O QUARTO ASSOMBRADO - Conto Clássico Sobrenatrual - Max Pemberton

O QUARTO ASSOMBRADO

Max Pemberton

(1863 – 1950)

Tradução de autor anônimo do séc. XX


Uma das coisas que mais impressionam no destino é sua fantasia de reservar as coisas mais estranhas, os incidentes mais prodigiosos, justamente aqueles que menos pareciam aptos a enfrentá-los e compreendê-los. O caso de Leonard, o cabeleireiro de Maria Antonieta, timorato, estúpido, incapaz de compreender uma intriga política, incapaz de um ímpeto de mais sombria tragédia revolucionaria, é o mais conhecido, mas não é o único. Por assim dizer, diariamente, vemos homens de espírito aventureiro acorrentados a funções mesquinhas e burocráticas, ao passo que outros, de gênio tranquilo tímido, são arrastados pela voragem de aventuras prodigiosas. Comigo, o que aconteceu não foi assim grandioso e épico, mas apresentou também um singular contraste entre todas as tendências de meu espírito e os fatos incompreensíveis, quase alucinantes, em que fui inesperadamente personagem.

Desde pequeno, tive uma verdadeira incompreensão de tudo quanto não fosse positivamente real.

Mesmo na infância, as histórias de fadas e gênios pareciam-me contrassensos. Meu espírito positivo e frio preferia as narrações de viagens e caçadas, explorações, encontrando mais encanto nos fatos do que nas fantasias. Adolescente, embora sinceramente religioso, toda e qualquer superstição me parecia quase irritante e, depois, mais tarde, quando me fiz homem e adotei a profissão de escritor de contos e romances, nunca me deixei tentar pelos assuntos que não tossem prosaicamente materiais. Nem o fato de ser inglês de velha raça e viver constantemente no campo e nos castelos, onde há tantas lendas e histórias de fantasmas, esses assuntos conseguiram interessar-me.

Mas, quando já contava vinte e quatro anos e começava a ver o meu nome nas revistas de maior importância, fui, pela primeira vez, convidado a passar o Natal em Farringdon. Não era um castelo, era melhor do que isso: uma velha e boa casa inglesa, que teria encantado Dickens; um edifício construído há um século e meio, ainda com a preocupação do aspecto senhorial, mas já com bastante conforto para satisfazer homens de nosso tempo. Farringdon pertencia a John Beverlev, homem com cinquenta anos, mas que, a despeito dessa diferença de idade, estabelecera comigo relações de grande intimidade e parecia ter contraído por mim uma afeição sincera.

Eu também nutria por ele simpatia instintiva, inspirada talvez pela expressão de tristeza discreta, mas constante, que havia em toda a sua maneira de ser.

Aceitei, por isso, com prazer, seu convite e não dei atenção às palavras de um amigo, que morava ali perto e, encontrando-me na estação, disse-me:

— Vais a Farringdon? Parabéns! Dizem que há lá um quarto mal-assombrado. Excelente assunto para um conto.

Dei de ombros, com indiferença e, chegando à casa de Sir John Beverley, tinha quase esquecido o aviso. Mas, no mesmo dia, quando meu amigo me fez percorrer toda a casa, notei que ele passava diante de uma porta sem abri-la e evitava olhar para ela, ao mesmo tempo que seu rosto tomava uma expressão mais sombria.

Não sei se ele notou a observação que eu fazia; mas nada disse e abriu a porta fronteira, declarando-me que era ali o quarto que me estava reservado. Foi pelos demais hospedes que vim a saber que o quarto situado justamente diante do meu era o que passava por… digamos, por misterioso.

Em que consistia esse mistério? Ninguém sabia dizê-lo; mas todos quanto conheciam Sir John e sua maneira de viver diziam que ele se mantinha sempre melancólico e, embora hospitaleiro como um bom fidalgo inglês, nunca abria aquele quarto… Nem mesmo os empregados entravam ali nunca e, por isso, eles mesmo se tinham encarregado de espalhar a fama de que “havia qualquer coisa” naquele quarto…

Somente Sir John tinha a chave de sua porta, mas ninguém jamais o vira entrar ali.

