imprecisa e impalpável o perseguisse.
Pouco a pouco, como um soldado que entrou em batalha muitas vezes, conseguiu dominar seus nervos, e aqueles ruídos do campo lhe pareceram uma grata e suave sinfonia, e detinha-se a beber à borda dos riachos, e cantava em alta voz, olhando alegre e sorridente as estrelas que pareciam lhe fazer sinais do céu.
*
Não acontecia o mesmo com Rosa, a mãe de Gervasio. Desde que o seu filho havia mudado as horas de trabalho, a pobre mulher sofria horrivelmente. Para que Gervasio não suspeitasse de nada, procurava parecer alegre quando estava ao seu lado; mas, ao chegar às doze horas da noite, o seu semblante se entristecia, e procurava, então, o canto mais escuro da choça, onde só chegava uma débil claridade do antigo lampião de azeite que difundia pela sala uma luz fraca e agonizante.
—Até logo, mãe; deita-te logo e fecha bem a porta. Amanhã é o primeiro dia do mês e recebo minha primeira paga pelo serviço noturno. Trar-te-ei doce da casa da senhora Tomasia. Amanhã é dia grande!
—Que a Virgem te acompanhe, filho! Deus recompensará tudo o que fazes por mim.
E a mãe, quase nublados os olhos pelas lágrimas, beijou o filho, e não fechou a porta da choça até que o viu desaparecer por uma estreita trilha que se desenrolava, perdendo-se monte abaixo.
*
Rosa despertou sobressaltada. No silêncio da noite, havia ouvido uns golpes que retumbaram sinistramente no interior da choça. Um tremor nervoso agitou o corpo da anciã. Despertada completamente, apurou o ouvido. De repente, tremeram as paredes. Uns golpes, mais fortes que os primeiros, foram dados com nervosa insistência.
Um pensamento terrível assaltou o cérebro de Rosa. Seria o seu filho? O amor de mãe venceu o medo. Saltou do enxergão que lhe servia de leito e arrastou-se até á porta; e, ali, reunindo todas as suas forças, conseguiu dizer em voz alta.
—Quem é? És tu, Gervasio, meu filho?
A anciã se calou. Houve um momento de terrível emoção. Ninguém respondia às suas angustiosas palavras, e só depois de uns instantes os golpes soaram de novo sobre a porta, mais ruidosos, mais intensos.
O terror lhe paralisou todo movimento. Era angustioso aquele silêncio profundo que envolvia a noite, rompido de vez em quando por aquele ruído trágico, misterioso, insistente.
Um novo golpe foi dado com tanta força que o lampião de azeite, que estava colocado em uma das paredes, veio ao chão. Com os olhos quase fora das órbitas, a velha uniu todos os seus esforços e deu um grito desesperado.
— Quem é?
Respondeu-lhe o silêncio, angustioso, desolado, profundo.
Não se movia uma folha nas matas.
Parecia que o vento se ocultava também ante o mistério da noite.
E, de improviso, o ruído voltou. Mas a porta, maciça e forte, resistia. Quando as pancadas eram mais insistentes, a velha sentiu o uivar dos lobos. O terror acabou de paralisá-la. Cessaram as pancadas. Tremeram, detrás da porta, queixumes e respirações cansadas; mas nem um grito, nem um rugido. Pareceu-lhe, depois, ouvir a queda de um corpo sobre a terra. E, ao cabo de uns momentos, o terrível, o monstruoso, o inolvidável: ruídos trágicos, como de ossos triturados e uns discordantes uivos de fera saciada e vencedora. Aterrada, enlouquecida, a velha deu um grito. Depois caiu ao solo pesadamente.
*
Quando, na manhã seguinte, Gervasio regressava da povoação à sua casa, com o ordenado recebido e com os doces prometidos à sua mãe, fê-lo deter-se um espetáculo horrível. Na porta de sua casa, horrivelmente despedaçado, viu o cadáver de um homem. Com um gesto de repugnância e um movimento de terror, passou por cima daqueles restos mutilados e chamou com voz que era mais um grito de angustia:
— Minha mãe! Mãe!
Repetiu o grito; chamou e bateu de novo. Tudo inútil. Ninguém lhe respondia. Como um louco, correu à povoação. Em pouco tempo, estacionou defronte da casa um grupo de gente, contemplando, com horror, os restos daquele cadáver meio devorado pelos lobos. Com achas, conseguiram derrubar a porta. Gervasio procurou avidamente sua mãe. A princípio, não pôde vê-la, mas logo depois um grito de alegria iluminou-lhe o semblante. Em um canto da sala, estava agachada, como que se ocultando a algum perseguidor invisível.
— Mãe, mãe! — exclamou Gervasio, estendendo os braços para ela. —Tiveste muito medo, não é verdade? Nunca mais me afastarei de ti. Deixarei o emprego. Maldita noite!
Mas a anciã não lhe respondeu, nem os seus braços se abriram para receber o filho. Seus olhos estavam fixos em um ponto muito longínquo, como se não tivesse percebido a presença de ninguém.
Gervasio avançou para sua mãe; mas ela fugiu, soltando um grito. Depois riu, com um riso estranho, frio, cortante. O terror a transformara em idiota. Gervasio caiu nos braços da gente da aldeia, soluçando como uma criança.
*
Depois de não poucas informações, pôde identificar-se o cadáver que se encontrou na porta da choça: era um mendigo mudo que vivia desde muitos anos da caridade da povoação.
Fonte: Primeira/RJ, edição de 25 de julho de 1927.
Ilustração: Giacomo Ceruti (1698 – 1767).
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