DESILUSÕES… - Narrativa Clássica de Mistério - Eximí Opfalas
DESILUSÕES…
Eximí Opfalas
(Pseudônimo de autor desconhecido do séc. XX)
Enviuvara Dona Eugênia, depois de cinquenta e três anos de vida matrimonial calma e feliz. Fora casada com o Dr. Bento, que morrera com as glórias de magistrado impoluto e pobre e de chefe de família exemplar.
Com parcos recursos, teve a viúva que vender muitos móveis antigos, alguns mesmo do escritório do finado, não obstante sua veneração por ele. Cada objeto que lhe pertencera era uma relíquia. Entre eles existia uma caixa de jacarandá em que o Dr. Bento guardava alguns papéis. Ao limpá-la, certo dia, Dona Eugênia notou que havia uma peça solta dentro da caixa, mas num fundo falso cuja abertura ela não decifrava. Chamando seu sobrinho João, que com ela morava, conseguiu o rapaz tirar dali uma chave de latão, com uma etiqueta na qual havia esta inscrição:
AROMEU
4 7 6 15 2 3
Experimentada a chave em todos móveis, em nenhum serviu; e, sem mais se preocupar com o caso, D. Eugênia guardou-a no mesmo lugar.
Dias depois, uma revista ilustrada, comemorando o quinto aniversário do passamento do ilustre magistrado, estampou uma fotografia do Dr. Bento, sentado no seu escritório e tendo por trás de si uma velha arca, móvel do qual Dona Eugênia se desfizera quando da redução do mobiliário. Ao contemplar a fotografia, a viúva sentiu um aperto no coração por ter vendido aquele móvel que tão de perto acompanhara seu finado marido; e resolveu readquiri-lo, custasse o que custasse.
Consultando um caderninho de notas, verificou que havia vendido a arca ao Dr. Almeida, homem de muitos recursos. Dona Eugênia foi, pois, procurá-lo no dia seguinte, levando a fotografia, a fim de documentar a razão por que desejava reaver o móvel. O Dr. Almeida, comovido, mostrou-se pronto a restituí-lo, mas com a condição de nada receber em troca. E, no dia seguinte, bem cedo, foi Dona Eugênia despertada pelos carregadores que lhe levavam a preciosa arca, a qual foi colocada em posição análoga à que se via na fotografia. Mais tarde, ao examiná-la, verificou Dona Eugênia que o recorte da fechadura parecia casar-se com a chave de latão guardada na caixa de papéis e que, experimentada, serviu perfeitamente na velha arca. Quando seu sobrinho chegou para jantar, Dona Eugênia contou-lhe jubilosa a descoberta que fizera.
O rapaz, curioso, foi examinar a arca: e notou grande espessura no fundo, que indicava algum compartimento secreto, o que foi confirmado pelo som cavo que se ouvia ao bater. Isto trouxe à lembrança do rapaz as letras e algarismos inscritos na etiqueta da chave de latão, ao mesmo tempo que ele verificava a existência de uma placa de madrepérola que ornava o fundo da arca e que conseguiu levantar com a unha, vendo com prazer ali gravadas as mesmas letras que se liam na etiqueta, mas sem indicação dos algarismos!
Conferindo o que via com o que estava na etiqueta, notou ele que sua tia tremia nervosamente. Mas, prosseguindo, foi calcando as letras da arca na ordem indicada pelos algarismos, constantes da etiqueta, o que formava a expressão MEU AMOR, ao mesmo tempo que o fundo falso se soltava, permitindo levantá-lo por uma alça, como João o fez!
Por baixo apareceram logo alguns maços de cartas, flores secas, madeixas de cabelos de várias cores e pequenas outras lembranças de amor!… Dona Eugênia, ferida por enorme decepção, e dizendo:
—Maldita a hora em que fui buscar este móvel!… — caiu prostrada, sem sentidos, fulminada pela desilusão.
Uma hora depois, o médico atestava sua morte em consequência de colapso cardíaco. Os filhos da desventurada viúva foram todos chamados para os funerais, consternados pelo que seu primo João contara.
Já ia alta a noite de quarto à defunta, quando Alda, sua filha mais moça, saiu do escritório para a sala, em pranto lancinante, e abraçou-se ao cadáver da mãe, exclamando:
— Mamãezinha! Você foi injusta com o bom papai!… Aqueles cabelos, aquelas cartas, aquelas flores, que examinamos agora, são da mamãe, são minhas, são dos manos todos!… Рараi está inocente!…
Fonte: "Careta"/RJ, edição de maio de 1938.
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