Fiquei intrigado, confesso. Não porque atribuísse algum efeito sobrenatural àquele mistério; mas, sendo sinceramente amigo de Sir John, fiquei preocupado com aquela singularidade que, instintivamente, considerei ligada à constante e incurável tristeza do proprietário de Farringdon.

Passaram-se dois dias, em perfeita calma. Todos os hóspedes se divertiam alegremente porque Sir John sabia receber amigos e preparava passeios e caçadas igualmente encantadores. Eu, porém, não podia acompanhar todas essas diversões. Viera sobrecarregado de trabalho. Tinha de satisfazer à encomenda de um editor de livros para crianças e a de uma revista mensal; de modo que, quando não me podia furtar a alguma excursão durante o dia, era forçado a trabalhar em meu quarto até alta noite.

Na própria noite de Natal, após a ceia, quando me recolhi a meu quarto, ao invés de me deitar, sentei-me a escrever em uma pequena mesa colocada junto de meu leito. Trabalhei durante mais de meia hora com absoluta tranquilidade, encontrando um verdadeiro conforto no silêncio que envolvia toda a casa.

De súbito, porém, um rumor sutil fez-me estremecer. Dir-se-ia que alguém estava andando dentro de meu próprio quarto. Prestei ouvidos e compreendi que era o eco que produzia aquela ilusão. Os passos eram lá fora. Mas quem andaria pelo corredor àquela hora?

Num ímpeto impensado, dirigi-me à porta, abri-a e estaquei estupefato, vendo diante de mim Sir John. Meu amigo, vestido com um pijama de inverno, tinha na mão esquerda uma vela acesa. Sua mão direita estava pousada sobre a maçaneta do quarto assombrado.

Assim, imóvel, dir-se-ia que me esperava. Mas isso não era verdade, pois, ao ver-me, estremeceu e franziu o sobrolho, não podendo conter uma expressão de contrariedade.

Depois, como em consequência de uma rápida reflexão, sorriu e disse em voz baixa, ainda com ar hesitante:

—Trabalhando até esta hora?

—Que remédio! — respondi.

E, para atenuar minha involuntária indiscrição, apressei-me a acrescentar:

—Ouvi passos. Como não imaginei que fosse o senhor, a esta hora… Mas, com licença, ainda tenho que escrever muito…

— Não — disse meu amigo, detendo-me com um gesto grave.— Foi bom que você aparecesse. Não quero que pense também bobagens sobre este quarto… como os outros… Venha comigo.

E, abrindo a porta, fez-me sinal para que o acompanhasse. Obedeci e, entrando no quarto misterioso, fiquei estupefato. Havia ali apenas alguns brinquedos espalhados pelo chão e, em uma das paredes, um retrato de mulher.

Ora, eu nunca ouvira dizer que Sir John tivesse filhos nem que houvesse criança alguma naquele castelo. Porém ele, detendo-se diante do retrato, erguera a vela, como se me convidasse a admirá-lo. Ergui os olhos e vi que a tela representava uma mulher de vinte e três a vinte e cinco anos… Não era o que se chama um tipo de beleza, mas uma criatura de um encanto singularmente doce, onde os olhos sobressaíam deslumbrantes.

—Parece uma italiana — disse eu, quase sem dar por isso.

—Não… Francesa — replicou Sir John.

E como meu olhar o interrogasse sem mais conter a curiosidade, ele acrescentou

— Vi-a pela última vez há vinte anos. E não sei se é viva ou morta.

Baixou a vela, lançou um olhar aos brinquedos e retirou-se, sem mais uma palavra. No corredor, apertou-me a mão com energia singular e afastou-se.

Entrei para meu quarto presa de uma emoção indescritível. Que se passara? Quase nada. Mas esse quase nada fora tão estranho que me perturbara profundamente.

