O DEMÔNIO INCENDIÁRIO - Narrativa Clássica Sobrenatural - Flodoard de Reims

O DEMÔNIO INCENDIÁRIO

Flodoard de Reims

(894 – 966)

Tradução de Paulo Soriano


Um dia, São Remígio, arcebispo de Reims, estava absorto em oração numa igreja de sua amada cidade. Agradecia a Deus por ter obtido a salvação das mais belas almas da diocese, livrado-as das ciladas do demônio, quando soube que a cidade inteira estava em chamas.

Então a ovelha se transformou em leão, pois a fúria cresceu na face do santo, que, com terrível energia, bateu o pé nas lajes da igreja e gritou:

— Satanás, eu te reconheço; mas ainda não acabei com a tua maldade!

Hoje, a pedra — na qual a marca do pé do irritado São Remígio está impressa — ainda é visível, incrustada no portal ocidental da igreja de sua igreja em Reims.

Como se fosse um guerreiro de espada e armadura, o santo armou-se com seu cajado e seu manto, e correu para enfrentar o inimigo. Mal deu alguns passos, viu que rajadas de chamas devoravam, com uma fúria que nada conseguia deter, as casas de madeira, com que a cidade era construída, e os telhados de palha, com que essas casas estavam cobertas. À presença do santo, o fogo amainou. Remígio, que bem conhecia o inimigo com quem lidava, fez o sinal da cruz e o fogo encolheu.

À medida que, fazendo o sinal da cruz, o santo avançava, o fogo amainava e fugia, como que fascinado pelo poder do bispo. O fogo semelhava um ente inteligente, que conhecia a própria fraqueza. Às vezes, ele se enfurecia e recuperava a coragem, procurando apanhar o santo num envoltório de fogo, cegá-lo e reduzi-lo a cinzas. Mas sempre um formidável sinal da cruz aparava os ataques e detinha aquelas artimanhas.

Obrigado a assim recuar, abandonando sucessivamente todas as casas que principiara a consumir, o fogo chegou aos pés do bispo como um animal domado. Deixou-se levar e conduzir, pela vontade do santo, para fora da cidade, seguindo às valas que ainda fortificam Reims. Lá, Remígio abriu uma porta que dava para uma área subterrânea. Nela, o santo atirou as chamas — como alguém atira um malfeitor num abismo — e fechou a porta.

Sob pena de anátema, da ruína do corpo e da morte da alma, ele proibiu que esta porta fosse, desde então, aberta. Um imprudente, curioso ou talvez cético, quis desafiar aquele anteparo e abrir o abismo; mas dela saíram redemoinhos de chamas que o devoraram. Então, as labaredas retornaram de per si às profundezas onde a vontade eterna do santo as mantinha acorrentadas.


Fonte: Collin de Pancy, Légendes des Espirits et des Démons, Henri Plon editor, Paris, 1863.

 

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