O DEMÔNIO VERMELHO - Conto Clássico Tradicional Chinês de Terror

O DEMÔNIO VERMELHO

Conto tradicional chinês



Em Hoai-nan (Kiang-sou), um certo Li e sua mulher viviam em grande harmonia. O marido não tinha sequer quarenta anos quando morreu. Depois que ele foi colocado no caixão, sua inconsolável viúva não permitiu que pregassem o ataúde. De manhã e à noite, quando terminava de chorar diante do caixão, como era o seu costume, ela levantava a tampa e contemplava o cadáver do marido.

A crença popular em Hoai-nan é que, na sétima noite após a morte, um mensageiro do submundo traz a alma de volta. Destarte, ninguém queria ficar na fúnebre residência naquela noite. A viúva colocou seus filhos em segurança em outro quarto e, sentada por detrás da cortina da alcova, velava o caixão.

Por volta da meia-noite, um sopro frio encheu o ambiente, e a luz dos candeeiros amainou-se. Sem seguida, um grande demônio, com mais de uma braça de altura, cabelos ruivos e olhos redondos, entrou pela janela. Em uma mão, ele segurava um tridente de ferro; na outra, uma corda com a qual arrastaria consigo a alma do falecido marido.

Assim que viu a comida disposta no aparador, em frente ao caixão, o demônio largou o tridente, soltou a corda, sentou-se e, avidamente, se pôs a comer e a beber.

Entrementes, o espírito do marido, em lágrimas, apalpava os móveis de seu antigo quarto e, aproximando-se da alcova, abria as cortinas. A esposa, a chorar, agarrou-lhe o corpo. Estava frio como gelo. Ela rapidamente o enrolou em um cobertor para escondê-lo do diabo vermelho.

O demônio, tendo terminado de comer e beber, pôs-se à procura de seu prisioneiro. Em voz alta, a mulher chamou os filhos, que correram para o quarto. O diabo vermelho foi embora, de todo desconcertado, esquecendo até mesmo seu tridente.

A mulher, com o auxílio dos filhos, introduziu no caixão o cobertor em que havia envolvido a alma do marido. Prontamente, o cadáver começou a respirar. Então a mulher e as crianças o tiraram do caixão, deitaram-no na cama e lhe deram água de arroz.

Ao amanhecer, o falecido voltou plenamente à vida e recuperou os sentidos.

Os presentes examinaram o tridente deixado pelo diabo vermelho. Era um daqueles em que se queimam o dinheiro de papel oferecido aos mortos.

Marido e mulher viveram juntos por mais de vinte anos. Tinha ela quase sessenta anos quando, certo dia, foi ao templo do espírito protetor da cidade para rezar. De repente, viu dois arqueiros, que traziam um demônio encangado. Era o seu diabo vermelho. Ele a reconheceu e disse:

—Minha gula permitiu-lhe que brincasse comigo uma vez. Eu uso a canga há vinte anos por causa desse erro. Mas, hoje, chegou o dia de enfrentá-la!

A mulher voltou para casa. E morreu naquele mesmo dia.


Versão em português de Paulo Soriano a partir da tradução ao francês de Léon Wieguer (1958 – 1922).

 

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