Como já disse, não deve haver em todo o mundo criatura mais do que eu avessa a qualquer ideia de superstição, inspiração sobrenatural, premonição ou coisa que o valha. Entretanto, naquele momento, fosse pela expressão de gravidade de Sir John Beverlev, fosse pela ideia de estarmos na noite mais sagrada do ano, fosse ainda pelo singular efeito que causara em meus nervos o olhar doce e doloroso do retrato, sentei-me diante de minha mesa com o cérebro agitado por uma atividade que não se poderia chamar inconsciência, mas era positivamente alheia à minha vontade

Quem era aquela mulher mais linda do que bela? Que teria havido entre ela e Sir John? Tendo estabelecido essas perguntas, eu não tinha a impressão de lhes procurar respostas. Não. Houve logo em mim uma absoluta certeza de que sabia responder-lhes.

Não sei como explicar esse fenômeno, que nunca ocorrera em mim, mas posso jurar-lhes que não hesitei um só instante; era como se eu me encontrasse diante de fatos que eu conhecia perfeitamente, de coisas que eu sabia, que tinha apenas esquecido; ou melhor, nas quais deixara de pensar e agora me voltavam à memória com a segurança e nitidez de incidentes a que eu assistira em seus menores detalhes…

Para dissipar essa impressão de uma intensidade, que chegava a me assustar, fui até uma janela e abri-a. Eu conhecia já bem o panorama que a larga vidraça moldurava. Todas as noites costumava ver: de um lado o rio, manso e tranquilo, de outro a floresta um pouco distante, após os campos de tênis e de golfe; diante de mim, o parque, encerrado pela capela.

A primeira coisa que impressionou meu olhar foi uma luz avermelhada, mas bastante nítida, desenhando uma vasta ogiva da capela, permitindo-me até distinguir os contornos de uma imagem de São Daniel.

Havia luz na capela e, só de imaginá-la iluminada, em homenagem à noite do Natal, eu vi. Não foi uma impressão vaga. Não. Foi a sensação de ver uma cena, que ali se passara. A moça do retrato ali estava vestida de noiva. Seu rosto moreno e pálido era realçado pela alvura do véu. A seu lado, Sir John erguia sua altiva estatura, com o uniforme do regimento em que servira durante a sua mocidade. Diante dele, um padre pronunciava palavras rápidas, fazendo os gestos do ritual. Os noivos ajoelharam-se e, quando o sacerdote lhes lançou a bênção, meu amigo curvou-se e beijou a face da noiva. Havia em seu gesto uma ternura infinita, porém ela recebeu esse beijo numa atitude de tristeza que não sabia disfarçar.

E toda uma tragédia íntima foi revelada a meus olhos. Um amor não partilhado; um casamento que, de um lado, era apenas de conveniência; um mal-entendido sentimental desses que o tempo só pode agravar.

Cheio de uma melancolia profunda, fechei a janela e deitei-me, esforçando-me por não pensar mais em tais coisas. Felizmente adormeci logo, porque aquelas visões me causavam uma sensação nova e quase intolerável. Eu não estava habituado a elucubrações metafísicas e ver-me, assim, envolvido em caso de verdadeira assombração chegava a me alarmar.

Nos cinco ou seis dias que ainda passei em Farringdon, poucas palavras troquei com Sir John. Por um acordo secreto, evitamos até falar sobre assuntos indiferentes. Nossa verdadeira situação era a seguinte. Não ousávamos falar sobre o assunto único que nos preocupava e, também, não queríamos falar em outras coisas, como se nos parecesse um crime perturbar a emoção em que ambos estávamos imersos. E, embora nada ele me tivesse confiado de seu segredo, era de se jurar que seu instinto o prevenira de que eu o adivinhara, porque evidentemente meu amigo encontrava prazer em ficar por muito tempo sentado junto de mim em silêncio.


*


O ano seguinte foi o da Grande Guerra. Fui surpreendido pelo início das hostilidades na Bélgica e tive que fugir diante da evasão, de envolta com os infelizes, que tudo abandonavam diante do bombardeio impiedoso do inimigo.

Uma tarde, já na França, pouco antes de chegar a Arras, eu caminhava no meio de uma longa e lamentável fileira de fugitivos das aldeias e pequenas cidades dos arredores, quando meu olhar foi atraído por uma velha vitória puxada por um cavalo extenuado. O veículo nada tinha de extraordinário; havia-os naquela triste caravana de todos os gêneros e feitios. Nem sei por que meu olhar se deteve nele; mas o que vi fez-me estremecer violentamente.

