A CONFISSÃO - Conto Clássico Cruel - Medeiros e Albuquerque

A CONFISSÃO

Medeiros e Albuquerque

(1867 – 1934)


A Delgado de Carvalho.



Na aldeia, a nota imprevista daquela noite de Natal estava na circunstância de passar a igreja ao novo pároco. O vigário, que servira até então, dissera pela manhã a última missa, acolitado pelo sucessor — sucessor que era seu afilhado. A este já caberia rezar o ofício da noite.

O velho exaltara de tal modo o merecimento do moço padre, que esperavam maravilhas do seu sermão. Demais, não havia por ali quem não tivesse conhecido o Joãozinho, antes de ir para o seminário, quem o não houvesse visto cada vez que ele viera durante as férias visitar seus pais.

Por sua vez, os pais gozavam da maior estima no lugar. Lavradores, tinham alguns alqueires de terra, cuja cultura bastava para lhes prover a todas as necessidades da vida, permitindo ainda pôr de parte algumas economias.

O homem, o João Carneiro, era robusto e simples: alto, corpulento, de mansos olhos negros cheios de bondade, barba grande e sedosa caída sobre o largo peito.

A mulher era baixa, delicada, franzina. Quando moça, devia ter sido de grande beleza. Mesmo agora, perto dos cinquenta anos, conservava uma fisionomia, extremamente simpática. Nunca tirara vaidade da sua formosura. Vivia em casa, recatada e modesta. Fazia gosto vê-la todo o dia, leve e risonha, diligente e silenciosa, arrumando, dispondo, ordenando. Andava com passos macios e rápidos, sem fazer ruído. Sabia mandar com doçura e energia: não tinha gritos de cólera e mau humor. Sentia-se que todo o escrupuloso asseio, todo o conforto daquela casa provinham da sua atividade discreta e incansável. E havia uma nota de estima quase paternal no amor que lhe consagrava o marido. Aquela frágil mulherzinha, tão laboriosa e tão meiga, fazia-lhe a vida calma e suave. Junto delia, ele parecia um gigante — um bom gigante amoroso e jovial.

A par disso, era um homem de honra em toda a extensão da palavra. Certa vez, compulsando papéis velhos, encontrou umas notas do avô: confessava que habilmente, em varias ocasiões, ele tinha ido recuando os marcos das suas terras, de forma a entrar pelas dos vizinhos. Havia assim vários alqueires que tinham sido furtados. Hoje a posse estava legalizada. João Carneiro foi ter com os vizinhos. Referiu-lhes sem uma hesitação o que viera a saber e passou-lhes o que lhes devia pertencer. Nesse rasgo de honradez, foi-se uma boa parte dos seus rendimentos. As terras que restituíra eram das mais férteis e bem plantadas; faziam a inveja de toda a aldeia.

Se até então o velho já gozava da estima geral, daí por diante a estima passou a ser uma admiração profunda. Tal sentimento era o do filho. O pai não fora jamais homem de grandes familiaridades. Gostava imensamente dele, mas não tirava à sua afeição uma certa nota de austeridade, própria do seu caráter.

Para compensar, o Joãozinho tinha a ternura materna, cheia de efusões. Era à “sua velha” que escrevia, habitualmente, do seminário. Contava-lhe seus desalentos, suas esperanças; abria-lhe o coração. Tinha feito dela a confidente mais íntima para a qual não guardava segredos. E nas cartas referia-se sempre ao pai com uma veneração suprema. Como os fiéis, que, não se julgando bastante dignos para recorrerem a Deus, dirigem-se a ele por intermédio dos santos — por intermédio daquele amor de mãe, mais acessível, ele chegava até ao pai. Não que este lhe infundisse temor: o que tinha era somente um respeito profundo, quase religioso, por aquele velho bom, simples, austero e honradíssimo. Sentia-se compenetrado de um orgulho íntimo quando os estranhos viam os dois sair pelas ruas — ele e o pai — e não havia cabeça que se não descobrisse diante daquele nobre velho com uma expressão de alegria e deferência. Crianças, ao verem-no passar, vinham beijar-lhe a mão. E, para cada uma, ele tinha uma expressão de carinho, uma palavra de agrado. Quantos — dos mais velhos, dos mais orgulhosos — não vinham muitas vezes pedir-lhe conselhos, recorrer à sua intervenção, como se fosse um confessor leigo. Sabiam-no reservado e leal, incapaz de trair um segredo alheio, mas capaz, ao contrário, de empenhar-se incansavelmente para achar remédio às mágoas, às discórdias estranhas. — E, assim, de quanta cousa triste não sabia ele!

