AS DUAS CRUZES - Conto Clássico Trágico - Augusto Emílio Zaluar

AS DUAS CRUZES

Augusto Emílio Zaluar

(1826 – 1882)


Quem seguir pela estrada que leva de uma das margens do Tietê, na província de São Paulo, a um dos pequenos povoados do interior, encontra, passando primeiro uma valha ponte de madeira, uma senda tortuosa e agreste que termina em uma encruzilhada.

Em face desta encruzilhada, há uma colina solitária triste. Alguns arbustos de folhagem verde-escura veste aqui e ali um ou outro montículo de terra avermelhada, a qual em muitos outros pontos se apresenta escalvada e estéril, o que faz com que aquele pequeno monte, de longe, pareça estar envolvido em um manto mosqueado.

No topo mais alto da colina e inteiramente a descoberto, levanta-se uma cruz de madeira preta, cujos braços piedosos o Sol banha de dia com seus raios fulgurantes, e a Lua, nas noites serenas, inunda de diáfana e melancólica claridade.

A coisa de trinta passos de distância, e no declive do morro, existe uma outra cruz, também de madeira negra e tosca. Não a ilumina o Sol, nem a inunda o luar. Envolve-a a perpétua e terrível escuridão. Em seus braços descarnados, pia de noite o mocho agoureiro e formam conciliábulos misteriosos as aves de rapina. É um lugar de terror, uma sepultura da maldição.

A outra cruz desperta mais consoladoras impressões Todos os anos, no mês de maio, ali desabrocha, em floridos pendões, uma roseira selvagem. Os passarinhos formam mil concertos harmoniosos, e um perfume celeste parece romper do centro daquela vegetação, onde a brisa bafeja suspiros meiguíssimos.

As duas cruzes encerram a história de uma desoladora catástrofe.

Sem prevermos prolongar ao leitor a curiosidade de a conhecer, vamos narrá-la com a rústica simplicidade com que nos foi transmitida.

João e Cláudio eram dons caipiras, primos-irmãos pelo parentesco, mas cujos laços ainda mais apertavam a inseparável amizade que os unia.

Criaram-se juntos e juntos partilharam as primeiras fadigas e os primeiros júbilos da mocidade. Apareciam ao lado um do outro nas horas do trabalho, sempre na mais íntima camaradagem tomavam parte nas festas e folguedos do lugar, sem que ninguém pudesse compreender a aproximação de dois entes que, logo à primeira vista, pareciam distanciados pela diversidade de caráter e não menos pelas qualidades.

João era bondoso, afável, sincero, inteligente e dotado de grande valor. Cláudio, pelo contrário, era rancoroso, desconfiado, insolente e traiçoeiro.

Muitas vezes, João salvara seu parente de rixas a que, de contínuo, o levava seu gênio turbulento.

Eram os dois o espírito do bem e do mal personificados em toda a sua realidade.

Circunstâncias aparentemente inexplicáveis levou-os amar uma mesma mulher.

Havia na freguesia uma moça do dezoito anos. Filha de um velho fabricante de violas que, pelos seus encantos e formosura, era o ídolo daqueles contornos.

Margarida era grave e séria. Tinha os olhos lânguidos, a tês pálida e a boca voluptuosamente contornada como uma rosa virginal.

Além de sua beleza, distintas eram também as suas virtudes. Não havia filha mais obediente, nem amiga mais sincera.

A prenda que, porém, lhe atraía mais adoradores era o timbre de sua voz argentina, meiga e insinuante, de cujas notas melodiosas penetravam as fibras mais íntimas do coração. Não se fazia festa sem a convidarem, nem havia prazer nos sítios onde ela se não apresentava.

Seu velho pai era um verdadeiro artista desconhecido. Não fabricava e consertava somente os instrumentos músicos: inoculava-lhes um sopro da alma divina, a soberana inspiração da arte parecia palpitar nas cordas de toda a obra que saía de suas mãos e era destinada a revelar aos homens as melodias de inefáveis acordes.

