O VAMPIRO - Conto Clássico de Terror - Pierre Boitard
Pierre Boitard
(1789 – 1859)
Tradução de autor anônimo do séc. XIX
Há pouco mais ou menos duzentos anos que, em uma pequena aldeia da Boêmia, vivia uma donzela lindíssima, filha duns honrados lavradores. Maria era tão meiga quanto formosa, porque tinha todas as qualidades que tornam a mulher verdadeiramente amável. Em casa, toda a gente a amava. Na vizinhança, todos a estimavam, porque viam nela um exemplo de piedade filial. Enfim, o seu proceder honesto tinha-lhe granjeado a estima e a consideração geral.
Maria tinha dezoito anos quando à aldeia chegou um jovem estrangeiro de boa presença e maneiras muito distintas, e que, não só por isto, mas pelo seu trajar à moda da cidade, se diferençava muito dos habitantes da aldeia. Por ajuizada que fosse, Maria, como todas as moças do sítio, não pôde deixar de fazer reparo nele e, desde então, a sua sorte parece que ficou decidida.
O estrangeiro tomou habitação junto da de Maria, de sorte que todos os dias se encontravam e olhavam-se mutuamente. Mas ele olhava-a com uns olhares singulares, estranhos, com nus olhares cuja expressão Maria nunca tinha visto nos olhos de nenhum dos rapazes da terra. E aqueles olhares tinham para ela uma fascinação irresistível, a que ela não podia fugir, a ponto de lhe causar vontade de chorar sem motivo, de experimentar alegrias desusadas, de sentir comoções violentas e singulares.
Alguns dias depois, Hantz, que assim se chamava o rapaz, falou-lhe e, então, tudo mudou de figura.
Desde esse momento, a desgraçada nunca mais dormiu e, se por acaso a fadiga lhe fechava os olhos, visões esquisitas e misteriosas lhe agitavam o sono.
A imagem do estrangeiro aparecia-lhe em todos os sonhos, mas de maneira diferente sempre: ora via-o como um anjo do céu, mandado para lhe dar a felicidade; ora era um demônio do inferno, vindo expressamente à Terra para a perder e arrastá-la com ele ao abismo eterno. Então, a desgraçada debatia-se contra essa horrível visão e acordava sobressaltada, pálida, extenuada, inundada de suor glacial; depois, uma febre lenta foi apagando a pouco a pouco as rosas das suas faces e o carmim de seus lábios; enfim, a tristeza que a consumia aumentou a par e passo com as inquietações vagas, mortais, que lhe oprimiam o coração.
Durante muito tempo, Maria lutou contra esta tortura, sem lhe valerem as orações, os jejuns, as promessas que fez a todos os santos do paraíso.
Um dia, ao cair da noite, ao voltar da aldeia próxima, caminhando apressada, porque a Lua não tardaria a romper detrás das montanhas, Maria foi surpreendida por um ruído, e uma espécie de fantasma se desenhou diante dela, no meio dum maciço de pinheiros, e cujos olhos chamejavam como lumes. Depois, viu-lhe chifres, uma extensa língua vermelha, garras nas pontas dos dedos e os pés revirados em forma de ganchos. Maria quis fugir; mas poucos passos tinha andado, que uma voz melodiosa a chamou de mansinho:
—Maria! Maria!
A donzela sentiu que um cruel destino a perseguia e, não se julgando com forças para a luta, parou e esperou.
Hantz, pois era ele, aproximou-se de Maria e tomou-a pela mão, dizendo-lhe:
—Tu tremes! Tens medo de mim, de mim que te amo e só te desejo ver feliz!
Neste momento, a Lua cheia surgiu detrás das montanhas, e a pobre Maria, ao clarão dos seus pálidos raios, não viu língua vermelha, nem chifres, nem garras, nem pés enganchados; mas, sim, achou-se dianto dum belo rapaz que lhe apertava a mão e lhe dizia:
—Amo-te!
A desgraçada não teve forças para responder; o Hantz prosseguiu:
—Tu também me amas, e, pelo Céu ou pelo Inferno, seremos felizes!
Ao ouvir estas palavras, a donzela estremeceu. Mas, apesar da horrível blasfêmia do seu namorado, não retirou a mão dentre as dele, e ambos voltaram à aldeia encantados um do outro.
