O CONDENADO À MORTE - Conto Clássico de Horror - J.-H. Rosny
O CONDENADO À MORTE
J.-H. Rosny
[Joseph-Henri-Honoré Boex (1856 – 1940) e Séraphin-Justin-François Boex (1859 – 1948)]
Tradução de Alberto Vieira
(Séc. XX)
Era a minha primeira causa importante — referia o advogado Basseterre. — Ela foi a origem de minha fortuna e de minha celebridade. O homem que me aceitara como defensor tinha cometido um crime horrível. Tinha assassinado dois velhos, os esposos Maillot, com refinamentos de ferocidade. Tendo a mulher sobrevivido a pontapés que lhe dera no ventre, susteve a sua cabeça na chama de uma lareira, um fogo que ardia mal, até que cessou de gritar, de respirar, de se mover.
O rosto daquele assassino indicava bastante — e bem — o seu carácter. Uma testa e um nariz estreitíssimos, umas mandíbulas desmesuradamente largas. Uns olhos redondos, brilhantes como os de um chimpanzé e que fosforeciam debaixo de umas sobrancelhas serradas como bigodes. Os braços terminavam numas mãos enormes, vermelhas, cujas linhas cresciam com uma rapidez fantástica e surpreendiam pela sua largura.
Seu crime lhe tinha valido dezessete francos, porque as economias dos velhos estavam na Caixa Econômica. Não havia razão, para ele, de se arrepender; não sentia o seu crime; revelava quase exatamente o estado d’alma de um lobo ou de um leopardo que acaba de devorar sua presa. Porém, como à sua alma de fera se unia uma memória de homem, estava pesaroso de não ter recolhido um despojo mais abundante e, sobretudo, de se ter deixado prender. Assim mesmo, conservava a recordação de uma bebedeira, durante a qual dez litros de vinho e inumeráveis copázios de aguardente tinham exaltado seu cérebro.
— Até que, enfim, bebi, pra me satisfazer! — repetia com um riso feroz.
*
Desempenhei minha missão o melhor que pude. No princípio, Pierre Fourgues se mostrou extremamente desconfiado e ameaçador. Não me respondia, dirigindo-me olhares quase homicidas. Depois de alguns dias, certificou-se de que eu era realmente seu defensor e, uma vez que alterquei com o juiz de instrução, soltou uma espécie de latido gritando:
—Bat!
Logo me outorgou a sua confiança, fazendo-me ao mesmo tempo confissões que me molestavam e me enchiam de espanto. No dia do júri, defendi com calor. Apresentei o meu constituinte como uma vitória da incúria social; descrevi a sua vida de órfão e de vagabundo; fiz um apelo à justiça e, sobretudo, à compaixão dos jurados. O homem-fera a quem o interrogatório, por várias vezes, provocara acessos de furor, e que, por várias vezes, fizera menção de saltar sobre o procurador-geral, foi tomado de uma emoção inaudita quando falei por minha vez.
Com as pupilas dilatadas e a boca entreaberta, a cada momento estendia para mim as suas mãos calejadas ou soltava um grunhido de reconhecimento. Quando acabei, urrou:
—Essa é a verdade!
Escutou o veredito e a condenação, com indiferença, fosse porque compreendesse mal, fosse porque seu intelecto rudimentar não lhe permitisse se interessar por um porvir que transpassava vários dias.
Quando estive na Roquette (porque isto se passava ainda no tempo da Roquette), solicitou frequentemente para me ver. Recebia-me com demonstrações que se assemelhavam bastante às de um cão que torna a ver seu dono. Além disso, quase não se incomodava. Sabia que eu me ocupava em obter o seu indulto e depositava confiança em mim, certo de que eu conseguiria, no fim, lhe salvar a cabeça. Unicamente achava muito longo o tempo, porque estava habituado ao ar livre; sua cela lhe parecia sufocante e fastidiosa, tanto mais que não entendia grande coisa de jogos de cartas...
Não me falou mais que em duas outras ocasiões acerca da possibilidade de sua morte; então me dizia:
—Seguramente, virás ver-me no último momento.
Eu lhe prometia, decidido a cumprir a minha palavra.
*
Apesar de meus esforços, foi-lhe negado o indulto. E, numa madrugada brumosa de novembro, me encontrei ante a cela do condenado, com a magistratura, o carcereiro, os guardas e Deibler1. Todos estávamos muito comovidos, inclusive os guardas. O preso dormia pacificamente; aliás, suas noites eram boas. A ideia de seu despertar nos produzia um frio no coração.
