O HOMEM VOADOR - Conto Clássico Fantástico - H. G. Wells

O HOMEM VOADOR

H. G. Wells

(1866 – 1946)

Tradução de L. Papaterra

(Séc. XX)



O etnólogo examinou pensativamente a pena de Bhimaj.

—Ele parecia bem pouco disposto a separar-se dela — disse, por fim.

—Esta pena é sagrada para os chefes — respondeu o tenente —, como a seda amarela é sagrada para o imperador da China.

O etnólogo não respondeu. Hesitava; depois, entrando inopinadamente em matéria, perguntou:

—Que história é aquela que eles contam a propósito de um homem voador?

O tenente esboçou um sorriso.

— Que foi que lhe disseram?

—Estou vendo — disse o etnólogo — que o senhor está ao corrente da sua fama.

O tenente principiou a enrolar um cigarro.

—Ser-me-ia muito agradável ouvir mais uma vez esta história —disse ele — para ver em que pé ela se acha presentemente.

—É uma história tão estupidamente pueril! —retorquiu o etnólogo um tanto irritado.

—Como foi que conseguiu pregar-lhes tal logro?

O tenente ficou silencioso e, sempre sorrindo, encostou-se na poltrona.

—O que é fato é que tive de fazer um desvio de quinhentos quilômetros para compilar o que a sabedoria popular desta gente tem podido adquirir, antes que ela fique inteiramente desmoralizada pelos militares, e nada mais encontro que um acervo de lendas inacreditáveis a respeito de certo tenentezinho de infantaria. Como ele é invulnerável, como pode saltar por cima dos elefantes, como ele pode voar! E muitas outras tolices! Um respeitável ancião descreveu-me as suas asas, dizendo que eram de penas pretas, mas não chegavam a ser do tamanho de uma mula. Ele pretende fazer acreditar que o viu muitas vezes, à claridade da lua, volitar por cima das colinas na direção do país de Shendu. Que o leve a breca!…

—Continue, disse, continue…

O etnólogo continuou até não poder mais.

—Fazer acreditarem semelhantes coisas estes filhos das montanhas ainda dotados de boa-fé! Como foi que o senhor pôde fazer isso?

— Lastimo tê-lo feito — disse o tenente —, mas, na verdade, fui obrigado a assim proceder. Posso afirmar-lhe que o fato se impunha e eu não tinha então a mínima ideia do modo como o compreenderia essa gente. Nem a mínima curiosidade. Posso apenas alegar em meu favor que foi, sim, uma indiscrição, mas de modo algum a malevolência que me impeliu a substituir a tradição popular por uma nova legenda. Como, porém, o vejo pesaroso, vou tentar explicar-lhe.


*


Era a época da penúltima expedição contra os Lushai e Walters julgava que essa gente, que o senhor acaba de visitar, estava animada de intenções amistosas em relação a nós; por isso, com firme confiança na minha capacidade em vencer os obstáculos, ele me enviou lá para o alto do desfiladeiro, a vinte quilômetros daqui, com três soldados europeus, uma dúzia de soldados indianos, duas mulas e a sua benção, com o fim de estudar de perto os sentimentos populares da aldeia que o senhor visitou há pouco. Uma tropa forte de dez homens, sem contar as mulas, vinte quilômetros a percorrer e em tempo de hostilidade! O senhor viu a estrada?

—A estrada? — disse o etnólogo.

—Ela se acha agora em melhor estado do que era antigamente. Tivemos que seguir o leito do riacho durante quinhentos metros no lugar em que o vale se encolhe. Havia uma correnteza rápida que encachoeirava ao redor dos nossos joelhos e rolava sobre pedras lisas como espelhos.

Foi aí que deixei cair a minha carabina. Mais tarde, os sapadores fizeram saltar o rochedo, a dinamite, para no seu lugar construírem uma estrada mais ampla, que é a que o senhor conhece.

Nesse tempo, seguia-se por baixo, ao longo dos altos rochedos a pique e era preciso contornar constantemente o riacho, sem contar que era mister atravessá-lo uma dúzia de vezes em um comprimento de três quilômetros.

