UM DUELO SINGULAR - Conto Clássico de Suspense - Edmond Pilon
UM DUELO SINGULAR
Edmond Pilon
(1874 – 1945)
Tradução de Carlos Costa
(Séc. XX)
Miss Emily jogava uíste com Blase, o gordo major, e com o tenente das tropas indianas, Shadow, recém-vindos da Ásia, quando começaram a falar de medo.
—É —disse ela —, um sentimento bem baixo, que enfraquece a alma e empresta à fisionomia uma expressão tão hedionda, tão desagradável!
— Oh— fez Shadow —, nem sempre é assim, querida! Não sabes que, às vezes, os mais corajosos sentem medo, uma vez, ao menos, na vida?
— Como Smithson — diz o gordo Blase, com um sorriso contrafeito. —Pois sim! Smithson, ele mais que qualquer outro. Miss Emily, é preciso que saibas como Smithson teve medo num duelo.
—Oh! —disse miss Emily, juntando as mãos. — Mas, quem era Smithson?
— Smithson, querida — replicou Shadow —, era um muito bravo cavalheiro, um corajoso oficial. Capitão dos caçadores de Bengala, fizera, intrepidamente, a grande guerra da Índias. Resistira às serpentes, às febres. Resistira mesmo aos outros perigos. Quero dizer, a todas as ameaças, a todas as seduções de um país de mistério, no qual a morte aparece muitas vezes, eu te asseguro, querida, debaixo do sorriso de uma graciosa e exótica fisionomia. Pois bem! —agora é que a historia começa. — Smithson conhecera, em Bombaim, a Sra. Helen, esposa do comodoro da marinha, o senhor Edmund Bling. Este era também um cavalheiro e um valente oficial! A bandeira britânica, confiada à sua guarda, encontrava-se em fortes e leais mãos!... Mas, Helen, sua esposa, tinha bastante encantos, deste encanto que aumenta, sob certos céus, de um atrativo ainda mais irresistível, mais real.
“Uma mulher, graciosa e simples em Londres, torna-se, em pouco tempo, nesses países, perfeitamente bela.
“Opera-se, aí, uma espécie de transposição; e o fenômeno desta transposição não escapou a Smithson. Outrora conhecera Helen; mas a que ele via agora era uma Helen mais admirável e sedutora que a outra!…
—O amor? — perguntou miss Emily.
— Certamente, querida! Era inevitável. Mas como Smithson era generoso! Parecia-lhe uma coisa muito baixa e vergonhosa trair Sir Edmund. Então, sabes o que fez Smithson ? Pois bem! Quis tentar uma grande prova. Pensava: “Se saio com honra desta prova, esta mulher é minha!”. Por outro lado, um duelo lhe repugnava, e não queria a morte de Sir Edmund. Então, sabeis o que fez? Oh, querida, isto é muito original! E estimarás muito a Smithson quando o souberes. Smithson foi procurar Sir Edmund; e, imediatamente, protestou o devotamento, respeito, que professava a um homem tão altamente colocado no seu pensamento e no seu coração. Mas, havia Helen! E e confessou a Sir Edmund o tormento horroroso que o torturava, sem cessar, noite e dia. Entretanto, por nenhum preço, queria o duelo. Sir Edmund, disse ele, pertence ao rei, ao império e a mais ninguém. Quebrar, ameaçar somente esta vida, seria um crime. Pois bem! Sabeis o que ele fez, querida ?
— Oh, escuta! — observou o gordo Blase, voltando-se para miss Emily. — Agora é que se torna interessante.
—Entretanto — ajuntou Shadow —, Smithson foi buscar um par de pistolas de ordenança; sabes, querida, destas grandes pistolas de abordagem que os oficiais da marinha inglesa tinham, naquele tempo, dependuradas no cinturão. E eis as condições deste duelo estranho, deste duelo de um só combatente, que Smithson fixou. Sir Edmund, como o ofendido, tomaria as duas armas e carregaria uma delas, cuidadosamente, em presença de Smithson. Feito isto, só uma das duas pistolas estaria armada, e as colocaria na gaveta de um móvel. Em seguida, Smithson viria. Virando a cabeça, para não ver, tiraria uma das pistolas, apoiaria o cano contra o ouvido e, à voz de: “fogo”, dada por Sir Edmund, puxaria o gatilho.
—Mas — disse miss Emily, um pouco ansiosa, interrompendo Schadow — isto foi ridículo! E a situação de Sir Edmund, jogando assim sua mulher, como o xadrez ou os dados, era muito penosa.
—Sim, sim! — replicou Shadow. —Foi, como o pensas, absolutamente penoso e duro. Mas não para Sir Edmund, querida. Com efeito, tudo, entre o comodoro e o tenente, se passou nitidamente, friamente, seguindo as condições estipuladas. As duas pistolas, uma das quais carregada, foram colocadas na gaveta entreaberta de um móvel. Depois, Smithson aproximou-se, a cabeça virada, para não ver. E foi então, querida, que se passou esta coisa inaudita, desassisada: Smithson, que propusera esse duelo sem adversário, esse duelo de um só combatente, conheceu o medo, mas um medo tenaz, atroz, um medo inacreditável! Tentar assim a sorte, disse, é tentar Deus. Ao mesmo tempo, lívido, sua mão trêmula retirou uma arma da gaveta. Agora, era preciso acabar este duelo absurdo, este duelo sem nome, e foi ele quem o quis! E se aquela pistola estivesse carregada? E se fosse a morte? A morte? Smithson já a afrontara diversas vezes, na guerra; mas nunca a sentira aproximar daquela maneira… Ali, mistress Helen! Era por ela! Os homens são loucos! Então, sabes querida, o que fez? Este bravo, este herói? Com a mão esquerda — a mão que não tremia —, segurou o punho direito, firmemente, como a um torninho de serralheiro, e, doce, lento, elevou-o à altura do crânio… “Fogo”, comandou Sir Edmund. O gatilho bateu com um ruido seco, mas nenhuma bala detonou… A voz de Sir Edmund fez-se ouvir, um pouco alterada: “Tentaste a prova, Archibald. És o vencedor”.
—Oh! — fez miss Emily, interessada com a história do tenente das tropas indianas. — O comodoro se aproximou e pronunciou tão belas e simples palavras?
—Mas sim, querida; aproximou-se e disse estas palavras. Smithson não se voltara para ele, tanto isto lhe parecera natural, simples. “Mistress Helen”, pensava, como um iluminado, enlevado pela sua conquista. E estava a tal ponto invadido pela felicidade que não viu Sir Edmund pegar a outra pistola de ordenança, na que estava carregada e, premindo o gatilho, meter uma bala nos miolos. Porque, enfim, querida, Sir Edmund dera claramente a entender, nesse duelo, que, se Smithson era o vencedor, ele, Sir Edmund, era o vencido…
—Mas, Smithson? — perguntou miss Emily, um pouco ansiosa.
—Foi muito simples. A partir desse momento, teve vergonha de si próprio e Helen causava-lhe horror. Compreendes, querida, uma mulher que se compra por este preço!
Fonte: Primeira/RJ, edição de 25 de julho de 1927.
Fizeram-se breves adaptações textuais.
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