O HOMEM DA CAVEIRA - Conto Clássico Macabro - Achiles Vivacqua

O HOMEM DA CAVEIRA

Achiles Vivacqua

(1900 – 1942)


Os últimos jornaleiros apregoavam em gritos soturnos os acontecimentos do dia; e os seus gritos morriam a grande distancia, num sussurro:

—A morte do homem da caveira… O homem da caveira…

Mauro, duas mulheres e um cavalheiro magro deixaram o bacará e tomaram assento a uma mesa aos fundos. Uma das mulheres pediu ao garçom, num sotaque espanhol, uísque. O “cabaretier” anunciava o programa enquanto na orquestra morria um “fox-trot” e, como uma surdina, os últimos requebros de uma dançarina que bailava envolta num céu de fase.

—Sabem da história do “homem da caveira”? — perguntou Mauro, acendendo um cigarro.

E, como todos se conservassem em silêncio, ele continuou:

—A história é simples. Já vai para alguns anos. Toda a cidade comentava de um modo curioso o caso do homem que possuía uma caveira e um coração… — Já foste ao hospício? — Viste o homem da caveira? — Deve ser um caso curioso… Era o que se ouvia de boca em boca; interrogações sobre interrogações, comentários sobre comentários, de toda gente curiosa que ainda não havia acudido ao manicômio com o desejo de saciar sua curiosidade. Às quintas-feiras — dias de visitas ao hospício —, fora suspensa a entrada devido à grande multidão que para lá se dirigia; esgotavam-se as horas marcadas e novas visitas lá chegavam.


*


Mauro calou-se. Com os olhos embaciados, com a claridade baça da lâmpada a refletir-se-lhe na calva polida, rindo em esgares tristes amarelados, quebrou a cinza do cigarro na ponta da mesa e continuou:

—Despertou-me a curiosidade. Embora sabedor das visitas suspensas, tomei a firme resolução de ir lá. Fi-lo num fim de tarde. O imenso casarão do hospício se erigia como uma massa cinzenta no meio de um terreno ajardinado, guardado pelas grossas sentinelas das grades de ferro, emergido no sol que morria lento no ocaso... Na portaria fui recebido pelo administrador — um velho austero, rosto raspado, metido num terno branco, que, ao ver-me, fitou-me os grandes olhos verdes, cheio de surpresa, julgando-me, talvez, algum louco foragido. Externei-lhe o meu desejo, que foi logo satisfeito. Ele ordenou, com palavras rudes e secas, num gesto mole, a um enfermeiro, dizendo que me guiasse. Pusemo-nos a correr o hospício.

De momento a momento, eu perguntava ansioso, perdido no escuro do longo corredor, ao enfermeiro:

—Onde está o homem da caveira?

—Lá havemos de chegar… Lá havemos de chegar… É na cela 13. Aqui tem vindo tanta gente visitá-lo que o senhor nem pode imaginar. Felizmente, foram suspensas as visitas. Nem sei como o administrador consentiu que o senhor aqui entrasse…

E o velho enfermeiro, fazendo-me parar, perguntou-me:

—Ouve?

— Sim; perfeitamente.

—É ele. Fica assim o dia todo. Se alguém se aproxima de sua cela, põe-se a andar de um lado para o outro, como que incomodado.

Do fundo do longo e escuro corredor que corria abrindo bocas tristes, chegavam aos meus ouvidos, numa voz roufenha:

—Ri… ri… cínico, palhaço… ri… ri mais…

Dir-se-ia que alguém, revoltado contra as leis imponderáveis do destino, no tom lúgubre de sua voz, deixava derramar-se sobre tudo a bílis do ódio, perdido na escuridão inexaurível de sua vida; e esse contínuo falar se assemelhava ao grito de uma ave noturna, povoando de terror as noites aziagas.

Aproximamo-nos da cela. O homem calou-se repentinamente. Era um rapaz alto, magro, rosto cavo, trajado de uma roupa preta. Estava recostado a uma mesa numa pose de tédio. Perturbado com a nossa presença, pôs-se a andar de um para o outro lado da pequena cela, ora arrepiando a barba preta, ora o cabelo em desalinho.

Viam-se, na sua fisionomia cadavérica, os traços acentuados de moço coberto por uma velhice precoce, com o destino a marcar-lhe a eterna infelicidade.

Depois, achegando-se um pouco à mesa, apontou para a caveira e, com um sorriso amargo, num tédio infinito de tudo:

— Ri… cínico, palhaço…


*


A noite alongava-se. Em torno do pano verde do bacará caíam as fichas de marfim num som monótono, e os jogadores se conservavam imóveis, cheios de emoção.

Mauro silenciou. Emborcou mais um copo de uísque, acendeu o toco de cigarro. A lua passava nas alturas do céu, e lá fora as árvores, banhadas pela sua claridade, desenhavam formas pelas ruas em figuras estranhas; e o vento, posto que brando, agitava-as ao de leve.