A filha era herdeira do talento do pai. A revelação do gênio, como uma auréola luminosa, circundava já a sua fronte bafejada ao sol de dezoito primaveras.

João amava Margarida, e era preferido em seus extremos. O velho Elesbão, pai da gentil moça, tinha também sincera afeição ao mancebo, cuja bondade e talento lhe davam lugar a profetizar-lhe um esperançoso porvir.

Cláudio era naturalmente visita de casa, e Margarida, por mais de uma vez, estranhou a expressão de seu olhar sinistro, e ainda mais as suas impertinentes assiduidades quando João estava ausente.

Quis, sobressaltada, comunicar isto a seu pai, porém o receio de algum rompimento, que haveria inevitavelmente amargurar a todos, a conteve, esperando ver se, com a sua indiferença, o antipático perseguidor desistia de tal intento.

Mas, longe de se desenganar, Cláudio recrudescia nas manifestações de seu tresloucado amor.

Uma noite, Margarida cantava um magnífico canto da Virgem, cuja música era composição do seu pai. João acompanhava-a na flauta e o velho Elesbão em um antigo piano, em cujas teclas os dedos do velho imprimiam inexprimíveis e maviosas harmonias. Dir-se-ia que os espíritos celestes adejavam em torno daquelas cabeças dos desconhecidos artistas do deserto.

Cláudio estava a um lado taciturno e sombrio. De seus olhos faiscavam chispas aterradoras. O anjo do mal ouvia confuso e no desespero as vibrações dos coros do paraíso.

Terminando o canto, Cláudio levantou-se sem dizer palavra. Os três regojizavam-se em mútuo entusiasmo e celebravam a agradável impressão que lhes produzia a música.

Cláudio parou e disse para a Margarida, em tom desabrido:

—Não gosto de música de santos!

Esta blasfêmia causou no estreito círculo desagradável impressão.

O velho carregou a testa e disse-lhe com ar severo:

—És um ímpio, Cláudio.

—Estas músicas são boas para padres e beatos! — continuou Cláudio. — Eu, por mim, só aprecio a viola e o fado!

— Não gosto de te ouvir dizer isto — acrescentou Elesbão. — Quem não ama as músicas religiosas, não tem alma nem sentimentos piedosos. É um autômato.

—Seja o que for, não gosto. Nasci para usar da faca de mato e não para cantar nos coros da freguesia. Nunca tive jeito para padre. Sou caipira.

— Ser caipira não é a exclusão de sentimentos elevados. Eu também o sou. Nasci entre o povo, hei de morrer no meio dele, quando Deus me chamar ao ajuste de meus salários. Mas por isso mesmo que nasci e hei de morrer com o povo, tenho coração, tenho alma, tenho espírito, tenho grande e sublimes aspirações! Sou filho de meu trabalho e disso me desvaneço; mas lamento a ignorância e detesto a impiedade! E, quem não pensa assim, é um desgraçado!

— Embora eu não entada nada dessas cantilenas, não gosto de choramingas.

— Tenho estado calado até agora, Cláudio — interrompeu João —, mas estranho a tua linguagem! Se bem que pareço estar de acordo com a rudeza de teus sentimentos, ofende ela aqueles que te acolhem e distinguem no seio da amizade.

— Não costumo pagar sermões. Digo o que sinto e não tenho que dar satisfação a pessoa alguma!

—Sinto ver-te com ar tão desabrido! —continuou João. — E calo-me para evitar cenas desagradáveis.

—Fica certo que a ameaça não caiu no chão; e que não faltará ocasião de ajustarmos contas.

E, dizendo isto, saiu precipitada e bruscamente.

Imagine-se o assombro em que ficaram os três.

— Está louco! — exclamou o velho. —No entanto, são ímpetos de um caráter que denunciam má índole.

O resto da noite passou-se triste e, em breve, João se despediu de Elesbão e Margarida, apertando a mão desta com um olhar amoroso.