Iam nessa vitória duas senhoras e uma delas, a despeito do chapéu moderno e da diversidade da toilete, fez ressurgir em meu olhar o retrato que eu vira no quarto assombrado.

Minha surpresa foi tal que estaquei no meio da estrada, empurrado por uns e outros, e deixei-me distanciar pela vitória1, enquanto tentava refletir, reunir as ideias.

Depois, corri para alcançar as desconhecidas e, caminhando ao lado das rodas, observando bem as duas retirantes, compreendi. As duas fugitivas eram mãe e filha. A do retrato era a mais velha; mas a outra tinha com ela impressionadora semelhança. Notei que ambas pareciam acabrunhadas e o pouco que levavam no carro denunciava uma ruína completa.

Arrastado por um impulso invencível, aproximei-me da vitória e, tirando o chapéu murmurei:

—Minhas senhoras. Numa situação como esta, todos se devem auxílio. Sós, como estão, a sua situação deve ser das mais penosas no meio desse horror. Eu sou um amigo de Sir John Beverley. Se lhes puder ser útil de algum modo…

Houve, no olhar das duas pobres criaturas, emoção bem diversa. O da moça revelou surpresa e curiosidade ardente; o de sua mãe, qualquer coisa de mais grave, de mais profundo. Mas não estranhou minha súbita intervenção; ao contrário, aceitou minha oferta com uma presteza que denunciava sua angustia.

—Se é assim amigo de sir John Beverley, deve saber que sou sua esposa — disse ela com uma dignidade inconfundível. — Minha filha sabe disso. Doente como estou e receosa de desaparecer de um momento para outro, nesta tragédia, eu tudo lhe confiei. Ela sabe o motivo por que me separei de Sir John e não precisei de lhe justificar minha conduta, porque ela própria foi testemunha de minha vida honesta e pura.

Atalhei essas explicações e, desde esse momento, acompanhei-as como um amigo dedicado, tendo oportunidade de lhes poupar muitos incômodos e sofrimentos. As duas criaturas tinham ficado completamente arruinadas pela guerra e, sem minha presença, teriam até passado tome.

Eu já não disfarçava meus sentimentos. A lembrança, que eu guardara do retrato visto no quarto assombrado, era apenas uma impressão estética, uma admiração enlevada. O encontro de Mrs. Beverley, que ainda conservava vestígios de sua antiga beleza, e de sua filha, que era uma reprodução viva da tela, tinha me revelado meus próprios sentimentos. Eu amava miss Lucy Beverlev, amava-a, sem o saber, desde o dia que vira seus olhos no retrato de sua mãe.

Infelizmente, não pude realizar todos os sonhos que arquitetei nesses dias de angústia e pavor. Eu pensara em promover uma reconciliação entre os velhos esposos. Contei a Mrs. Beverley como Sir John vivia, o culto que mantinha por sua imagem, e ela, enternecida, concordou em acompanhar-me. Mas a moléstia de seu coração estava muito adiantada e as emoções da guerra acabaram por dominá-la.

Extinguiu-se subitamente uma tarde, num trem que ia de Amiens a Paris. Assim, foi somente miss Lucy que pude levar a Farringdon.

Eu prevenira meu amigo apenas na véspera, por uma carta longa, minuciosa e, por uma impressionadora coincidência, cheguei ao castelo na noite de Natal, justamente um ano após minha visita tão rápida e tão perturbadora ao quarto assombrado.

Sir John, profundamente abatido pela notícia da morte de sua esposa, parecia ter envelhecido dez anos. Recebeu a filha com uma emoção que me encheu de lágrimas; e quando, no dia seguinte, eu lhe relatei o idílio que tínhamos iniciado em Flandres, ele apertou-me a mão fortemente e murmurou:

— Ela já me disse alguma coisa, ontem mesmo. Casem-se. Quando o amor é recíproco, o casamento deve ser uma bênção do céu.


Fonte: "Eu Sei Tudo"/RJ, edição de janeiro de 1930.

Ilustração: William-Adolphe Bouguereau (1825 – 1905).


Nota:

1Carruagem para duas pessoas.

 

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