O vigário, seu grande amigo, companheiro de visita de todos os dias, lhe dizia, às vezes, gracejando: “Você, compadre, confessa mais gente do que eu!”. E talvez não fosse muito inexato, porque o seu sorriso bondoso atraía as confidencias. Sentia-se que, dentro da honra mais escrupulosa, ele possuía tesouros infinitos de generosidade e clemência. E, com suavidade e firmeza, sabia chamar para o caminho do Bem as almas transviadas.

Jamais orgulho de filho fora tão justo! Nunca, porém, pai algum amou tanto seu filho!

Naquele dia, véspera do Natal, o antigo pároco, despedindo-se das suas funções, fora para a matriz ouvir de confissão todos os que aí o esperavam: eram, sobretudo, os velhos, que, apesar de suas crenças, sentiam que, por algum tempo, teriam ainda escrúpulo em ajoelhar-se aos pés de um confessor de vinte e cinco anos.

João Carneiro foi também. Na porta da igreja alguém lhe perguntou si viera confessar-se ao vigário. Respondeu que não, que ia recorrer ao filho. “Ao vigário, acrescentou sorrindo, nem eu já tenho o que dizer!”.

O novo padre teve que submeter-se. Ele lha fez então uma confissão ampla, completa, inteira, de toda a sua vida. Queria que aquele padre, que lhe devia a existência, soubesse perfeitamente tudo o que havia na sua vida, de bem e de mal. Abriu aos olhos do sacerdote o seu coração humilde, cheio de pureza e contrição. O filho, ao absolvê-lo, tinha os olhos rasos de lagrimas; mas, no intimo da sua alma, havia um júbilo intraduzível. Não fosse a sobrepeliz, a estola roxa, toda a dignidade do seu papel — e seria ele, de joelhos, quem beijaria as mãos honradas daquele velho honesto, puro e bom — que era seu pai, que ena o seu orgulho!

O vigário, ao sair do templo, estava excessivamente fatigado:

— Foi uma imprudência, compadre: ouvi de confissão mais de trinta pessoas… Não estou bom…

E ia entre o afilhado e o compadre, visivelmente enfermo, quase carregado pelos braços dos dois. Chegando a casa, não quis que nenhum ficasse. Aquilo, dizia ele, era cansaço: com um bom sono tudo passaria. O velho João Carneiro abraçou-o, e o novo pároco beijou-lhe a mão, foi a casa tomar uma ligeira refeição e voltou para a igreja, a fim de dispor o que fosse necessário para a cerimônia da noite.

Passavam das oito horas quando foi chamado a toda a pressa à residência do padrinho.

Foi. Achou-o muito mal. Tivera uma síncope. Reanimado a custo, estava agora na cama, apoiado a uma alta pilha de travesseiros, ofegante, com a respiração ansiosa e difícil. Tinha o rosto esverdeado. Um suor frio porejava entre a raiz dos cabelos, pela testa, pelas faces lívidas. Vendo o afilhado, tentou sorrir-lhe e disse num esgar doloroso:

— É a morte, João…

— Quem falia nisso, meu padrinho? Daqui a algumas horas, eu o espero ver na igreja assistindo à minha primeira missa de Natal… Há de cumprir sua promessa…

Precisamente havia nesse instante uma revoada alegre de sinos, que repicavam. Pela rua, grupos folgazões passavam, de quando em quando, conversando alto. A lua, num crescente fino, derramava pelos caminhos uma claridade enfermiça, vaga e débil: mal as sombras se recortavam pelo chão… Pairava no ar, na indecisão da luz, uma brandura suavíssima. No jardim do vigário, grandes jasmineiros do Cabo, floridos, de manchas brancas, manchas indistintas na escuridão da noite, exalavam um perfume intenso…

— É a morte, João… — volveu o vigário; — eu não me engano…

No quarto, havia apenas um candelabro com duas velas de cera, posto a um lado da cabeceira. O padre tinha só uma das faces vivamente iluminada: essa estava cada vez mais pálida… A boca largamente aberta, sorvendo o ar dificilmente, em ofegos dolorosos, era uma mancha, uma cova negra, na lividez cadavérica do rosto. Saía dela um estertor, um han! han! cansado e arquejante. O peito ansiava, erguendo-se e baixando fortemente… Junto à cama, na mesa, estava um copo de remédio: uma poção de água de flores de laranjeira.

