O LUTO - Conto Clássico Fúnebre - Georges d'Esparbès
O LUTO
Georges d'Esparbès
(1863 – 1944)
Tradução de Danilo Madureira
(Séc. XX)
O pintor Jacques Tholomet, de regresso da cidade de Medicis, saltou na plataforma da estação de Bois-le-Roi.
—Já está de volta?—disse-lhe um empregado que marcava os bilhetes.
—Você me conhece? — perguntou, surpreendido, o pintor.
—Sim. Ainda quando eu era jardineiro em Chartrettes. Deixei a cidade no mesmo dia em que o senhor partiu para Roma.
—Então conheceria você o Duval, aquele velho que odiava os pintores… e a sua filha Madeleine? — disse alegremente o pintor.
O empregado mudou de expressão e disse tristemente:
—A senhorita Duval morreu faz dois anos.
—Como?— exclamou o pintor empalidecendo. — Será possível? Não estará você enganado?
—Estive no enterro dela. Todo o mundo chorava.
Tholomet, com os lábios brancos, pediu o bilhete e se despediu do empregado com algumas frases maquinais.
Em vez de se dirigir para Bois-le-Roi, margeou o rio e, guiado pela sua dor, caminhou até avistar uma colina, em cujo topo ficava a cidade. Sentou-se na relva e murmurou como um menino:
— Madeleine… vês… voltei… Por que não me esperaste? Amei-te tanto!
Teve desejos de chegar até Chartrettes, falar com aqueles que assistiram aos últimos momentos de sua amada, mas… Saberiam compreender a sua imensa dor? Não o incomodariam com perguntas torpes, indiferentes, que o fariam sofrer ainda mais?
Depois de uma larga reflexão, decidiu não ir. Era melhor.
*
No dia seguinte, alugou uma casinha em Bois-le-Roi, e seus companheiros de Brol e Samois o auxiliaram a mobiliá-la.
Tholomet começou a trabalhar. Uma pequena renda lhe permitia viver à vontade e o pintor se refugiou no seu atelier, ante o cavalete, só com o seu mal secreto e incurável.
Tudo quanto fazia era pensando em Madeleine.
—Gostaria ela deste quadro?… Este tom verde, este malva? Creio que sim… minha Madeleine!
Todas as tardes, ao anoitecer, Tholomet, como em piedosa peregrinação, ia às proximidades do rio para contemplar a colina de Chartrettes. Onde estaria ela enterrada?... “Talvez ali”, pensava o artista ao ver um grupo de ciprestes que se elevava para o céu.
Também não tinha coragem de se aproximar. Sua dor era forte, sombria e buscava a solidão.
Permanecia muito tempo sentado na relva, até que tudo se fundia na sombra e aparecia uma luz rosca, como uma estrela de nácar, no alto de Chartrettes.
Tholomet havia feito dela uma amiga e se comprazia em contemplar aquela flor resplendente no meio do azul. Continuava na obscuridade, marcando o lugar onde dormia a sua Madeleine, a adorada, e o pintor lhe agradecia que tivesse só para ele tantas recordações doces e dolorosas…
E acreditava, no seu desespero, que a luz tinha alguma coisa da alma daquela que não pôde esperar a felicidade.
Dois, três anos se passaram. Para Tholomet, os dias eram sempre iguais. Fazia o mesmo passeio com a mesma tristeza grave, esperando sempre ver a luz que era o seu onico consolo. Depois voltava vagarosamente para casa, detendo-se a cada momento para voltar-se e se despedir daquele reflexo, na treva dupla da noite e da sua alma.
— Como é orgulhoso! — diziam os aldeões, ao ver que ele não falava com ninguém.
Seus amigos já não vinham vê-lo.
—Esse pobre Tholomet deve estar louco! — comentavam nas suas alegres reuniões.
*
Uma noite, aconteceu algo de extraordinário. Em vão o pintor olhava Chartrettes com angustia infinita. A estrela rosca não apareceu. Que teria acontecido?
Durante dois, três dias, Tholomet esperou, com pungente emoção, que se acendesse a luz misteriosa; mas só viu o bloco escuro da colina… O esplendor rosco desaparecera para sempre.
Triste, desalentado, como quem perdeu a razão de viver, o pintor abandonou a palheta e os pincéis, fugindo do trabalho que antes era seu lenitivo, e uma tarde foi até seus companheiros, que se admiraram do seu rosto emagrecido e de seus olhos melancólicos.
—Que te acontece? — perguntaram-lhe.
—Chartrettes… Algum de vocês conhece essa cidade?
Alguém ia responder-lhe, quando entrou o carteiro.
—Homem! — disse um dos companheiros. — Ali tem um de Chartrettes… Ele poderá dizer-lhe o que quiser.
Tholomet, vencendo a emoção, perguntou:
— Sabe você de que casa era uma luz rosca que se via em Chartrettes, perto da igreja?
—Já lhe digo! Morava uma mulher enferma que não podia dormir e velava toda a noite.
—Quem era?
—Madeleine Duval.
—Quê!… Não estava morta há cinco anos? — respondeu o pintor, estremecendo.
—Havia duas do mesmo nome. Você fala da loura ou da morena?
—Da morena.
—Ah! Então é essa que morreu há alguns dias.
Tholomet, gelado, hirto, encostou-se na parede e balbuciou:
—Morreu de quê?
— Na verdade, não sei — disse com indiferença o carteiro, já no umbral da porta. — Diziam que de pena, porque estava esperando o noivo, que foi pintar em Roma e nunca mais voltou…
Fonte: “Primeira”/RJ, edição de 10 de agosto de 1927.
Ilustração: Gabriel von Max (1840 – 1915).
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