A DANÇA INFERNAL - Conto Clássico de Terror - Jacques Constant
A DANÇA INFERNAL
Jacques Constant
(Séc. XX)
Tradução de autor anônimo do séc. XX.
Não quero dramatizar, nem tenho a preterição de explicar o inexplicável. Limito-me a relatar os fatos tais como eu e várias outras pessoas os vimos decorrendo.
No andar superior aquele que ocupávamos, morava um casal italiano: Luciano e Rosa Judimi. Um dia, ao almoço, minha mulher disse-me:
—Esses dois lá de cima discutiram furiosamente desde manhã até o meio-dia. Depois a mulher gritou por socorro. O marido estava-a esbordoando barbaramente.
Eu encontrava constantemente Luciano no corredor ou na escada. Rosto corado, barba quase sempre por fazer, olhar falso. Trabalhava em uma marcenaria na rua de Santo Antônio e ganhava largamente sua vida. Rosa, com seus cabelos de azeviche, seus olhos ardentes e seu rosto demasiadamente longo, devia ter sido bonita; mas, agora, era emocionante apenas pela tristeza estereotipada em suas feições.
A despeito de seu vestuário quase miserável, era evidente que ela pertencia a uma classe social superior à de seu marido, pois havia nela uma distinção natural e uma altivez inata que persistiam mesmo em seu abatimento. Mais de uma vez eu perguntara a mim mesmo como teria Luciano logrado seduzi-la; mas esses problemas sentimentais são sempre impenetráveis.
O pai de Rosa, o Sr. Ernesto Ramognino, era um belo ancião com grande barba de neve. Tinha o ar solene de uma divindade fluvial. Recordava com orgulho haver conhecido, quando era criança, Garibaldi e Blanqui, e ostentava opiniões revolucionárias que o tinham forçado a exilar-se.
Eu palestrava com ele algumas vezes num café onde costumava reunir-me a um grupo de antigos colegas da Escola de Belas Artes. Escultor de talento, o velho Ramognino modelava manequins de cera para alfaiates e modistas. Além disso, dedicava-se, por verdadeira paixão, ao estudo da eletricidade e também da magia. E lembro-me de ter ficado estupefato quando ele me explicou minuciosamente meu carácter, de acordo com as leis da quiromancia. Disse-me tão profundas e íntimas verdades que cheguei a corar diante dele.
O pobre homem tinha horror ao genro.
— É um ente bestial — dizia ele.
Contudo, enquanto Luciano se manteve cortês para com a esposa, os dois homens viveram em boas relações; mas isso mudou quando começaram essas rusgas tumultuosas que escandalizavam toda a vizinhança. A causa de tudo foi uma envernizadora de dezoito anos chamada Carlotta e que Luciano conheceu na marcenaria.
Apaixonou-se por ela e passou a ter ódio a Rosa. As discussões entre eles redobraram de violência e, uma noite, voltando para casa, encontrei todo o imóvel em revolução. Luciano matara a esposa com uma facada. A vítima fora para o necrotério e o assassino para a polícia.
Não sei por que a polícia levou um ano para julgar um caso tão banal e flagrante. Mas, perante o júri, o advogado “provou” peremptoriamente que Rosa tinha um gênio insuportável e levara o marido a um gesto de furor dos mais compreensíveis.
O assassino, ouvindo-o, desatou em soluços. Carlotta desmaiou no fim de seu comovente depoimento e, quando o pai da vítima veio bradar por vingança, foi considerado um energúmeno. Em suma, Luciano foi absolvido.
Quando o juiz proclamou a sentença, o velho Ernesto estava a meu lado e tremeu de indignação.
—Então é assim? — gaguejou ele! — Esse miserável vai ficar livre, vai recomeçai sua vida, enquanto minha pobre Rosa jaz num cemitério? Não, isso seria monstruoso! A justiça de sua terra absolveu-o, mas eu o condeno à morte.
—Cuidado! — murmurei inquieto. — O mesmo júri, que absolveu Luciano, pode muito bem condenar o vingador de Rosa.
—Não! Não me poderão fazer nada. Não pretendo matá-lo como o senhor pensa. Quero que sofra.
Seis meses após o escandaloso crime, Luciano desposou Carlotta e, afrontando o horror dos vizinhos, instalou a nova esposa no mesmo apartamento em que vivera com Rosa, no mesmo quarto em que a matara. Alegou apenas que não se mudava porque, atualmente, é muito difícil encontrar uma casa.
