OS LEPROSOS - Conto Clássico de Horror Sobrenatural - T. Serrano Dorado

OS LEPROSOS

T. Serrano Dorado

(Sécs. XIX e XX)

Tradução de autor desconhecido do séc. XX


O grande e poderoso senhor de la Hopanera exercia, por desígnio da Providência, império absoluto sobre as Siete Lombas de Embaire, sobre as Parameras de la Huesosa e sobre os Prados Bajos do Pilorio, um rio que transbordava em novembro, gelava em janeiro e secava em agosto. Três castelos asseguravam o poderio do senhor, e havia em todos três uma forte hoste de soldados. O senhor habitava o castelo da Oscurada, erguido sobre um rochedo, dominando léguas e léguas de florestas.

Graciano de la Hompanera contava seus quarenta anos. Era alto, corpulento, robustíssimo, excelente cavaleiro, valente e cruel como um lobo. Nunca saíra de suas terras, senão quando, ao completar vinte anos, fora à Villa de los Ceciales para casar com sua prima, Dona Lambra Coronel. O casamento havia sido combinado entre os pais dos contraentes, e não se cogitou de amor. Durou apenas um ano a vida conjugal, porque Dona Lambra morreu ao dar à luz um filho, que se criou sempre muito débil, e que, por ocasião dos sucessos que se vão relatar, andava pelos quinze anos.

Considerava-se Graciano de la Hompanera livre de toda a lei ou sujeição superiores à sua vontade.

O retiro em que nascera, longe das largas estradas por onde a história caminhava, permitia-lhe aquela existência autônoma e selvagem. Nunca haviam passado pelas paragens da Huesosa os exércitos da reconquista, nem as legiões árabes. Jamais se ouviram ali atabales de guerra. Os senhores dos outros castelos da comarca em momento algum se haviam ocupado em diminuir os direitos, em perturbar a posse, nem em cercear os limites da jurisdição de La Hompanera. Era esta tão triste, tão pobre, tão estéril, tão inóspita que não se tornava cobiçável. Assim vivia o solitário senhor, como haviam vivido seu pai e seus avós, exercendo a tirania de sua vontade sobre uns mil vassalos, ou melhor, sobre uns mil escravos que se ocupavam com a lavoura, o gado, a casa e as indústrias primitivas necessárias a atender às exigências da vida. Um religioso, tão rústico e ignorante como o rebanho humano de cujos destinos ultraterrenos estava encarregado, porém astuto e manhoso, dizia missa na capela do Castelo, empregando mais tempo em adular a seu senhor que em pedir a misericórdia do Senhor de todos. Costumavam andar juntos nas cavalgadas venatórias, e rodeava-os sempre uma feroz e numerosa matilha de cães de pelo hirsuto e lombo rijo, tão vigorosos que não houve touro experimentado que a eles se não rendesse, apenas o acometiam. Os cães de fila da Huesosa eram o orgulho de Graciano de la Hompanera, que, em pessoa, cuidava da raça.

—Permita Deus — costumava dizer Graciano — que meus cães nunca comam carne morta. Eles mesmos matarão o que tiverem de comer.

Era sem dúvida feroz o espetáculo que se desenrolava todos os dias, em um dos imensos currais do castelo, quando chegava a hora do jantar da cainçalha. A matilha avisava, com seus ladridos, que havia chegado a hora, e, sem se fazer esperar muito, o senhor, seguido do capelão e dos criados, ia satisfazer a fome dos alões. Conduzia-se, então, a vítima ao curral. Ora era um boi fatigado de muitos anos de trabalho, ora uma vaca que, à força de amamentar bezerros, havia perdido as forças. Sobre eles caía uma tempestade de mordedelas, e o sacrifício adquiria os caracteres grandiosos e bárbaros da crueldade circense.

Um dia, os cães atacaram um homem que cortava lenha perto do rio. O senhor da Hompanera perguntou ao capelão quem era aquele miserável.