O rapaz conduziu-a a casa dos pais e pediu-a em casamento. Foi-lhe concedida a mão de Maria e combinou-se que o casamento se efetuasse dali a vinte e cinco dias, porque, por um estranho capricho que então se não soube explicar, o noivo quis que a cerimônia se realizasse em um dia de Lua cheia.
Maria tornou-se mais bela e mais fresca do que uma flor da primavera. Contudo, a vaga inquietação, em que a sua alma pairava, não a abandonava, porque tinha sempre diante dos olhos um demônio negro, consequência da blasfêmia do seu amante e do adiamento do casamento até a Lua cheia.
De repente, Hantz mostrou-se triste, depois caiu em uma sombria melancolia; uma palidez mortal se espalhara sobre o seu rosto; todas as forças o abandonaram. Não quis consultar médico algum e, quando Maria lhe perguntava do que sofria, respondia com um sorriso doloroso, que dilacerava a alma. Enfim, na véspera da Lua cheia, morreu, o que lançou Maria na maior consternação. Os pais e os vizinhos choraram igualmente a morte do rapaz, que todos estimavam.
Durante três dias, Maria não fez mais do que chorar; a sua desesperação era extrema, e receava-se até pela sua vida, quando, de repente, se mostrou serena e resignada.
Passaram-se três meses.
Maria tinha retomado o curso ordinário dos seus trabalhos, mas notava-se que já não ia à missa, e uma profunda melancolia lhe pintava no rosto, ao passo que emagrecia a olhos vistos. Nunca mais pronunciou o nome de Hantz e parecia tê-lo esquecido completamente.
Sua mãe julgou notar que estava muito mais pálida de manhã do que à tarde, especialmente durante a Lua cheia e, como uma mãe não cansa em solicitude a respeito dos filhos, fez um buraco na porta do quarto onde Maria dormia, para se assegurar se sua filha, de noite, se entregava a alguma vigília que lhe alquebrasse as forças. Nas primeiras noites não viu nada; mas, enfim…
Acabava de dar meia-noite no relógio da freguesia. Maria estava deitada e a Lua, saindo detrás duma nuvem, lançava os seus raios sobre a janela do quarto, iluminando-o completamente.
A mãe ouviu primeiramente um longo suspiro, depois uma voz débil que murmurava estas palavras:
—Oh, Hantz! — exclamava Maria, sonhando, sem dúvida. — Hantz do meu coração! Amo-te! Sim, amo-te muito! Mas parece-me que as tuas carícias gelam-me o coração, que os teus beijos trazem consigo a morte!... Oh! Eles sufocam-me, matam-me!
Em seguida, expeliu um prolongado suspiro, e a mãe não ouviu mais nada. Aplicando, porém, um olho ao buraco da porta, viu…
Imaginem do seu espanto, do terror que se lhe apoderou da alma. Esfregou os olhos, sacudiu-se para se certificar de que estava acordada. Enfim, fez o sinal da cruz, não podendo duvidar de que aquilo era coisa ruim. Porque o quo ela viu... era um vampiro!
Certificou-se e reconheceu Hantz. Não o Hantz magro, pálido, abatido pela doença como no dia em que morreu; mas o Hantz gordo, fresco, corado, bonito, como quando chegou à aldeia.
E, contudo, havia mais de três meses que Hantz morrera e fora sepultado no cemitério da freguesia.
O espectro estava de pé, ao lado do leito, com a cabeça pendida sobre o travesseiro em que Maria descansava o rosto, envolto nas formosas tranças do seu cabelo, e tinha os lábios colados ao pescoço de alabastro da donzela. A velha julgou ver que desse colo saía uma gota de sangue, que o amante sugava com avidez. Então a pobre da mulher deu um grito e caiu por terra, sem sentidos.
Ao ruído da queda correram o pai de Maria e todas as pessoas de casa, que lhe prestaram os necessários socorros; e, abrindo a porta do quarto, correram ao leito, onde nada acharam de extraordinário, a não ser o corpo de Maria, que se achava morta.
Chamado o médico, declarou que não havia meio de restituí-la à vida, porque — coisa espantosa! — não havia nas suas veias uma só gota de sangue; mas não sabia explicar como o ela havia perdido. Entretanto, examinando escrupulosamente o cadáver, descobriu-lhe no pescoço umas pequenas nódoas violeta, absolutamente como picadelas de sanguessugas, e duas ou três gotas de sangue que tinham caído no travesseiro.
