O PRÍNCIPE PESCADOR - Conto Fantástico - João de Arlekinom


O PRÍNCIPE PESCADOR

João de Arlekinom


Os prelúdios cinzentos podiam ser sentidos ao observar o horizonte. Alcrin refletia próximo da janela de seu quarto, que mirava para os mares do leste solitário. Ele sabia que, para além dos muros e das torres da cidade portuária de Gothlang, a tormenta insidiosa preparava-se, armava-se em formas de nuvens degeneradas e ciclópicas que se precipitavam para cair sobre os barcos solitários no mar distante, para além da costa.

Aqueles aventureiros marítimos que enfrentarão este temível e incansável adversário, caso sobrevivam, se tornarão lendas que há de serem contadas na posteridade” —pensava o príncipe.

Lembrava-se das histórias que a rainha mãe lhe contava nas noites inquietas em que os céus ficavam furiosos e grandes tempestades assolavam as torres do castelo. Ela falava sobre os bravos de tempos longevos, que enfrentaram os Mares Austrais, os distantes e temidos Mares Austrais… Estes bravos homens de tempos antigos lutaram contra criaturas horrendas de períodos primitivos da história dos homens. Alcrin se maravilhava com estes relatos fantasiosos e, em seu íntimo, desejava viver aquelas façanhas, pois sabia que seria lembrado na memória de todos aqueles que viessem depois dele. O povo das Ilhas Guinorak, dizem “Homens erguem-se e homens caem, mas há aqueles que viverão por três milênios”, um ditado no qual o príncipe acreditava com fervor.

Foi em uma destas noites de contação que sua mãe contou-lhe a história de Grak, o pescador. Fora ele um herói lendário de sua época, que atravessou os mares Turínios para pescar o maior dos seres aquáticos, o temível polvo de Valkarion, a criatura que aterrorizou por cem anos os marinheiros mercantes que vinham dos reinos das terras da Trácia com destino a Thruth-Karan, lar dos ricos mercadores de toda a Terra dos Sonhos.

Os olhos da bela rainha mãe brilhavam ao contar os feitos de Grak, havia entusiasmo na sua doce voz, como se recordasse com alegria dos tempos em que ouvira tal história do pai, o velho rei. Quando enfim o sono recaía sobre Alcrin, Fântaso descia e pegando-lhe pelas mãos, levava-o para além, mergulhando seu coração em devaneios maravilhosos e neles ele estava com Grak, lutando contra os monstros horrendos dos quatro mares sem fim.

De uma criança sonhadora, o príncipe tornou-se um jovem forte, cheio de vigor para concretizar os feitos que havia sonhado na infância. Pediu para a rainha mãe um dos barcos da marinha real, foi sincero quanto aos seus desejos, revelou a vontade de desbravar os recônditos sem fim dos mares etéreos e revelar as terras perdidas que ali existiam. A rainha aceitou o seu pedido com tristeza nos olhos, pois ela tinha o dom da profecia e sabia de eventos futuros dos quais homens comuns jamais saberiam. Alertou o príncipe sobre os perigos de sua jornada, avisou que qualquer ofensa feita contra Netuno seria motivo para o deus trazer a vingança até ele, também disse para que tomasse cuidado com relação àquilo que o oceano ignoto ocultava em suas águas turvas e infindáveis. Mesmo com tais advertências, não poderia impedir a vontade do filho, pois este acreditava em um destino que fora traçado desde que nasceu, ele iria ir, para nunca mais voltar. A rainha deu ao filho o navio chamado “Sonho de Verão”, Alcrin agradeceu e ajoelhou-se para pedir a benção da mãe, então partiu.

Recrutou nos portos de Gothlang alguns servos para acompanhá-lo, fariam eles parte da tripulação. Eram os mais bravos marinheiros, veteranos em sua profissão, alguns serviram a marinha real, outros eram velhos corsários que vinham de muitas partes da terra e carregavam muitas histórias consigo. Temeram quando foi-lhes revelado qual seria o destino da viagem, porém, o ouro que Alcrin lhes ofereceu em seguida serviu para persuadi-los.

O grande navio “Sonho de Verão” era a maior embarcação dos portos de Gothlang nas Ilhas da Tempestade, possuía seis grandes mastros que erguiam-se contra os céus nublados de forma desafiadora, o casco era de cor esbranquiçada que fazia-o sumir em épocas de brumas altas. Os dois mastros da popa possuíam velas de cores avermelhadas que representavam o sangue real, dois mastros da proa possuíam velas de cores azuladas que representavam os mares salinos e os dois mastros mestres possuíam velas esverdeadas de tom jade que representavam as cores da casa real que governava as ilhas. Todas as velas possuíam a tartaruga dourada, símbolo daquele país.

Os preparativos para a jornada estavam prontos, estocaram mantimentos que durariam por longas viagens em mar aberto, eram provisões como carne seca, queijo salgado e temperos especiais. Também foram estocados equipamentos de recomposição para fazer a manutenção da embarcação caso necessário. Partiram rumo aos tempestuosos e coléricos mares do leste, que podiam ser observados no horizonte como breves presságios de terror e dor.