Chegamos à vista da praça no dia seguinte de manhã muito cedo. Sabe onde ela se acha: sobre um contraforte, a meio caminho, no meio dos píncaros, e, como principiássemos a apreciar a falaciosa tranquilidade da aldeia inundada de sol, detivemo-nos a fim de tomarmos uma deliberação em comum.

Então, à guisa de boas-vindas, eles nos atiraram um fragmento de ídolo de cobre; o bloco desceu o declive íngreme, passou a uma polegada do meu ombro e bateu na mula que levava as provisões e os instrumentos.

Nunca ouvi alarido semelhante àquele, nem antes, nem depois disso. Nesse momento, avistamos um certo número de homens carregando espingardas, vestidos de uma espécie de estopa com quadrados coloridos, e fazendo um desvio ao longo de um atalho, entre a aldeia e os píncaros do lado de este.

—Para trás! —ordenei. —E afastem-se uns dos outros!

Com este estímulo, a minha expedição de dez homens deu meia volta e principiou a descer o vale com passo rápido. Não nos demoramos a salvar a mínima coisa do carregamento da nossa mula morta, mas, por um sentimento de amizade, levamos conosco a outra, que levava a minha tenda e várias roupas de uso.

E assim terminou a batalha inglória! Deitando um olhar para trás, vi o vale todo pontuado de vencedores que soltavam gritos e apontavam para nós as espingardas. Mas ninguém foi atingido. Essa gente não é de temer quando faz uso das suas espingardas; eles só sabem alcançar um alvo fixo. Precisam estar de frente e visar durante horas, e, quando atiram a correr, é simplesmente no intuito de fazer barulho. Hooker, um dos meus soldados brancos, que se julgava bom atirador, parou meio minuto para arriscar a probabilidade de derribar um deles, mas tornou a se reunir a nós completamente desapontado.


*



Não sou um Xenofonte para tecer uma longa história sobre o meu exército em retirada. Durante os dois ou três quilômetros seguintes, tivemos de conter o inimigo que nos acossava com demasiada urgência, e trocamos alguns tiros. Mas, em suma, a coisa foi bastante monótona — apenas logramos esfalfar-nos de parte a parte —, até que chegamos ao ponto em que os píncaros descem em direção ao mar e apertam o vale em um simples desfiladeiro. Ali, por muita felicidade, avistei cerca de meia dúzia de cabeças pretas, que vinham encontrar em sentido oblíquo do alto dos rochedos, à esquerda — ao oriente, na realidade. Ao vê-los, ordenei aos meus que fizessem alto.

—Atenção agora. Que havemos de fazer? — disse eu a Hooker e aos outros, indicando as cabeças pretas.

—Acho que estamos cercados, disse um dos homens.

—Havemos de estar — respondeu outro. — Não conheces as artimanhas destes bugres, hein, George?

—Eles vão atrair-nos à toca, a cinquenta metros — declarou Hooker, no ponto em que o rio fica mais estreito. — Continuar a descer equivale a caminhar para o suicídio.

Olhei para o píncaro à direita. Ele cabia quase a pique até a base do vale, mas parecia prestar-se à escalada, e todos os inimigos que até então víramos estavam do lado oposto do rio.

—Onde havemos de ficar? — disse um dos soldados indianos.

Principiamos a trepar pela colina obliquamente. Havia uma espécie de picada que subia em nesga e nós fomos seguindo por ela.

Dentro em pouco, alguns inimigos surgiram no alto do vale, e ouvi alguns tiros. Notei, então, que um dos soldados indianos estava sentado a trinta metros abaixo. Ali ficava, sem dizer uma palavra, provavelmente para não inquietar. Ordenei novo alto. Depois disse a Hooker que tentasse derribar alguns inimigos e voltei ao encontro do homem que tinha sido alcançado por uma bala na perna. Tomei-o nos braços e levei-o até a mula sobre o qual o instalei; o pobre animal achava-se já bastante carregado com a barraca e diversas roupas que não tínhamos tempo de desamarrar. Quando me reuni ao resto da companhia, Hooker tinha na mão a sua carabina desarmada e, rindo, apontava para o alto do vale, mostrando uma mancha escura e imóvel. Todos os outros inimigos estavam ocultos por detrás dos rochedos ou tinham fugido para além da curva.

—A quinhentos metros — disse Hooker. — E aposto que lhe acertei em cheio na cabeça.