—Creio que é um dos leprosos que vivem ali na encruzilhada da Infantina. Não se perderia grande coisa se desaparecesse essa raça de leprosos, vergonha e asco dos domínios de sua grandeza. Recordará o senhor que, no tempo de seu quarto tetravô Roderico — que cem glórias goze — voltou da Terra Santa um plebeu chamado Illán de la Coscoja, que lá havia ido, julgando-se invocado por Deus, para combater sob a bandeira dos cruzados que iam conquistar o sepulcro de Nosso Senhor Jesus Cristo. Vinha enfermo, quase cego, o rosto cheio de chagas, as mãos roídas de pústulas. Causou tal horror a seus antigos vizinhos que não quiseram mais viver com ele. Vosso avô ordenou que se lhe dessem um machado, uma enxada, um bocado de trigo, obrigando-o a permanecer nas terras da Infantina, lugar agro e seco que parecia amaldiçoado, ao qual ninguém ia com o gado. O leproso — porque Illán de Coscoja sofria de lepra, que havia contraído no acampamento de Jafa — viveu desde então na paragem que se lhe havia indicado, sem que pessoa alguma cuidasse de sua asquerosa pestilência. Mas um dia surpreendeu a todos que uma mulher da aldeia fosse viver com o leproso.

Luciana del Estornil, a filha mais velha de Yago, o cabreiro, moça galante e orgulhosa, por obra do Diabo, sem dúvida, abandonou a família e foi em busca do leproso, que mal podia mover-se, porque acabara de perder a vista, e a carne caía-lhe aos pedaços. A lepra o havia dominado por completo, e seu sangue, envenenado pela espantosa imundície, convertera-o num monstro horrendo. Vosso avô teve conhecimento do sucesso porque o honrado Yago del Estronil pediu a sua proteção, rogando-lhe que enviasse um par de besteiros para acabar com o miserável e endemoninhado pestilento e reconduzir a desencaminhada.

Prometeu-lhe o senhor. Mas, no dia seguinte, quando ia ordenar o castigo do leproso e a restituição de Luciana a seu pai, chamou a Preste Simeon, meu venerável antecessor na capela de Suas Grandezas, e disse-lhe:

“ —Saberás que de modo algum quero cumprir o que ontem prometi a Yago, porque esta noite tive um sonho que me ilumina, para entender o que todos julgam erroneamente. Apareceu-me um fantasma luminoso, cujas formas não pude descobrir, porque o rodeavam esplendores de fogo, e com uma voz terrível, que apavorava, disse-me: ‘Irás cometer um pecado de que não te absolverá o Juízo Eterno? Irás opor-te a que se faça a maior das obras de misericórdia? Irás matar Illan de la Coscoja e recolher, à casa boa, a angelical, a santa Luciana del Estronil, que está com o leproso porque Deus a mandou para socorrê-lo? O amor de pai, o pouco entendimento e a pequenez de alma de Yago, o cabreiro, autorizam-no a desejar o que o homem pediu ao teu poder de senhor. Mas estás avisado. Se não dás atenção ao meu aviso, tua alma irá para o Inferno coberta de chagas mais horrorosas que as que tem agora o cruzado’”.

“—Vosso avô, senhor — continuou a dizer o capelão —, obedeceu ao que julgava ser uma ordem do Céu, e não só respeitou o leproso e sua companheira, como lhes enviou esmola de trigo, batatas, azeite, palha e peles de carneiro para que se abrigassem durante aquele inverno que, segundo se diz, foi tão rigoroso que gelaram as cataratas do rio Pilorio, convertendo-se em cristal suas águas. Muitos anos viveu o leproso.

“Luciana contraíra também a peste, e sua beleza converteu-se em fealdade e horror. Porém, o que foi pior é que da caridade, que teve a filha do cabreiro para com o leproso — não me atrevo a chamar isso de amor —, nasceram dois filhos, de sexos diferentes, que até aos vinte e cinco anos, ou pouco mais, pareciam sãos e formosos, entrando, por essa época da sua mocidade, em relação com outros jovens; e, assim, no decorrer dos séculos, criou-se aí essa vermineira hedionda que afronta os domínios de Vossa Grandeza, e que, se não lhe põe cobro, acabará por turvar e manchar o sangue dos vassalos do glorioso Senhorio da Hompanera.”

Enquanto falava o capelão, Graciano continuava silencioso e tranquilo, observando como os cães investiam entre as brenhas contra o lenhador. Gritava este, pedindo socorro.

