O PINHEIRO DA ENCRUZILHADA - Conto Clássico Sobrenatural - Autor anônimo do séc. XX
O PINHEIRO DA ENCRUZILHADA
Autor anônimo do séc. XX
— Você viu?
— Tudo!
Estávamos num botequim do Portão — o bairro mais dinâmico e longínquo da cidade dos tinguis. Tomávamos cerveja quente, sem gelo, muito velha.
Dois cavaleiros, deixando as suas alimárias no cepo da calçada, entraram afobado, pálidos, nervosos e pediram, trêmulos:
—Duas brambillas. Você viu?
—Tudo!
Ficamos com a pulga atrai da orelha. Que seria? Aproximamo-nos, cautamente, com habilidade.
—Boa noite… Os senhores parecem-nos…
—Parecemos, do fato, dois medrosos. Mas, se todos vissem o que vimos, o mais valentão seria o mais covarde dos homens
—Que aconteceu? Algum crime? — inquerimos.
—Qual crime, moços, qual nada. Assombração! Da braba. Ali na encruzilhada.
— Assombração? Não seria engano?
—Os senhores querem saber?
Sentamo-nos.
— uas Astras! — pedimos.
E o homem de barba preta começou:
—Aqui na encruzilhada das estradas do Portão e São José dos Pinhais, principalmente às sextas-feiras, há coisas de arrepiar os cabelos, até dos carecas mais descabelados!
“Aquele pinheiro é barbaridade. Tem parte com o Demo, moços! Raízes encarquilhadas sobre o solo; copa cheia de barbas-de-pau, que os ventos balançam; tronco velho e arrevesado, aquele pinheiro, dizem os velhos, foi o único espectador de uma tragédia barbara
“No tempo da revolução de 931, quando as forças do Gumercindo andavam varrendo o dinheiro que havia nas peúgas dos colonos remediados, todo mundo tratou de enterrar as suas economias para salvá-las do saque revolucionário.
“O Padre Beachim morava aqui no Portão com uma francesa; era dono de muitos haveres e indicava, aos soldados do Juca Tigre2, quem tinha onças e patacas.
“Depois que as forças Federalistas ocuparam Curitiba, mercê da derrota do Gumercindo em Castro, o padre foi acusado de revoltoso.
“Antes de ser preso, diziam os meus pais, enterrou parte de sua fortuna ao pé daquele maldito pinheiro da encruzilhada. Mais tarde, amarraram o padre Beachim ao pinheiro e, ali mesmo, os soldados do general Quadros o fuzilaram sem piedade.
“O pinheiro viu tudo!
“As suas raízes enriqueceram-se do dinheiro e do sangue do padre!
“Passaram-se anos. Ninguém mais se lembrava do padre Beachim. Uma noite, um cavaleiro, que vinha de São José, viu correndo pela estrada, cavalgando uma mula preta, o padre Beachim!
“Um vento horrível bandarilhava os matagais adjacentes! O padre, depois de galopar muito, soltando estouros e fogos pelas narinas, rodeou o pinheiro fatal da encruzilhada, numa fúria incontida, gritando e soluçando:
“— Salvem o meu dinheiro!
“O cavaleiro espalhou a notícia macabra e assombradora!
“Pouca gente, depois, durante a noite, transitava a estrada.
“Hoje, nós vínhamos, eu e o meu filho, de São José dos Pinhais, ultimar uns negócios em Curitiba. Nem nos lembrávamos das almas penadas e dos agouros.
“Quando defrontamos o pinheiro, os nossos cavalos estacaram! Chicote e mais chicote. Nada. Os animais corcoveavam, mas não queriam passar. Olhamos. Não vimos ninguém.
“—Ué — disse eu —, estes bichos nunca foram passarinheiros…
“Mal terminara a frase, ouvimos um tropel de cavalo ferrado, que se aproximava. Esperamos arrepiados.
“Eu nunca tive medo, mas naquela hora, moços, fiquei relaxado, bambo!…
“Ao clarão da Lua, vimos, então, um padre que, cavalgando uma mula preta, corria em nona direção. Ah, moços! Não lhes digo nada. A mula deitava fogo pelas narinas! O padre fazia as abas da sua capa espanhola bailarem ao vento!
“A copa do pinheiro gemia, como se fosse gente moribunda! As suas raízes saíram da terra e retorciam-se desesperadamente! Um horror!
“Então, enterramos as esporas nos nossos animais e saímos como duas balas de canhão, voando!…
“Credo! Que só em falar me arrepio todo!”.
E fazendo o sinal da cruz:
—Era o padre Beachim, posso lhes garantir, que guardava seu dinheiro enterrado, moços!
Fonte: “Diario da Tarde”/PR, edição de 19 de abril de 1929.
Ilustração: PS/Copilot.
Notas:
1Trata-se da Revolução Federalista, conflito armado ocorrido no Sul do Brasil, entre 1893 e 1895. Gumercindo Saraiva (1852 – 1894) foi um dos líderes das tropas rebeldes.
2O coronel José Serafim de Castilhos, chamado Juca Tigre (1844 – 1903) foi um dos líderes federalistas.
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