Aquelas eram águas gélidas, pois circundavam as terras gélidas e alvas do ártico distante. Viram grandes icebergs flutuantes, onde bestas antigas estavam enterradas no gelo primitivo e podiam ser vistas no seu interior, com rostos perturbadores. Grandes baleias emergiam das profundezas escuras com grandes saltos repentinos, estavam em grupos de dez que seguiam para as águas quentes do norte. Os homens se maravilhavam, ao mesmo tempo que se horrorizavam com tais visões. Brisas gentis traziam um otimismo sonhador para toda a tripulação que cantava canções de marinheiros e por um momento acreditara ser possível desafiar os deuses do oceano. Os ventos gélidos e portentosos levaram a embarcação ao leste, fazendo-a flutuar sobre as águas inquietas. Podiam ver os rochedos pontiagudos e as ilhas de Belaht que se erguiam no sul boreal.

Alcrin podia ver, da ponte de comando na popa, o horizonte cadavérico que se mostrava como uma majestade tirana e espectral. Junto de seu almirante conferira o mapa que havia conseguido nas bibliotecas dos sábios de Gothlang, que fora feito por antigos expedicionários dos Mares Austrais, ao verificarem os ângulos celestes utilizando o astrolábio, podiam enfim comprovar as informações do mapa. Depois de planejarem a rota, o príncipe se recolhera à cabine do capitão para descansar. Tivera um terrível sonho, no qual via Netuno em um trono submarino, em profundezas imensuráveis do oceano, seus pés e suas mãos estavam acorrentados e ele afogava-se em um desespero cego e irracional.

No outro dia, os marinheiro encontravam-se agitados, eis então que viam a temida tempestade colérica que se precipitava vinda dos Mares Austrais; os marinheiros tremeram, homens que já haviam visto muitas coisas estranhas no decorrer de suas vidas sentiram suas pernas bambearem diante da incomparável força da natureza que se aproximava lentamente. Ventos negros levavam a embarcação em direção ao seu destino derradeiro, o casco se chocava contra as ondas contrárias, abrindo passagem entre torrentes incontroláveis. — Ali, meu senhor! A bombordo! — um marujo de vestes azuis surradas, que estava na proa, apontava para algo à frente; Alcrin não soube distinguir, pois estava na ponte de comando que ficava na popa, grandes ondas tornavam difícil ver o que estava a frente. Quando olhou com mais atenção, viu uma elevação que se destacava em meio às águas violentas, pois crescia cada vez mais e ficava mais alta; quando as águas escorreram por completo do objeto que se elevava, revelara, por fim, uma figura colossal que, para o horror de todos no convés, se tratava de uma terrível serpente marinha gigante. Os olhos do monstro eram verdes como uma esmeralda incandescente e, raivosos, miravam os marinheiros no barco; suas presas eram como milhares de espadas afiadas e retorcidas que se preparavam para rasgar a carne dos homens; as escamas da besta marinha eram da cor azul cobalto, que se destacava em meio ao céu cinza. O monstro ficou parado como um grande mastro em meio às águas tempestuosas, sem mover-se por nenhum momento.





       O convés eclodiu em correria e gritos, homens pegavam arpões e as redes para se protegerem, colocaram a artilharia nos canhões, alguns recorreram a espingardas e arcos. A besta marinha trouxe consigo raios poderosos e destruidores que caíam sobre todos que ali estavam; ela porém, não deixava sua posição estática e sádica, observando com prazer o terror que implantava no coração dos bravos servos do príncipe. O barco balançava de um lado a outro devido às ondas, o vento trazia aos homens o odor da serpente, era o cheiro da morte.





Quando o príncipe viu seus homens pulando nos oceanos para se perderem para sempre no desespero da loucura e do terror, sentiu o pesar tomar conta de seu coração, um arrependimento sufocou-lhe, lembrou-se da mãe e dos avisos que ela lhe suplicou antes que partisse. Viu seus bravos homens ali se afogando, aqueles que um dia foram os peixes do rei, que se suicidavam devido ao medo. Alcrin sempre sonhara com o mar, desejou desde sempre aquela tempestade, por anos sonhou aquele momento, mas agora tudo era um pesadelo terrível.

Uma gigantesca onda se elevou, era colossal em sua proeza prodigiosa, “será que vós tramastes contra mim, Netuno?”, pensara o príncipe. O “Sonho de Verão” ficara insignificante próximo daquela força da natureza que continuava se erguendo, parecendo por um instante que tocaria as nuvens do céu. Alcrin, em seus últimos pensamentos, viu a imagem de Grak, o herói lendário que um dia foi seu pai. A onda então caiu sobre o que restara da tripulação, afogando a todos nas águas da eternidade.  

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O GATO PRETO - Conto Clássico de Terror - Edgar Allan Poe

O RETRATO OVAL - Conto Clássico de Terror - Edgar Allan Poe

A MÃO DO MACACO - Conto Clássico de Terror - W. W. Jacobs

A MÁSCARA DA MORTE ESCARLATE - Conto de Terror - Edgar Allan Poe