— Tudo o que me contaste eu já sabia — disse Graciano. — O que te perguntei é se conheces o que tem a ousadia de incomodar os meus cães.

—Não, senhor. Sei apenas que é da hedionda irmandade dos leprosos que costumam vir cortar lenha aqui.

— Ouço o Gavião latir. É ele sempre o primeiro a meter os dentes na presa.

—Parece, porém, que o empestado plebeu se defende.

— Pois ai dele se me aleija um cão! Atravessá-lo-ei de lado a lado com a minha própria espada.

—Não fareis tal, senhor; porque a nobre espada dos Hopaneras ficaria para sempre manchada com a imundície da lepra. Os cães encarregam-se deles.

Ouviram-se, então, gritos desesperados, a que se misturavam espantosos queixumes, e percebeu-se que o desventurado dizia:

—Senhor, senhor! Compadecei-vos de mim! Mandai que chamem a matilha que me estrafega!

Porém, o alto e poderoso senhor da Hompanera, sem se ocupar com a horrenda e desigual luta que fazia com que se estremecessem as brenhas, deu de esporas e afastou-se.

Em breve, deixou o lenhador de gritar, diminuíram os latidos e extinguiram-se os últimos rumores da refrega. Foram saindo para a clareira os cães, um a um. E a matilha afastou-se em desfilada empós do rastro dos cavalos.

Caiu a noite fria, estrelada. A lua, no minguante, iluminava debilmente as longínquas serras. Palpitava a sombra dos arvoredos com as rajadas do vento norte, e, de quando em vez, rompiam o medroso silêncio os ecos vagos do bosque adormecido grasnidos de aves, uivos de feras, zumbidos de insetos…

Surgiu, sem demora, da escuridão do bosque, o faiscar de uma fogueira. Delgadas e sibilantes chamas escalavam o céu, e à sua claridade tremiam as sombras das árvores e dos penhascos. Em torno da fogueira, agitavam-se grupos e homens e mulheres:

—Mataram-no os cães do senhor! O senhor não quis ter piedade dele! Pobre Raco!

—Lutou até morrer. Um cão negro deu-lhe a primeira dentada. Eu o vi do carvalho a que havia trepado, quando senti que a matilha vinha.

—Vingança! Morte!

— Não temos quem nos proteja. A dor martiriza-nos, a enfermidade tira-nos a carne, pedaço por pedaço, o sonho foge das nossas noites. Somos a maldição do gênero humano; os mortos que andam.

Continuavam a chegar homens, mulheres, crianças, como se o clarão da fogueira os chamasse.

A aldeia, ou melhor, o acampamento dos leprosos, conhecido em todo a região pelo nome Lepra da Infantina, compunha-se de mais de cem cabanas, espalhadas em uma extensão de um par de léguas. Cada família ocupava uma choça, e estas aumentavam incessantemente, porque a leprosaria era fecunda, e dos amores daqueles aleijados surgia a vida, dolorosa, incompleta, mutilada, que parecia exaltar-se em sua trágica luta com a morte. A singularidade espantosa daquela raça de lázaros é que a infância e a mocidade não apresentavam sinal do alvaraz. Traiçoeiramente, dormia o germe destruidor no sangue jovem, como se esperasse que o ser se desenvolvesse, se robustecesse, se embelezasse, para então aparecer poderoso, invencível. Daí o contraste horrendo que se podia observar naquele amontoado trágico de leprosos. Havia crianças encantadoras; rapazes vigorosos, moças formosíssimas; e a seu lado estavam os pais, os avós, os irmãos mais velhos, e os outros vizinhos da aldeia, nos quais se ostentavam as manchas farináceas, a pelagra repugnante, os vestígios do mal devorador. O mais velho, Santullano, o patriarca da lepra, tinha apenas um braço; grandes tumores pelas faces e pelo pescoço davam-lhe à cabeça um aspecto inconcebível. A pele da pálpebra direita havia sido corroída pela peste e o globo do olho aparecia trêmulo, tumefacto, avermelhado; e era horrível ver-se aquela inverossímil pupila que se movia numa constante inquietação, faiscando ódio e ferocidade. Era uma chaga que via!