O moço padre ia ainda dizer algumas frases de consolo. O vigário não consentiu:

— Não percas tempo, meu filho… Eu preciso confessar-me.

— Mas, meu padrinho, deixe primeiro mandar buscar alguém que o trate. Eu o ouvirei, se assim quer. Não esteja, porém, tão impressionado: isso lhe faz um mal muito maior do que o seu incômodo, que é coisa passageira... O vigário, que estava com os braços estendidos sobre o leito, a fio comprido, agitou a mão direita e disse com uma resolução firme:

— Não… não… Ouve-me…

João obedeceu. Foi até a porta fechá-la e dizer à criada que não deixasse ninguém entrar. Feito isto, a confissão começou.

As palavras saíam entrecortadas. Vinha, às vezes, entre elas um arquejo, um ronco cavernoso. Disse primeiro: Benedic mihi, pater, quia peccavi. E o padre lhe respondeu com a voz trêmula de emoção: Domine sit in corde tuo et in labiis tuis ut rite confitearis, omnia pecata tua: in nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti. O vigário tinha cruzado as mãos sobre o peito, o doloroso peito cada vez mais ansiado. Murmurou então a fórmula mais breve dos penitentes: Confiteor Deo omnipotenti et tibi Pater. E começou a enumeração dos pecados.

Veio de longe — de tão longe quanto lhe alcançava a memória. Quis fazer uma confissão completa de sua vida inteira, apesar da fraqueza, apesar da moléstia, apesar da morte que o podia surpreender. Mas era um esforço supremo para que a morte o encontrasse limpo de culpas, absolvido e puro! À lembrança dos seus tempos de infância pareceria acompanhar o di-lin-dim-dim dos sinos da matriz, badalando joviais, se, mais triste, o resfôlego, ansiado e rouco, do seu pobre peito não enchesse o quarto... Falou da sua mocidade, de lícitos amores de adolescência irremissivelmente perdidos... E era como uma ironia que houvesse em tal momento, efluindo por aquele ambiente abafado, um perfume de flores de laranjeira, que vinha do remédio ineficaz — ineficaz para evocar memórias de amor, ineficaz para sarar o mal de morte que ali estava...

As frases da confissão eram curtas, frases cortadas por longas pausas em que o doente tomava o ar, em grandes haustos, estertorando ruidosamente... João ouvia-o, de olhos baixos, reprimindo a custo as lagrimas. Fora continuava o di-lin-dim-dim: os, sinos, por aquela noite deliciosa de Natal, carrilhonavam infatigavelmente... Mas um momento houve em que João estremeceu e ficou-se a ouvir com uma atenção extrema: é que o vigário lhe estava confessando que tinha sido durante anos o amante da sua mãe, que talvez fosse, que era decerto seu pai! A confissão saía agora em gaguejos cavernosos: o anseio do peito moribundo era mais precipitado... Parecia ter pressa, pressa de acabar, numa angústia, numa angústia indizível... Das velas espalhava-se uma luz mortiça e avermelhada: os morrões muito altos torciam no espaço esperais negras. O moço fitou o vigário: fitou-o com uma expressão de espanto. Olhava sem ver, absorto em cismas íntimas. Havia na sua alma um cataclismo, um desabamento! A mãe, a mulher santa e boa que ele adorava, não passava de uma criatura de traição e hipocrisia. O velho, que o tinha por filho — o homem puro, o homem nobre, o homem leal —, nada lhe era! Naquele dia, em que justamente o vigário e João Carneiro se lhe tinham confessado, ele conhecia bem cada um dos dois: e o confronto entre aquelas duas almas aparecia-lhe terrível! Seria o nojo da traição materna, da traição daquele falso amigo, duas vezes falso — à sua fé e à lealdade do coração magnânimo que sempre o estimara —, o que o prendia ali, de olhos abertos, fitando a fronte lívida do velho? Seria o assombro da revelação? Iam-lhe pela cabeça em febre torvelinhos de pensamentos: fazia-se dentro dele o desmoronamento de todos os seus afetos... Via sua mãe degradada e vil... Perdia como pai o mais digno dos homens... Padre, quando saísse dali, tinha de fingir a ignorância, de representar hipocritamente uma comedia que se lhe afigurava ignóbil. Quanto ao velho, que sempre amara como pai, não lhe seria difícil cercá-lo do mesmo culto— do mesmo ou de maior, porque a baixeza de todas aquelas vilanias ainda o elevava mais a seus olhos. Mas um asco insuperável, um ódio indignado subia-lhe impetuoso, do fundo da alma contra sua mãe.