Pedi-lhe que repetisse uma pontaria tão certeira e tornamos a pôr-nos a caminho. O declive apresentava-se cada vez mais inacessível e a picada menos acentuada à medida que íamos subindo. Em breve, por cima e por baixo de nós, não se viam senão rochas escarpadas.

—É este o mais belo caminho que tenho visto no país de Chin-Lushai — disse eu para animar os homens; mas, no meu intimo, sentia um grande temor pelo que pudesse acontecer.

No fim de alguns minutos, o caminho seguia rente à escarpa, contornando-a. Depois disso, nada mais: a picada terminava ali. Ao certificar-se da nossa posição, um dos homens principiou a praguejar e a maldizer do laço em que tínhamos caído. Achávamo-nos então sobre uma espécie de plataforma que devia ter no máximo dez metros de largura. Os rochedos erguiam-se em abóbada por cima de nós, de modo que não nos podiam fuzilar do alto; e, diante de nós, abria-se um precipício de duzentos ou trezentos pés de profundidade.

Tendo-nos deitado no chão, ficáramos invisíveis para aqueles que estivessem do outro lado do despenhadeiro.

A única aproximação que podíamos recear era ao longo da passagem, e um homem bem emboscado na entrada valia por um exercito. Achávamo-nos em um fortaleza natural, havendo contra nós uma única desvantagem: limitavam-se as nossas provisões contra a fome e a sede unicamente a uma mula viva. Todavia, estávamos afastados uns doze ou quinze quilômetros do grosso da expedição; mas, sem duvida, quando vissem que a nossa ausência durava um dia ou dois, mandariam gente à nossa procura, se não nos vissem regressar. No fim de um ou dois dias…


*


O tenente calou-se de súbito.

— Nunca passou sede, Graham?

—Dessa maneira, nunca — respondeu o etnólogo.

—Hum! Passamos sede todo aquele dia, toda a noite seguinte e todo o dia seguinte, tendo apenas conseguido obter algumas gotas de orvalho, torcendo diversas roupas e a barraca. Por baixo de nós, o rio deslisava marulhando contra um rochedo que emergia no meio da corrente. Nunca vi tanta ausência de incidentes aliada a tamanha intensidade de sensação. O sol obedecia, sem dúvida, ainda, à ordem de Josué, pois quase não mudava de lugar; ele flamejava como uma fornalha ardente. Para a tarde do primeiro dia, um dos dois soldados brancos murmurou entre os dentes qualquer coisa que ninguém compreendeu, e afastou-se, seguindo o caminho por onde tínhamos vindo.

Ouvimos tiros e, quando Hooker foi examinar a entrada da passagem, o homem tinha já desaparecido. Na manhã do dia seguinte, o soldado ferido delirou e, ou saltou, ou se despenhou pela ribanceira; foi então que nós eliminamos a mula, que também se despenhou, nos seus últimos arrancos, até o fundo do precipício; e ficamos oito.

No fundo do abismo, avistávamos o corpo do soldado indiano, cuja cabeça mergulhava na água. Estava de bruços e, pelo que parecia, achava-se muito pouco ferido. Posto que grande fosse o desejo que o inimigo tinha de possuir aquela cabeça, ninguém se atreveu a aproximar-se antes de anoitecer.

Primeiramente, falamos das probabilidades que havia de que o grosso da tropa houvesse ouvido a nossa fuzilaria, e procurávamos calcular em que momento notariam a nossa demora, e inúmeras outras coisas.

Mas íamos desanimando realmente, à proporção que as horas passavam. Os soldados indianos jogaram seixos uns com os outros, depois contaram histórias. A noite foi bastante fria. No segundo dia, ninguém falou. Tínhamos os lábios negros e a garganta em fogo: conservávamo-nos deitados sobre a pedra, olhando uns para os outros. Um dos homens pôs-se a riscar sobre a pedra, com um pedaço de canudo de cachimbo, blasfêmias e invectivas, como uma espécie de testamento, e admoestei-o. Quando principiei a olhar o rio que cascateava no fundo do vale, fui tentado a imitar o soldado indiano, cujo corpo lá se via ainda. Parecia-me então coisa atraente e desejável rolar ao longo do despenhadeiro, achando-se lá em baixo água para beber — ou pelo menos, não se teria mais sede. Contudo, lembrei-me a tempo de que era eu quem comandava o destacamento e que o dever me impunha o bom exemplo, e isto me impediu de cometer uma tolice.


