O NABABO E O FALSO VAMPIRO - Narrativa Clássica Pseudo-sobrenatural - Reginald Heber

O NABABO E O FALSO VAMPIRO

Reginald Heber

(1783 – 1826)

Tradução de autor desconhecido do séc. XIX



O defunto sultão de Aoude gostava muito de mecânica. Certo dia, enquanto presenciava várias experiências, levaram-lhe um mecânico de muitíssimo talento e de primoroso engenho em suas invenções.

O sultão entrou a conversar com ele, e deu tais provas do gosto que achava neste colóquio, que o grão-vizir temeu que o recém-chegado o suplantasse, algum dia, no valimento do seu senhor e, portanto, mandou insinuar ao maquinista com estas palavrinhas: “Se tens juízo, sairás de Laknau”1. O pobre homem, sem esperar que lhe repetissem o aviso, foi levantar sua oficina a dez milhas da cidade, na beira do rio. Disseram ao nababo que ele tinha morrido do Cholera morbus. Este monarca ordenou que remetessem à viúva e filhos uma porção de dinheiro, e não houve mais menção do pretendido defunto.

Quando entrou a estação das chuvas, o nababo embarcou no seu brigue de guerra e desceu o rio; e, ao passar a vista no lugar da nova residência do mecânico, observando o asseio e a engenhosidade da casinhola, mandou abordar. Quem viu ele? O defunto mecânico, todo trêmulo e prostrado no chão, que o suplicava se dignasse ouvi-lo. Bastou uma breve explicação para que o príncipe, cheio de ira, o houvesse em sua companhia à bordo do brigue, que voltou a Laknau.

Apenas chegado o sultão, mandou vir o vizir, e lhe pediu a confirmação da morte do mecânico.

— Infelizmente, não há lugar para dúvida — respondeu o ministro. —Eu me certifiquei desta morte, indo pessoalmente levar à família o presente de Vossa Majestade.

Hurumzada! — exclamou o soberano em um ataque de raiva. — Aqui o tens, olhe, e fugi da minha presença!!

O vizir, virando-se, conheceu o precipício em que estava. Com um olhar aterrador, de que o nababo não podia dar fé, ele impôs silêncio ao pobre engenheiro; e, apertando as ventas com os dedos, voltou-se para o amo, soltando várias exclamações, bem como estas:

—Deus, tendes piedade de mim! O quanto Satã é potente! Retro, demônio, em nome de Deus!

E, dirigindo-se ao engenheiro, disse:

— Folgo de pensar que Vossa Majestade não tocara abominável coisa!

— Tocá-lo — respondeu o sultão — não era preciso; basta a vista para me convencer de seu pérfido ardil!

Istudirullah! — disse o vizir. — Vossa Majestade não sente um fétido cadavérico?

O nababo enfureceu-se outra vez; porém, pouco a pouco, o temor rendeu a indignação, e quando a voz do monarca ia esmorecer, disse o vizir:

—É mais que certo — oh, refúgio do mundo! — que o seu engenheiro (Deus o haja em sua santa paz) faleceu e se enterrou; mas este vosso escravo ignora quem roubou o corpo ao túmulo ou qual o vampiro que atualmente o anima, para o maior espanto dos bons muçulmanos! O melhor era investi-lo e cravar-lhe um ferro no peito, mesmo à vista de Vossa Majestade. Se fosse lícito derramar sangue na presença dum príncipe tão grande e tão excelente, permita somente Vossa Majestade que nos retiremos, e eu me incumbo de reconduzir o cadáver à tumba. Sem dúvida, quando a vir aberta, ele não se fará muito rogar para nela se restituir.

O sutão, todo espantado, não sabia o que dizia ou ordenava; entretanto, empurram para fora o engenheiro terrificado, ao qual o vizir, opondo-lhe uma bolsa entre as mãos, disse ao ouvido:

— Se amanhã não estiveres além das fronteiras da Companhia, eu te tratarei como um legítimo vampiro!

O engenheiro, julgando toda réplica supérflua, foi-se e o nababo jamais soube dele.


Fonte: “O Beija-Flor”/RJ, 1830, nº 5.

Fizeram-se breves adaptações textuais.

Ilustração: PS/Copilot.


Nota:

1Esta cidade, capital do estado do nababo de Aonde, tem a fama duma maiores do Industão. O rio navegável Goumtd a divide. (N. do E. original.)

 

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