Daí em diante, as relações entre João com Cláudio ficaram muito estremecidas, e a afeição, que até este tempo mutuamente se consagrava, parecia ir gradualmente arrefecendo entre um e outro, ao passo que em ambos crescia o seu amor — e que diferente amor! — pela formosa Margarida.

No dia em que João pediu ao velho a mão da filha, foi um dia de inexprimível felicidade para aquelas três almas. Era o cumprimento dos votos e dos desejos de todos.

Elesbão enxergava neste casamento a transmissão de uma raça artística, tanto na cândida Margarida como no talento varonil e audacioso de seu próximo genro.

Esta notícia, espalhando-se no povoado, foi recebida por todos com satisfação e alegria. A fortuna dos que são bons parece ser partilhada e germinar docemente no coração dos que os rodeiam. Assim aconteceu mais esta vez.

Chegou, finalmente, a véspera do dia escolhido para celebrar-se a cerimônia. Era exatamente na véspera de São João. Por toda parte, o rumor e os folguedos entretinham os habitantes da aldeia.

Em casa de Elesbão houve uma grande festança nessa noite.

Compareceram a ela as pessoas mais gradas do lugar, porque o velho era benquisto, e, ainda que pobre, procurado e visitado.

Moças não faltavam. Margarida era o buquê de violetas no meio daquele variado e formosíssimo ramalhete.

Cantou-se, dançou-se, deitaram-se sortes, brincou-se e o tempo voou nas asas do prazer e da alegria.

Só o aspecto sombrio de Cláudio destoava da jubilosa expressão de todos os semblantes.

Suas faces pálidas e olhos encovados denunciavam, ao carregar a testa, a intenção de um delito, a revolução de um crime.

A festa ocorreu sem incidente notável.

Terminada, porém, passava já das duas horas da madrugada, João e Cláudio retiram-se juntos.

Seguiram nas trevas, e quase silenciosos, o caminho solitário.

Algumas nuvens pesadas obscureciam de espaço a espaço o firmamento iluminado por um luar magnífico.

O vento gemia nos ramos das árvores e nos balceiros e, de quando em quando, as aves noturnas soltavam pios agoureiros.

Chegando perto de uma ponte, a pouca distância da qual existia nesse tempo uma casinha habitada por uma velha feiticeira, e cujas ruínas ainda se veem hoje à esquerda do morro das duas cruzes, Cláudio parou e disse para o seu companheiro:

—Olha, João, um de nós é demais para este mundo! É preciso que um ceda o lugar ao outro, ou que ambos desapareçamos.

Esta perversa e cruel apóstrofe assombrou, mas não intimidou João.

Este já de muito sentia o pressentimento de uma grande desgraça.

—Não te compreendo, Cláudio.

—É simples. Ambos amamos a mesma mulher e ela não pode casar com os dois.

—Margarida?

—Sim, Margarida.

—Perdeste seguramente o juízo. Não sabes o que estás dizendo. Não te lembras que Margarida é minha noiva, que amanhã será celebrado o nosso consórcio?

—Pois é por isso mesmo que te falo assim, neste lugar e a esta hora.

—Queres matar-me?

—Ou tu a mim. Escolhe.

João não podia atinar com o que ouvia.

Passaram alguns momentos de silêncio. Afinal, este último, contendo a sua emoção, disse aparentemente calmo:

—Escuta, Cláudio. Que quer dizer semelhante loucura nas vésperas do dia mais feliz de teu amigo, e que o devia ser também para ti? Não tenho eu dito mil vezes que o amor de Margarida era o meu alento no trabalho, o meu consolo nas angústias, a minha fé no presente e a minha esperança no futuro? Que, sem ela, a terra é para mim um deserto, a vida uma peregrinação sem rumo? Que significa, neste momento, essa ameaça e provocação cobardes?

—Significa uma resolução inabalável.

—Mas que fim é, então, o teu?

—Que me cedas o amor de Margarida; ou que ambos, ou um de nós, morra.

—És, nesse caso, um assassino?

