O FRATRICIDA - Conto Clássico Cruel - Auguste Stoeber

O FRATRICIDA

Auguste Stoeber

(1808 – 1884)

Tradução de Paulo Soriano


Outrora, os três castelos de Saverne eram habitados por três irmãos. O mais velho morava em Haut-Barr, o segundo em Grand-Géroldseck e o mais novo em Petit-Géroldseck.

O primogênito era um bruto, de caráter invejoso, que tinha inveja das propriedades dos mais novos e queria adquirir, pela astúcia ou pela força, tudo o quanto quisesse.

Resolveu livrar-se primeiro do seu segundo irmão, mas de uma forma que evitasse qualquer suspeita.

Certa feita, enquanto caçavam juntos, servos armados, escondidos num matagal, avançaram sobre o senhor de Grand-Géroldseck, vendaram-lhe os olhos, amarraram-no e levaram-no para Haut-Barr. Ali, o seu cruel irmão baixou-o, por meio de um guincho, até uma cisterna profunda, que estava seca. O cozinheiro do castelo era obrigado a trazer-lhe, todos os dias, um pedaço de pão bolorento e um copo de água estagnada.

A mulher do infeliz prisioneiro, uma nobre senhora de Wangen, pedia em vão aos cunhados notícias do marido, rogo que endereçava, também, a todos os castelos, fossem vizinhos e distantes. Por fim, ela se pôde considerar viúva.

Entrementes, o mais velho dos irmãos foi convocado a juntar-se ao exército imperial, em luta contra os infiéis.

Durante a ausência de seu senhor, o cozinheiro, atormentado pela própria consciência, apiedou-se do prisioneiro. Deu-lhe boa comida e água fresca e até lhe trouxe um cesto de folhas, para que ele pudesse se deitar adequadamente. O prisioneiro viveu neste estado miserável por três anos.

Quando chegou a notícia de que o exército, no qual o senhor estivera servindo, retornava, o cozinheiro resolveu libertar o prisioneiro.

Numa noite escura, trouxe uma cesta resistente e, chamando o prisioneiro, instou-o a que se sentasse nela. Tendo-o içado, raspou-lhe a barba e cortou-lhe os cabelos. Depois, preparou a esposa do liberto a recebê-lo. Logo o antigo prisioneiro se viu em seus braços, ainda dolorido e vergado pela fraqueza.

O vitorioso exército voltara e, com ele, o senhor de Haut-Barr. Em comemoração ao seu retorno, o senhor ofereceu um esplêndido jantar no dia seguinte, para o qual convidou os amigos, vizinhos eu seu irmão mais novo.

Falou-se, durante o jantar, sobre a contínua luta e sobre os companheiros que haviam sido mortos gloriosamente.

A conversa, então, mudou para o fratricídio.

Um cavaleiro, que sabia do crime do senhor de Haut-Barr, perguntou-lhe qual seria a punição adequada a quem cometesse semelhante delito.

— Morte imediata — respondeu o senhor de Haut-Barr.

— Tu condenaste a ti próprio! — gritou o cavaleiro.

Este gentil-homem sacou a espada, assim como os demais comensais, e o miserável fratricida caiu morto, mutilado por vários golpes.


Fonte: “Revue des Traditions Polulaires”, fevereiro de 1902.

 

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