O vigário continuava ainda a confissão; mas o moço já não o ouvia nem via, apesar de ter os olhos voltados para seu lado. A testa do velho estava encharcada de um suor de agonia; os morrões fumarentos e avermelhados, a chama pequenina e incerta mal lhe iluminavam uma das faces; as arcadas dos olhos tinham sombras profundas, pareciam imensas… A boca era agora um pego escuro, um buraco cheio de treva; abria-se em espasmos, buscando ar… Já as palavras não saíam: era um balbucio confuso de sílabas trôpegas, com a língua presa, pastosa… De todos aqueles esgares de dor via-se apenas o lado iluminado: o outro ficava na sombra, era como si já estivesse morto… Vinham dispneias horríveis. Via-se então o arquejo desesperado do peito, que se erguia… As mãos, agora descruzadas, batiam às vezes convulsamente… Quando as sufocações eram fortes, o pescoço inchava, tumefeito, congestionado — e um gesto dos dedos trêmulos fazia menção de abrir a gola da camisa para não o apertar. Mas os dedos incertos não tinham força…

Passava de meia-noite. O sino continuava seu toque jubiloso. Na igreja inteiramente cheia, o povo ansioso não sabia a que fosse devida aquela demora extraordinária. O moço padre continuava absorto, imóvel, esquecido do que ia por todo o mundo, alheio mesmo aquele padre—aquele padre que era seu pai e que expirava ali junto dele, tão só e sem socorro, como se estivesse abandonado numa estrada deserta!

O velho fez na cama os últimos movimentos. Veio uma sufocação terrível. Os braços acharam força, as mãos ambas entraram arrebatadamente na gola da camisa e romperam o botão, que saltou longe… O corpo, que se retesara em arco, com o peito muito alto no sobre-humano esforço para achar um pouco de ar, abateu-se em cheio na cama, inteiramente inerte… Na sombra das arcadas muito fundas, empastadas de escuridão, os olhos tiveram uma convulsão, voltando-se para o alto e pararam… Havia sobre eles uma névoa baça… As mãos foram escorregando por sobre o ventre e caíram… Veio o silêncio, veio a morte, veio o frio…

O sineiro, passada a hora da cerimônia, tinha calado lá fora o di-lin-dim-dim jovial. Já constara ao povo que o velho pároco estava muito doente. Um sussurro de pessoas, que chegavam, cercava a casa: era um zum-zum de enxame, surdo e confuso. Ninguém, entretanto, se atrevia a bater á porta do quarto… Das velas quase a expirarem, com os morrões muito altos, saíam longas e espessas colunas vacilantes de fumo preto, cujas sombras dançavam fantasticamente nas paredes… O moço padre, cada vez mais alheio ao que o cercava, tinha posto as mãos nas faces e chorava infantilmente, com grandes soluços, com lágrimas copiosas… O frio da morte invadira de todo o cadáver, sobre o qual não caíra a absolvição que se dá aos agonizantes: Ego te absolvo ab omnibus censuris et pecatis; in nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti. O filho daquele desgraçado, como se tivera sido por um castigo divino, fora quem a negara, quem a esquecera!

O filho! Foi a ele que o infeliz recorreu para que lhe estendesse o braço misericordioso, para que o salvasse das penas eternas, que lhe perdoasse, que o redimisse… Foi a ele; mas foi em vão… Tudo falhou… E agora, como se o inferno estivesse reclamando o réprobo, havia na sua face, contorcida pela última sufocação, uma expressão de horror… Um fio negro de sangue estragado corria de uma das ventas para a boca entreaberta… Uma mosca estonteada veio do alto, andou pela face e pousou afinal bem em cheio sobre aquela serosidade viscosa e esquálida… Ao lado do corpo, o vigário continuava ainda a soluçar, perdido nas suas sarmas dolorosas, abstraído de quanto o cercava…


Fonte: “Mãe Tapuia – Contos”, F. Briguet & Cia/ H. Garnier Livreiro Editor.

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O GATO PRETO - Conto Clássico de Terror - Edgar Allan Poe

O RETRATO OVAL - Conto Clássico de Terror - Edgar Allan Poe

A MÃO DO MACACO - Conto Clássico de Terror - W. W. Jacobs

A MÁSCARA DA MORTE ESCARLATE - Conto de Terror - Edgar Allan Poe