MISTÉRIOS - Narrativas Clássicas Verídicas Sobrenaturais - Henri Lichtner
MISTÉRIOS
Henri Lichtner
(Séc. XX)
A curiosa história que vou narrar ocorreu na minha própria família e deu que falar a toda a região e que habitávamos. Foi durante a minha primeira infância.
O que motivou o fato foi o seguinte: quando solteira, minha mãe fora cortejada ardente e assiduamente por um cavalheiro que se dizia teósofo. Parece-me que ele nutria a intenção de casar-se com ela, mas não era correspondido. Minha mãe, não tendo por ele a menor atração, tornou-se esposa de outro homem: meu pai.
Ora, o pretendente, vendo frustrado os seus desejos, decidiu vingar-se. É precisamente a maneira curiosa de que se valeu para a vingança que constitui o objeto desta narrativa.
Parece que, sendo ocultista, resolveu utilizar os seus poderes mágicos para realizar do seu plano de vingança. O fato é que, repentinamente, acontecimentos estranhos começaram a ter lugar em nossa casa.
Primeiramente começamos a ouvir ruídos curiosos de que ignorávamos a origem; e logo, pela casa inteira — e principalmente sob os travesseiros do leito de minha mãe — começaram a se fazer ouvir toda sorte de sons, numa cacofonia amedrontadora. Comumente, era a altas horas da noite que os sons surgiam: miados, latidos, gritos de horror, repiques de sinos, barulho de cadeiras, toques de cometa, batidas de porta, vozes de pessoas em confabulações macabras, toda sorte de sons aterrorizadores.
Todas as pessoas da casa ouviam esse barulho. Qualquer um pode imaginar o que isso significava! Não podíamos dormir em tais circunstâncias. Mas o mistério perdurava. Ninguém conseguia solvê-lo Todos nós estávamos tremendamente fatigados por passarmos as noites em claro, não conseguindo conciliar o sono no meio da algazarra que ouvíamos. Parece que o “espírito” perturbador, que motivava a barulhada toda, sentia-se satisfeito com o nosso mal-estar e até encorajado a prosseguir na brincadeira.
Nos dias posteriores, a nossa angústia aumentou. Já não eram apenas ruídos que ouvíamos; víamos coisas misteriosas agora! Os objetos com que minha mãe adornava os móveis caíam no chão; os quadros desprendiam-se das paredes; as mesas davam saltos; as janelas tremiam, fechando e abrindo as suas folhas. Os ruídos aumentaram; parecia-nos agora que enormes caminhões cheios de pedra estavam sendo descarregados dentro de casa.
Ninguém atinava com a causa dos nossos males. Estávamos inteiramente desorientados! Toda a região falava da casa como de um antro de fantasma! A velha empregada que tínhamos não queria por coisa alguma deste mundo permanecer ali.
Um dia, meus pais tiveram a feliz ideia de chamar o vigário do lugarejo e pedir-lhe que fizesse um esconjuro contra os espíritos malignos e abençoasse a nossa casa. O efeito foi completo. Desde esse dia cessaram todas as manifestações estranhas que nos perturbavam.
Algum tempo depois, minha mãe encontrou-se com o “ocultista” que suspeitava ser o causador de todas aquelas estranhas manifestações. Acusou-o sem vacilar! Ele não negou; deu uma risadinha sarcástica e retrucou:
— Apenas me transportei em pensamento para sua casa…
Era um caso de má aplicação das forças mágicas ou, em outras palavras, era um caso de “magia negra”.
*
Na aldeia francesa de Morzine passou-se, em 1857, uma história curiosíssima. A França inteira comentou-a.
A história começou com um simples caso de “obsessão”. Uma menina, completamente inocente, foi tomada de um espírito diabólico. Sem mais nem menos, ela caía desvanecida, presa de delírios e convulsões. Pronunciava contra todo mundo as palavras mais injuriosas que se pode imaginar. A Igreja, Deus, os próprios pais não escapavam às suas ofensas.
Pouco depois, várias outras crianças foram atacadas pelo mesmo mal. A vila inteira alarmou-se! Pouco a pouco, o número de pessoas com essa doença aumentava. Três anos depois, em 1861, elevava-se a 150 esse número.
As crianças atacadas pelo mal, além de serem vítimas das manifestações já relatadas, trepavam em árvores como se fossem macacos; falavam em línguas estrangeiras, das quais não tinham a menor noção em estado normal, e faziam profecias, muitas das quais se realizavam plenamente. Fenômenos os mais extravagantes ocorriam-lhes, deixando de boca aberta todos que os presenciavam.
A famosa Sorbonne enviou uma comissão especial de sábios a Morzine.
Mas nada resolvia o espantoso mistério. Já não havia, na pequena aldeia, uma única casa em que não houvesse crianças doentes. Os esconjuros, feitos pelo vigário e seus confrades, não lograram senão um efeito muito diminuto; toda a gente estava desesperada.