—Sou um rival, um tigre! —respondeu friamente Cláudio.

As águas do rio gemiam sob as arcadas da ponte com murmúrio soturno e triste.

A lua escondeu-se repentinamente entre grossas e pesadas nuvens.

Cláudio continuou:

—João, o que experimentas por Margarida, experimento também eu. Tu foste mais feliz. Eu sou mais audacioso: corrijo a parcialidade do destino. Imponho a lei nos acontecimentos. Obtenho pela força o que não consigo pelo acaso. O amor de dois homens por uma mesma mulher só pode ter desenlace de sangue.

—Não recuas mesmo ante o papel de Caim?

—Não.

João deu um passo para trás. Era o momento decisivo de travar-se entre os dois rivais uma luta de morte.

Neste instante, ouviram-se vozes e o andar de um cavalo. O médico, acompanhado por seu pajem, assomou de repente na entrada da ponte.

Cláudio, a este inesperado encontro, fugiu para a mata.

O médico parou, vendo João aquela hora na ponte, e ao mesmo tempo o desaparecimento de uma outra pessoa, e perguntou, com ar de curiosidade:

— Quem era aquele vulto que fugiu?

João hesitou em contar a verdade. Mas o médico, insistindo para que seguissem juntos o caminho até a casa daquele, por onde tinha de passar, ficou completamente informado das estranhas ocorrências daquela noite.

Prometeu que, naquele dia, se empenharia com as autoridades para que, daí em diante, vigiassem os passos de Cláudio. João antes preferia que se não desse publicidade a este fato.

Enquanto esta cena se passava na ponte, Margarida, em seu leito virginal, não podia conciliar o sono.

Singulares visões lhe atribulavam o espirito, apenas apenas conseguia instantaneamente adormecer. Terríveis sobressaltos a agitavam, pressentimentos horrorosos lhe não davam descanso. A pobre moça, não podendo vencer aquela fatal insônia, levantou-se o foi à janela respirar o ar fresco do seu pequeno e delicado jardim.

Uma puríssima estrela brilhava, encravada no melancólico azul do firmamento. As nuvens, que se sucediam com rapidez, pareciam respeitar o brilho daquele astro velador e solitário.

Margarida cravou nela os olhos, invocou o espirito eterno que lhe dava esplendor. Enquanto de suas pálpebras se deslisavam duas lágrimas silenciosas, rompia de seu coração uma prece fervorosa por aquele a quem a pobre moça tão ardentemente amava. Seria a sua súplica ouvida no céu, e assim preservada a vida de seu amante?


*


No dia seguinte, teve lugar a cerimônia do casamento, sem nenhuma ocorrência particular, a não ser a ausência completa de Cláudio, do qual ninguém sabia dar notícia.

À noitinha, logo depois do Sol posto, João e Margarida, separando-se momentaneamente dos amigos e das visitas, foram passear no jardim, de mãos dadas, o fazendo-se as mútuas revelações de um amor puro e sincero.

O noivo colheu dos lábios da bem-amada o primeiro e inebriante ósculo, que vincula dois corações em uma só alma e traduz na terra as felicidades do céu.

Sentaram-se em um banco de relva. Assim estiveram por alguns momentos mergulhados nos antegozos de uma ventura certa.

Margarida levantou-se de repente para ir colher um raminho de flor de laranjeira, que brilhava, prateado pelo luar, em um dos ramos do arbusto.

Mal havia tocado com a mão no raminho, e fazia força para o arrancar, ouviu perto de si uma detonação horrível, seguido de um grito abafado.

João estava morto.

Oito dias depois desta cena trágica, apareceu na estrada o cadáver de Cláudio.

Nunca se soube quem o matou.

Elesbão e Margarida saíram daquela aldeia e foram pedir asilo a outras paragens.

Mão piedosa levantou as cruzes do oiteiro. Ali repousam ao lado um do outro a inocência e o crime.


Fonte: “Ilustração Americana”/RJ, 20 de março de 1870.


 

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