Eu, vendo passar o tempo sem que nada acontecesse, esqueci a ameaça do velho Ramognino a tal ponto que, quando, uma tarde, ele me encontrou no café, tive que fazer um esforço de memória para compreender.
— Está tudo pronto — disse-me ele. — O miserável vai pagar. Venha a meu atelier e eu lhe mostrarei uma coisa curiosa.
Segui-o e entrei com ele em uma vasta sala cheia de figuras de cera. Umas reproduziam os rostos de atrizes famosas ou notabilidades políticas. Outras eram apenas tipos de beleza. Em um canto, isolada, estava uma figura de homem de uma tal semelhança que não tive um segundo de hesitação. Era Luciano. Para completar a ilusão, Ernesto vestira o manequim com calças de veludo e um casaco de drap, que haviam pertencido a seu genro e envolvera-lhe o pescoço com um cachecol que eu vira muitas vezes com o assassino.
— Agora — disse o velho—, vamos começar a execução.
Apanhou sobre uma mesa próxima um pequeno aparelho elétrico, constituído por uma bobina de Rumkorff, e ligou-o com um aro de cobre à fronte do manequim. Feito isso, estabeleceu a corrente de força e disse-me:
—Amanhã irei à sua casa. Trate de ter notícias de Luciano.
Saí dali convencido de que o desgosto transtornara o cérebro do velho escultor e, como ele me inspirava piedade e simpatia, abstive-me de contar em minha casa esse último incidente. Por isso mesmo, tive a maior das surpresas quando, na manhã seguinte, minha mulher me comunicou que Luciano adoecera subitamente e mandara chamar um médico.
Ernesto veio fazer-me uma visita à noite. Não manifestou a menor emoção ao saber dessa brusca moléstia e retirou-se com um sorriso enigmático.
Pouco depois, Luciano começou a soltar gritos tão lancinantes que eram ouvidos na rua. E delirava, falava na “Mão Negra”, dizia que sua cabeça ia rebentar e que o fantasma de Rosa estava diante dele…
Estupefato, assombrado, corri à casa de Ernesto Ramognino. O manequim ali estava, com o aro de cobre em torno da fronte.
— Mas não é possível! — exclamei. — O senhor não pretende seriamente que é isto a causa a da moléstia de Luciano!
—Não acredita? —perguntou o velho escultor, sem sair de sua calma habitual. —Então vou alterar a operação.
Retirou o fio de cobre da cabeça da figura de cera e passou-o nas pernas do boneco, mantendo a outra extremidade ligada à infernal bateria.
—Volte para casa — concluiu. — Chegando lá, saberá que ele, agora, está dançando.
Quando cheguei, vi dois homens já idosos descendo de um automóvel. Eram dois notáveis especialistas convocados em conferência pelo médico assistente de Luciano. E uma vizinha do quarto andar explicou-me, muito exaltada, que o caso se tornara mais grave ainda. A dor de cabeça cessara subitamente, mas fora substituída por movimentos espasmódicos nas pernas, uma espécie de dança de São Guido1, que não cessava um só instante. O suor corria em bagas de todo o corpo do enfermo; a fadiga abatia-o profundamente e ele não cessava de dançar.
Na manhã seguinte, levaram-no para o hospital de Santa Ana.
—Isso é horrível! — disse eu a Ernesto horas depois. — Se, na verdade, é o senhor quem está causando esse sofrimento, tenha piedade.
—Como ele deve de minha filha. Mas descanse. Ele vai ter alguns dias de descanso, por que eu tenho que transportar meus raios para o hospital.
Com efeito, apenas entrou para o hospital, Luciano acalmou-se; mas, dias depois, recebeu uma visita de Ernesto Ramognino. Ao ver o sogro, o miserável teve uma crise indescritível de furor, pois pretendia que todos os seus males provinham dele.
Na tarde desse mesmo dia, a dança horrenda recomeçou. Desta vez, durou setenta e duas horas a fio, sem em uma interrupção, nem um instante de alívio; até que o desgraçado expirou, esgotado pela fadiga.
Tive conhecimento desse detalhe por um interno do hospital, mas tratei de interrogar também as enfermeiras e outros serviçais do estabelecimento.
Um servente, encarregado da limpeza, contou-me que, após a morte de Luciano, encontrara, em um canto de seu quarto, debaixo do leito, um objeto bizarro, cem o aspecto de um posto de telegrafia sem fio e o tamanho de uma noz.
Fonte: “Eu Sei Tudo”, edição de novembro de 1928.
Nota:
1Distúrbio neurológico caracterizado pela produção de movimentos involuntários, rápidos e descoordenados.
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