Um dia, os habitantes suspeitaram de um pobre sapateiro como o executor da macumba e resolveram matá-lo para acabar com a praga. Mas o pobre homem, que se arrastava penosamente, andando com enorme dificuldade, não era capaz de fazer mal a quem quer que fosse. As autoridades locais entraram em cena para proteger a sua vida e prenderam os que o atacavam.
Foi então que o Congresso de Médicos tomou uma medida de efeito real: distribuiu as crianças por 150 lugares diferentes da França. Só assim as pobres criaturas se restabeleceram e, depois de alguns meses, puderam voltar à casa paterna. Desse modo, a vila de Morzine, em Savoie, se livrou da “Invasão dos Diabos”.
Esse fato, que poderá parecer ficção, é um acontecimento histórico, registrado nos anais da Sorbonne.
*
Há homens que possuem um “sexto sentido”! A maior parte das vezes esse sentido se manifesta independentemente da vontade de quem o possui. As manifestações mais comuns são as de previsão de desastres, mortes, incêndios.
Assaz conhecida é a visão do famoso visionário Swedenborg que, visitando amigos em Copenhague, longe da sua cidade natal, começou, subitamente, no meio de uma conversação, a dar vivos sinais de inquietação e de pavor. Retirou-se da sala várias vezes, nervoso, agitado, possuindo uma angústia horrorosa. Os amigos contemplavam-no, temendo um acesso de loucura. Por fim, Swendenborg resolveu dizer o que via: em sua terra natal, nesse momento, um grande incêndio irrompera! O fogo tomava proporções fantásticas. Ameaçava sua casa! Ele respirava opresso, com o suor a escorrer pela testa, o rosto convulso.
Passou-se muito tempo. A sua expressão facial foi serenando e adquiriu uma expressão consolada, enquanto a sua casa estivera em perigo, mas, felizmente, o fogo tinha sido detido.
Todos julgaram que aquilo fosse uma mera alucinação. Continuaram a se divertir sem se preocupar mais com as visões de Swedenborg.
Três dias depois, chegava a comunicação (naquela época as comunicações eram difíceis) do pavoroso incêndio previsto pelo visionário.
*
O “sexto sentido” é, na verdade, uma coisa plenamente admitida hoje, embora a sua explicação esteja em fase primária.
Casos como os que relatamos de visão de incêndios, confirmados por notícias posteriores, são comuns. Existe mesmo um caso em que, tendo duas casas sido postas sob seguro, em virtude de visões semelhantes, quando essas casas foram destruídas, a companhia de seguros moveu ação contra o segurado, afirmando que o incêndio fora criminoso.
Desse modo, as faculdades visionárias de certas pessoas têm disso comprovadas por autoridades policiais e judiciárias.
*
Não há quem não tenha ouvido falar no caso de uma aparição de pessoas moribundas junto a amigos especialmente estimados por elas. Mas o caso que passarei a relatar é o de uma pessoa que apareceu a outras estando viva e livre de qualquer doença.
O navio vogava pelo Atlântico. O capitão, na sua cabine, cansado pela luta diurna contra o mar, com os olhos semicerrados, sonhava que a sua esposa vinha fazer-lhe uma visita.
Pela manhã, o primeiro piloto, que partilhava da cabine do capitão, censurou-o pelo fato de receber uma mulher durante a noite. O capitão contou-lhe, então, que a sua esposa viera fazer-lhe uma visita em sonho. A descrição do piloto não deixava dúvida: era ela mesma. O capitão se alarmou, temendo que algo de grave houvesse acontecido à sua estremecida esposa. Mas, chegando algumas semanas depois em casa, encontrou-a alegre e cheia de saúde como sempre.
Ele contou-lhe o sonho que tivera e ela, admirada, narrou-lhe que, uma noite, o mar estava tempestuoso. Inquieta com a sorte do esposo, dirigiu-se a ele, em pensamento. Pensou durante muito tempo, fixamente, e de repente avistou o navio. Desceu no deque, abriu a porta da cabine e viu um homem que, sentado na borda do leito, olhava-a muito espantado. Era o piloto. Verificou se o seu marido estava bem e retirou-se calmamente, voltando para casa.
Nesses casos, trata-se, portanto, não somente de um caso de clarividência, mas duma materialização visionária, observada por uma terceira pessoa. Isso vem confirmar o que as ciências ocultas afirmam, isto é: todos nós possuímos, em estado latente, o “sexto sentido” no sonho, os obstáculos de que nos impedem de fazer uso dele são afastados. O problema é, portanto, como afirmam os partidários dessa teoria, tornar-se consciente durante o sono. Experimente-o, se puder…
Fonte: “A Cigarra”/RJ, nº 99, junho de 1942.
Comentários
Postar um comentário