—É melhor que morramos todos. Escutai-me… Armados de chuços, machados, alviões, pedras, iremos todos ao castelo. E ali pediremos que nos entreguem o senhor, para que o enforquemos, como castigo da morte de Raco. Nossa ousadia há de causar-lhes riso. Os grandes riem sempre dos pequenos quando estes pedem justiça. Responder-nos-ão com desprezo, soltar-nos-ão os cães, dispararão as balistas contra nós. Morreremos combatendo… Porém, quando tenhamos morrido, começará nossa vingança, porque nossos corpos insepultos envenenarão os ares e as águas. Toda a terra ficará contaminada. Ninguém se atreverá a aproximar-se das nossas carnes, corrompidas antes da morte.

—Vamos, vamos! — gritou em coro a coorte de leprosos.

E o espantoso batalhão pôs-se em marcha, através das grotas e outeiros.

—Morra o senhor! Morram os homens sãos! Viva a lepra!

Naquela multidão, viam-se todas as deformidades que a lepra impõe às suas vítimas com caprichos cruéis. Um homem de atlética estatura tinha a enfermidade localizada no nariz e nos lábios, de onde partia uma carne vermelha que parecia a tromba de um tapir. Uma velha, coberta de sujas ataduras, apoiando-se em duas muletas, avançava aos saltos como uma aranha monstruosa. Adiante, as crianças, cândidas, belas, cantando com vozes argentinas o hino da morte que, ao sair de suas frescas gargantas, em notas agudas, vibrantes como campainhas de prata, adquiria maior veemência trágica:


“Fujamos juntos da vida

Que é só ignomínia e dor;

Corramos juntos à morte,

Nosso meio redentor.

Vá, no hálito envenenado

Nosso, o anseio de morrer;

Morram também os verdugos

Que só nos fazem sofrer.

Da injustiça que sofremos

A vingança chegue aos céus,

E que os anjinhos leprosos

As chagas mostrem a Deus.

A dor e a morte,

A morte e a dor;

No rosto o espanto

E na alma o horror.”


A vingadora canção das crianças malditas derramava-se no ambiente, iluminado apenas pelos primeiros albores de um dia de névoa, despertando os ecos da montanha, que repetiam confusamente os vocábulos em que os cantores punham a mais enérgica vibração de suas vozes angélicas: “Morte! Dor!”. Em breve, uniram-se ao coro infantil as vozes dos homens e mulheres, jovens e anciãos, formando um desarmonioso e lúgubre conjunto que enchia de apavorantes ressonâncias os vales da Huesosa.

Quando a coorte de lázaros chegou às alturas de Embaire, despontava o sol por trás do castelo da Oscurada. Nas torres do Degolado e na do Dragão, que defendem os extremos do ciclópico forte, as sentinelas deram a voz de alerta.

Ao reflexo da luz matinal, luziam os ferros das lanças e o cobre das balistas. A ponte levadiça foi erguida, entre fragores de correntes e rumores de cabrestantes.

Santullano adiantou-se até a beira do fosso, em cujas profundidades crescia, densa, a brenha de sarças e, levantando a disforme cabeça, gritou:

—Ó do castelo! Queremos falar com o senhor!

O capelão, avisado do estranho e inverosímil acontecimento, disse:

—Vossa ousadia merece exemplar castigo. Como vos atreveis a vir aos gritos, em tumulto, e como tendes a audácia de pedir que Sua Grandeza compareça? Sois a pior canalha de seus Estados; nem condição humana se vos outorga, pois Deus Nosso Senhor vos castigou pondo-vos sobre os rostos a marca de fogo. Caminhai, antes que a cólera de Sua Grandeza desperte: ela será como se o leão acordasse do sono; o primeiro raio do seu olhar será o sinal de vossa morte... Ide, digo-vos, volvei às vossas cabanas; antes que se solte a matilha.

—Não viemos para nos irmos embora — respondeu com voz forte pausada Santullano — e não caminharemos sem cumprir o propósito que nos trouxe aqui.

—E qual pode ser vosso propósito — continuou o padre, rindo ironicamente — e como levantais os rostos do pó ante a insígnia deste pendão que aqui vedes, representando a autoridade, jamais desacatada, do senhor de la Hompanera?

A multidão de leprosos prorrompeu num alarido formidável, gritando:

—Vingança! Justiça! Morte! Morte ao senhor!

