AMOR CRUEL - Narrativa Clássica de Horror - Autor anônimo do séc. XVIII
AMOR CRUEL
Autor anônimo do séc. XVIII
A presente narrativa, que o editor lusitano pretende verídica, é uma das mais antigas histórias de horror publicadas em periódico de língua portuguesa. Veio a lume no Hebdomadario Lisbonense, cujas páginas iniciais eram dedicadas a efemérides vinculadas geralmente ao dia do mês e ano da publicação do exemplar.
Maomé1, imperador dos turcos, tinha no seu serralho2 uma sultana a quem tão cegamente amava, que esquecido totalmente do seu império, só se lembrava estar na companhia desta fermosura, que na verdade o era em extremo, e chegou a tanto o seu descuido, que era muito murmurado por todos os seus vassalos, e chegando-lhe a noticia a liberdade com que dele falavam todos, o obrigou a convocá-los na sala imperial do seu palácio aos principais dos seus grandes, e estando juntos saiu de uma casa interior trazendo pela mão a dita sultana coberta de um véu, e em pé disse a todos: Sei que murmurais de mim, porque totalmente me esqueço das minhas obrigações, para acudir a toda a hora aos divertimentos de amante, criminais-me porque ainda não vistes o objeto destes cuidados; agora me desculpareis; e descobrindo a sultana ficaram todos admirados da rara fermosura; o imperador que os viu suspensos continuou dizendo: Porém por que vejais que se tenho coração para amar, tenho valor3 para me vencer, vede como me livro dos embaraços de que me criminais, e tapo a boca das vossas murmurações, e tirando o alfange cortou de um golpe a cabeça à própria sultana; sucedida esta ação (ainda que violenta, mas prudente a fim de sossegar os ânimos dos que murmuravam) neste dia do ano de 16174.
Fonte: “Hebdomadario Lisbonense”, edição de 17 de julho de 1767.
Notas:
1 Na verdade, em 17 de julho de 1617, era sultão do Império Otomano Amade (ou Ahmed) I.
2 Harém.
3 Coragem.
4 17 de junho.
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