*


Assim pensando, ocorreu-me uma ideia. Levantei-me e examinei a barraca e as cordas que a pendiam, e admirei-me de me não ter lembrado disso há mais tempo. Desta vez, a altura pareceu-me bem maior e a atitude do soldado morto um tanto mais penosa. Mas não havia senão esse meio ou nada. E, para lhe dizer sem mais delongas, desci em paraquedas.

Servi-me, para isso, de um grande círculo de pano que pertencia à barraca, e que tinha três vezes o tamanho deste pano de mesa. Fiz-lhe um furo no meio, liguei em volta oito cordas que se uniam no centro para formarem um paraquedas. Os outros olhavam-me, supondo-me tomado de uma nova especie de delírio. Então expliquei o meu plano aos dois soldados europeus e, assim que o rápido crepúsculo se tornou noite fechada, arrisquei a experiencia. Os dois homens mantinham suspenso o aparelho, enquanto eu formava o meu voo, percorrendo todo o comprimento da plataforma. O meu paraquedas enfunou-se como uma vela, mas devo confessar que, ao chegar à extremidade, tive medo e detive-me bruscamente.

Imediatamente, porém, envergonhei-me de mim mesmo. Parece que decorreu um longo momento antes que eu me certificasse de que o meu aparelho ficaria firme. A principio, ele baloiçou para um e outro lado. Depois, passou-me pelos olhos a parede de rochas que parecia subir na minha frente, ao passo que eu parecia imóvel. Olhei para baixo: vi as águas escuras do rio e o cadáver do soldado indiano, e dir-me-ia que vinham ao meu encontro. Mas, à claridade indistinta, avistei também três inimigos boquiabertos por me verem descendo, e reparei que o corpo estava decapitado. À vista disto, eu bem desejara poder subir de novo.

No mesmo instante, senti que a minha bota entrava na boca de um dos inimigos e tanto ele como eu não formávamos mais que um só todo com a tela que se desenfunava e caía por cima de nós. Eu devia, sem dúvida, ter feito saltarem os miolos do homem debaixo dos meus pés. Para mim, não era de esperar outra coisa senão ser por minha vez trucidado, mas os pobres pagãos, que nunca tinham ouvido falar de Baldwin, puseram-se em fuga imediatamente.

Desembaracei-me da tela e do cadáver e deitei um olhar ao redor de mim. À distância de dez passos, avistei a cabeça do morto, com os olhos fixos, à pálida claridade da lua. Em seguida olhei para a água e apressei-me a estancar a sede. Não se ouvia no mundo outro ruido senão o da retirada precipitada dos inimigos, o murmúrio da corrente e, depois, um débil grito que me chegou do alto. Desde que me fartei de beber, principiei a descer ao longo da corrente.


*


Tal é a explicação da história do homem voador. Durante os doze quilômetros que fiz para me reunir à expedição, não encontrei alma viva. Cheguei ao acampamento de Walters por voltas das dez horas e o estúpido imbecil, que estava de ronda, teve a audácia de me alvejar com tiros quando surgi fora das trevas, a correr. Logo que consegui fazer entrar a minha história no cérebro espesso de Walters, cinquenta homens se puseram a caminho para irem rechaçar do vale os inimigos e trazer os nossos homens.

Eu, porém já tinha curtido muita sede para ir novamente provocá-la acompanhando-os.

O senhor ouviu qual a espécie de lenda que eles engendraram com isso. Umas asas do tamanho de uma mula, hein? E penas pretas! O bom do tenente transformado em pássaro! Bom! Bom!”

Por um momento, conservou-se o tenente mergulhado em alguma alegre meditação; depois, acrescentou:

—O senhor não ia de crer, mas quando os homens do destacamento chegaram à plataforma, dois soldados indianos tinham-se atirado abaixo.

—O resto ia bem? — perguntou o etnólogo.

—O resto ia bem, a não ser a sede.

E, a esta recordação, o tenente serviu-se de mais um copo de uísque com soda.


Fonte: “Primeira”/RJ, edição de 10 de setembro de 1927.


 

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