Se o céu se houvesse rasgado, mostrando os esplendores da glória eterna, não teria sido maior o assombro do capelão da Huesosa do que ao ouvir aquelas imprecações. A rebeldia e a ameaça, mostravam-se ali, onde o poder senhoril nunca fora até então contrariado, e os rebeldes eram os mais vis, os mais fracos, os mais obrigados à servidão por sua baixeza e por sua hediondez. O vozerio discorde e ensurdecedor dos sublevados confundia-se com o trágico som do hino, cantado agora com os punhos colericamente erguidos e as rústicas armas agitadas sobre as cabeças:


“Da injustiça que sofremos,

A vingança chegue aos céus...

No rosto o espanto

E na alma o horror…”,


acabando com outras imprecações:

—Vingança para Raco! Vida por vida! Morra o senhor!

Espantado, correu o clérigo à praça de armas. Não podia explicar o caso senão pela intervenção de Satanás. Só ao anjo do orgulho e da rebeldia era dado converter as doentes ovelhas em feros tigres.

—Senhor, senhor! — exclamou o capelão, indo a Graciano, que saía da capela, com o rosto congesto e o andar trêmulo. — Prodígio, milagre ou sortilégio infernal! Os leprosos rebelados!… Os leprosos cantando o Dies Irae! A peste em armas!

—Meu cavalo, meus homens!…—gritou Graciano de la Hompanera. —Abram as portas falsas que dão para os barrancos. Sairemos por ali. Trazei-me meu filho. Montai-o na égua baia… Fujamos!

—Como? Fugir?—interrogou o padre.

—Sim — afirmou Graciano. — Eu também vi o fantasma de luz que falou a meu avô. Eu também ouvi as suas palavras. Fugir! Fugir!... Será tempo ainda? O leproso ensanguentado, os cães mordendo-o, a peste pedindo a minha cabeça! O fim de minha vida! O fim de minha raça! Sonho? Realidade?... A imagem do São Lázaro de minha capela levantou aos céus as mãos de pedra, e falou, dizendo-me:

‘—Meus filhos te expulsarão de teu Castelo! Meus filhos castigarão teus crimes! Lugar para os leprosos! Lugar para os miseráveis!’

“Não ouves? Pedem minha cabeça, querem que eu morra! Não há senão a morte ou a fuga. Fujamos!”

—Refleti, senhor — disse o clérigo —, que tudo isso que vistes, ou julgastes ver, não são senão vertigens, pesadelos, perturbações do sono. Ordenai que soltem os cães. Ou, então, destacai uns tantos homens de vossa guarda e, apenas apareçam sobre a ponte com lanças empunhadas, vereis correr e debandar a turba enlouquecida, que já treme, sem dúvida, do seu próprio atrevimento.

—Não, não. As lanças quebrar-se-iam tocando os corpos hediondos dos leprosos. Os cães não os atacariam. São intangíveis. As chagas santificam-nos, fazem-nos invulneráveis. Deus vestiu-os de imundície, como a nós outros de ouro. São os filhos da morte; desde que nascem, a feia dona da caveira branca os embala, e cada uma das manchas que cobrem seus rostos são o sinal de um beijo da feroz ama, porque há beijos que deixam cicatrizes. São o exército da morte, que se forma com todos aqueles a quem injustamente ofendemos, perseguimos e martirizamos. Nosso ódio e nosso desprezo arregimenta-os nas legiões da vingança. Quando essas legiões se levantam enfurecidas, nada, ninguém pode detê-las. É a inundação da ira, muito mais espantosa que a das águas do Dilúvio. Ao soar da hora da justiça, tremem os poderosos da terra, como as folhas das árvores ao sopro dos furacões. Fujamos, fujamos deles, agora; depois, de nós mesmos, da iniquidade que nos cerca, da injustiça que nos guia, da soberba que nos torna cruéis!

Enquanto entre nuvens de pó galopava pelos prados do Pilorio o grande e poderoso senhor da Hompanera, seguido de seus soldados e de suas matilhas, os leprosos entravam no castelo da Oscurada, entoando o cântico da blasfêmia:


“Da injustiça que sofremos,

A vingança chegue aos céus…”




Fonte: “Revista da Semana”/RJ, nº 25, 1917.


 

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