O JOVEM MOLEIRO TRANSFORMADO EM ASNO - Conto Clássico Fantástico - Auguste Stoeber
O JOVEM MOLEIRO TRANSFORMADO EM ASNO
Auguste Stoeber
(1808 – 1884)
Tradução de Paulo Soriano
Perto de Saverne existe um moinho que, até há pouco tempo, pertencia a uma viúva.
Um jovem moleiro, que ali trabalhava, apaixonou-se pela única filha da moleira.
Pensava a ele que valia a pena o esforço, porquanto a jovem, frequentemente, ia vê-lo em sua faina no moinho, e, de longe, ouvia-o cantar.
Todavia, o jovem percebeu que a moleira e a filha ausentavam-se frequentemente à noite e só retornavam ao moinho na manhã seguinte.
Mas não as via sair e entrar.
Motivado pela curiosidade e pelo ciúme, escondeu-se debaixo da cama da moleira. Viu-a, com a filha, abrir um armário, dele tirar um pequeno pote e esfregar-se com o conteúdo, murmurando certas palavras. Foram então as duas para a cozinha e, então, ele nada mais percebeu.
O moleiro saiu apressadamente do seu esconderijo, pegou o pote, onde havia um unguento acinzentado, e, esfregando as mãos com a untura, disse as únicas palavras que entendera:
— Na frente e contra lado nenhum!
Seguiu para a cozinha, mas sentiu-se erguido em pleno ar. E, como que arrastado por um redemoinho, entrou pela chaminé, já a ponto de perder a audição e a visão.
Quando recuperou plenamente os sentidos, estava no famoso cume do Bastberg, acima de Buchsweiler. Aquele era o ponto de encontro de bruxas de toda a região. No meio de uma miríade de bruxas, o jovem moleiro viu a sua patroa e a sua amada.
As bruxas partiram-lhe para cima e quiseram matá-lo ali mesmo, para que não as traísse. A filha do moleiro quase não conseguiu salvá-lo, mas, como castigo por sua curiosidade, ele foi transformado num burro. Antes de finda a assembleia, a jovem, compassiva, sussurrou-lhe que, se ele bebesse água benta, o encantamento estaria quebrado.
Na manhã seguinte, um camponês encontrou o asno e levou-o para casa. Ali, era obrigado a carregar estrume, sarmento e grama. Frequentemente, ele queria contar ao seu amo e aos demais o seu infortúnio; todavia, malgrado conservasse a razão humana, somente conseguia zurrar como um asno e levava uma boa sova por isso.
Permaneceu nesse estado por quase um ano. Finalmente, depois de muitas infrutíferas tentativas, conseguiu entrar numa igreja, cuja porta estava aberta. Aproximou-se da fonte de água benta, bebeu um grande gole e retomou a sua forma humana.1
Nota:
1Vide a narrativa “O Marinheiro Transformado em Asno”, de Heintich Kramer e James Sprenger (https://www.contosdeterror.site/2018/12/o-marinheiro-transformado-em-asno.html) .
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