Mauro, erguendo os olhos do copo, prosseguiu pausadamente:

—Lá dentro, na pequena cela, tudo estava em desordem. Sobre uma mesa batida pelo sol, que morria no ocaso muito lento, estava uma caveira, e, numa redoma muito transparente, uma massa compacta, balouçava-se como se pulsasse dentro de um pequenito peito, envolta num líquido espesso e amarelado, deixando mal perceber a forma de um coração, guardado como testemunho de uma juventude que se fora.

Após haver contemplado, por algum tempo, aquela cena, perguntei ao velho enfermeiro:

—Mas… por que é que ele ficou neste estado?

O paciente velho, rindo entre os longos bigodes grisalhos, como que habituado aos sofrimentos alheios, tomou-me pelo braço familiarmente e, guiando-me pelo corredor, murmurou:

—É o destino…

E, torcendo o bigode, falou-me na sua voz grossa e lenta:

— Este pobre moço foi um dos mais dedicados e estudiosos médicos... Mas o que o levou a este estado não foi mais do que um banal drama de amor. Era noivo. A noiva adoecera. Chamaram os médicos mais afamados da cidade. O diagnóstico não fora difícil. Ficou constatado um tumor interno na região do abdômen. Houve a intervenção cirúrgica num dos hospitais de saúde da cidade e verificaram, então, que o tumor era maligno. Nada a remediar.

O enfermeiro fez-se silencioso. Depois disse, pensativamente:

— Logo após a operação, ela voltara da ação do éter. E, meio inconsciente do que fazia, na ânsia em que ficam os operados recentes, como o senhor sabe, devido a intoxicação do anestésico, sob as dores horríveis, num ímpeto de verdadeira loucura, despedaçara as ataduras e tentara romper com unhas pontudas e pálidas os pontos, na esperança de um alívio… Os socorros médicos foram prontos, porém, de nada valeram, vindo a falecer dias depois. Ele se conservara numa impassibilidade completa, como se nada lhe houvesse acontecido.

O enfermeiro interrompera sua narrativa para mostrar-me dois homens que, ao fundo de uma cela, desenhavam, de cócoras. Num dos cantos, um deles fazia, com giz de diversas cores, uma catedral, e, no outro canto, um moço de grandes olhos vivos traçava uma estrada de ferro. O traçado subia, descia, fazia curvas e ia morrer nos alicerces da Igreja. Depois ele tomou de um lápis, fez alguns cálculos num pedaço de papel, levantou-se e, dirigindo-se ao outro, disse qualquer coisa. Em dado momento, os homens travaram uma longa discussão. O que traçava a estrada de ferro queria que demolisse a catedral, alegando que o corte da estrada não podia ser feito pelo lado de baixo, devido à cidade, e pelo lado de cima havia a grande pedreira. Ficava muito cara a construção.

—Tem que demolir!

—Não vou demolir!

—Vamos indenizá-la.

—E o bispo?

E ficaram assim nessa teima, por longo tempo, exaltados.

—São dois loucos interessantes — disse-me o enfermeiro. — Ficam assim o dia todo.

—E não brigam?

—Não. Depois entram num acordo. Aquele moreno é construtor de estradas de ferro, e o outro fora, no seu bom tempo, um grande arquiteto.

E, sempre com um sorriso nos lábios grossos, o enfermeiro murmurou:

—É o destino…

—E a história do 13? — perguntei-lhe.

—Já me ia esquecendo. No quinto aniversario da morte de sua noiva, os jornais espalharam a alarmante notícia da violação de uma sepultura, na necrópole. Era da noiva do 13. Desde que a noiva morrera, ele abandonara sua grande clínica, encerrara-se em sua casa, vivendo grande parte do tempo em sua biblioteca, atirado sobre os livros, num estudo contínuo. Raramente saía. Toda a gente comentava sua ausência, dizendo que breve ele iria enriquecer a ciência com uma grande obra de medicina, fruto de um contínuo estudo. Mas não foi o que se deu. Meses depois da violação da sepultura, ele entrava aqui, sobraçando aquela redoma e a caveira…

—Onde ele tirou aquele coração?

—Ah!. O cadáver fora transportado para o necrotério e, enquanto aguardava ali a remoção à casa de sua família, ele, sem que ninguém o pressentisse, tirou-lhe o coração…


*


Houve silêncio. Todos ficaram calados, com os olhos nos copos vazios. Mauro pediu mais vinho. Chegava à antessala a voz do “cabaretier”, anunciando o fim do programa. Do pequeno compartimento com as cortinas corridas, as fichas caindo no pano verde tinham o som de uma música monótona. O cavalheiro magro pediu alguns sanduíches. Mauro, muito pálido, prosseguiu pensativamente:

—Estávamos de novo ante a cela do 13. Pela grade da janela, uma faixa oblíqua de sol, frouxa e triste, filtrava-se e ia batendo o crânio liso da caveira, numa refração de ouro velho, e ela parecia rir sarcasticamente àquele coração como uma ironia do destino…


Fonte: “Primeira”/RJ, edição de 10 de outubro de 1928.

Ilustração: Érico.

Fizeram-se breves adaptações textuais.


 

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