Esta aventura deu muito que falar naqueles sítios, e não se pensava em outra coisa, quando uma outra moça, bela como Maria, vizinha e amiga desta, por nome Joana, foi atacada de uma melancolia exatamente igual à daquela. Espreitaram-na e viram o fantasma de Hantz bebendo-lhe o sangue.
Chamou-se o abade e Joana confessou-lhe que o espectro a visitava todas as noites, especialmente durante a Lua cheia, mas não lhe fazia mal nenhum. Contudo, o seu pescoço mostrava as mesmas picadelas e, apesar dos socorros, Joana morreu dias depois.
Com outras moças, sucedeu, em seguida, a mesma coisa, tornando-se geral o horror, e por toda a parte, em diversas províncias da Alemanha e da Hungria, os vampiros multiplicaram-se e as moças morriam sugadas. Durante muito tempo, os médicos e os padres empregaram os meios mais apropriados para debelarem o inimigo, chegando a escreverem-se grossos volumes, com os casos referidos minuciosamente, o que mais aumentava o terror, fazendo acreditar na existência dos vampiros.
Entenderam que o melhor era desenterrar o corpo de Hantz para ver se se encontrava meio do fazer cessar aquele horrível flagelo. Como, porém, procederam à exumação durante a Lua cheia, não acharam nada no caixão.
Um doutor, à força de levar as noites maldormidas estudando e consultando os livros próprios, descobriu que os vampiros não gozavam o poder infernal de sair dos caixões senão durante a Lua cheia.
Por consequência, restituíram as coisas ao seu estado primitivo e, quando a Lua estava em quarto minguante, abriu-se novamente a sepultura e encontrou-se dentro do caixão o tratante do Hantz, que dormia muito sossegado, com o sorriso nos lábios, as faces coradas e todas as aparências da mais perfeita saúde.
Atravessaram-lhe o corpo com uma espada e o diabo não se levantou mais. Em seguida, queimaram-no e espalharam as cinzas ao vento. Este exemplo intimidou todos os outros vampiros. Deram cabo, pelo mesmo meio, de mais umas duas ou três dúzia deles e, desde então, nunca mais apareceu nenhum.
Fonte: “O Camões”/PT, edições de 28 de abril a 18 de maio de 1881.
Fizeram-se breves adaptações textuais.
superficial,porém o final não foi bom não teve emoção !
ResponderExcluirTenho medo de palavras
ResponderExcluirConta sobre uma mulher que morava em uma aldeia com sua família e algumas pessoas, só que um dia apareceu um homem que procurava abrigo, mas um dia a mulher saiu para passear em noite de lua cheia e acabou encontrando o homem, mas ele acabo "morrendo" e aí se passou três meses até uma criatura atacar a mulher que morava com sua família e então isso foi se espalhando até descobrir que a causa da morte era feita por VAMPIROS
ResponderExcluiro nome do conto é vampiro, fala que numa aldeia a via uma bela garota chamada Maria, uma moça meiga, delicada, todos amavam ela,até que um dia ela avistou um homem estrangeiro, tinha um olhar marcante, ela não parava de olhar para ele, alguns dias depois, Maria não estava conseguindo dormir, pois ela sonhava com aquele homem, todo a noite via ele como anjo, demônio,enfim, ela passava noites acordada. Até que ela não aguentava de passar noites e noites sem dormir, então ela decidiu ir para um outra vila para poder curar isto, quando ela estava indo para a vila, sentiu uma mão segurando o seu braço, era aquele rapaz estrangeiro, ela ficou apavorada, ela falou que a amava, ela ficou em choque, ele a perguntou se ela o amava, ela falou que sim, então ele falou para eles se casarem em uma noite de lua cheia. Quando chegou o dia de se casaram o rapaz pegou uma doença tão forte que o fez ele morrer, Maria começou a chorar muito por semanas. Se passou três meses, a Maria foi dormir numa noite de lua cheia, até que ela viu um vampiro, ela olhou bem e viu que era o rapaz que tinha morrido, ela ficou assustada, mas ele acalmou ela, e depois a mordeu. Os seus pais a viram no chão do dia seguinte, levaram no hospital imediatamente, o médico confirmou q ela tinha morrido e vária outras mulheres, até que um médico viu o vampiro, o rapaz, e decidiu enfiar a uma espada e mata lo, e foi ai que o vampirou foi morto e nunca mais aconteceu isso.
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