Abriu-se a porta. Tão profundo era o sono do desgraçado que nem sequer se apercebeu disso. Podia-se distinguir a sua cabeça escura, seu rosto amorenado e a forma avultada de seu corpo debaixo das cobertas.
Um guarda o tocou suavemente.
Esboçou um vago gesto, levantou meio corpo e esfregou os olhos, proferindo um grunhido. Depois se endireitou na cama e nos olhou com uma surpresa evidente, porém sem temor.
— Que aconteceu? — berrou — São horas de incomodar a gente?
Então o procurador, extremamente pálido, murmurou com voz trêmula:
—Pierre Fourgues, espero que terás coragem… O teu pedido de indulto foi recusado.
—Quê? Recusado? Que é que está recusado?
Imediatamente, compreendeu e se tornou sério.
—Coragem! — disse com voz surda. — Já se verá se se tem.
Levantou-se com firmeza e começou a se vestir. De vez em quando, lançava em seu redor um rápido olhar. Até então, não me tinha reconhecido: eu me mantinha medrosamente oculto atrás dos outros. Porém, bruscamente, me viu, e um vago sorriso contraiu seus lábios.
— Perdão, desculpa-me! — exclamou. —Não te tinha visto… Já estou contente!
Conservava o paletó nas mãos e me olhava nos olhos, com um misto de confiança, de afeição e de estupor.
— É verdade o que diz este homem? — perguntou.
— É verdade — balbuciei com voz aniquilada. — Porém, estou certo de que você não desfalecerá.
— Eu desfalecer! Esta é muito boa!
E me estendeu as mãos, murmurando:
—Jamais esquecerei o que fizeste por mim.
Depois do quê, pôs o paletó. Indubitavelmente, sua obscura consciência não se dava uma cabal conta do que estava ocorrendo. Nenhuma ameaça emanava da atitude dos visitantes: devia se figurar que a execução ia ser precedida de alguma cerimônia brutal e terrível.
Todavia, perguntou-me:
— Vêm me buscar para a guilhotina?
Fiz um sinal com a cabeça. Então percebeu a verdadeira situação. Sua morte, que jamais havia imaginado bem, lhe apareceu como aparece à fera deitada por terra. Os dentes começaram a ranger, as suas orelhas se puseram brancas.
Entretanto, fanfarroneou:
—Ficará demonstrado que tenho sangue!
Naquele momento, tocaram-lhe ligeiramente nos ombros. Deu um salto para o lado, se retorceu com um espanto imenso e gritou:
—Não quero! Socorro! Não quero!
Corria em redor da cela. Dois homens o seguraram, porém seus gritos se tinham transformado em um longo ulular de lobo no fundo das florestas. Imediatamente, com uma força terrível, se desembaraçou, desviou o carcereiro, empurrou o procurador e chaiu sobre mim. Abraçava-me, apertava-me com seus braços, atacado de um tremor convulso, seu rosto se escondia no meu colo, como rosto de um menino, e soluçava:
—Salva-me! Salva-me! Salva-me!…
É-me completamente impossível descrever o espantoso daquele minuto. Eu experimentava a impressão de que o assassino se havia convertido em um ser de minha espécie, um ser de meu sangue. Um gosto desagradável me travava a boca. Tinha as entranhas tensas como cordas, e meu coração tão prontamente rugia como uma torrente, como se calava com desfalecimento… Lembro-me que, dos olhos daquele homem escorriam, sobre a minha nuca, lágrimas ardentes…
Eu não podia mais, estava quase desmaiando, quando os ajudantes do verdugo se apoderaram violentamente da vítima e o arrastaram, arquejante, pelo corredor.
Deixei-me ficar ali, aniquilado, sentindo um horror irremissível, que se espalhava entre os juízes, carcereiros e toda gente.
*
Desde então — continuou Basseterre, com um estranho sorriso —, luto pela vida dos criminosos com uma raiva furiosa, ponho em salvar suas cabeças alguma coisa do ardor que poria para salvar a minha… Porém, nunca mais tive coragem para visitar a nenhum de meus clientes na hora formidável em que Deibler examina a “Viúva”2.
Fonte: Primeira/RJ, edição de 10 de setembro de 1927.
Notas:
1Anatole François Joseph Deiblier (1863 – 1939), famoso carrasco francês.
2Apelido da guilhotina. Do final de sua carreira, Deibler supervisionava as atividades de execução a cargo de verdugos subalternos.
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