O MARINHEIRO TRANSFORMADO EM ASNO - Narrativa Clássica Fantástica - Heinrich Kramer e James Sprenger



O MARINHEIRO TRANSFORMADO EM ASNO
Heinrich Kramer (c. 1430 – 1505) e James Sprenger (1435 – 1495)

Salamis, no Reino de Chipre, é um porto marítimo. Certa feita, quando um navio era carregado com mercadorias adequadas para um barco que partia a países estrangeiros, e todos os tripulantes se abasteciam de provisões, um deles, um jovem forte, foi à casa de uma mulher que se encontrava nas cercanias da cidade, distante do litoral, e perguntou a ela se tinha ovos  para vender. A mulher, ao ver que era ele um jovem robusto, e um marinheiro mercante vindo de um distante país, considerou que, devido a isto, as pessoas da cidade abrigariam menos suspeitas se o pusesse a perder. Disse-lhe:

— Espera um pouco que te conseguirei o que queres.

Quando entrou, fechou a porta e deixou o jovem esperando. Do lado de fora, este lhe gritou pedindo que se apressasse, pois não queria perder o barco.

Então a mulher trouxe alguns ovos e deu ao jovem, e lhe disse que voltasse depressa para não perder o barco, de molde que o marinheiro correu ao navio, que se achava ancorado junto à costa. Como os seus companheiros ainda não haviam regressado, ele, antes de subir a bordo, resolveu comer ali mesmo os ovos para fortalecer-se.

Todavia, uma hora mais tarde, ficou mudo, como se não conhecesse o poder da fala. E, como disse mais tarde, perguntou-se o que lhe havia ocorrido, mas não encontrou resposta. Porém, quando quis subir a bordo, foi expulso a paus pelos companheiros que estavam em terra e que exclamaram:

— Vejam o que esse asno está fazendo! Maldito seja, animal. Não subirás a bordo!

O jovem, assim expulso, entendeu, pelas palavras que ouvira, que os outros marinheiros pensavam que ele era um asno e, refletindo, começou a suspeitar que havia sido enfeitiçado pela mulher, principalmente porque não podia pronunciar uma palavra sequer, embora entendesse tudo o que diziam.

Quando tratou de subir a bordo novamente, foi afugentado com golpes mais duros. A amargura de seu coração o obrigou a ficar e a ver como o barco se afastava.

E, assim, enquanto vagava de um lado para o outro, como todos acreditavam que ele era um jumento, tratavam-no como tal.  Finalmente, como que forçado, voltou à casa da mulher. E, para manter-se vivo, serviu à mulher, ao nuto desta, durante três anos, nos quais não trabalhou, embora levasse à casa elementos tão necessários como lenha e trigo, e, como um animal de carga,  carregava o que era preciso transportar.

O único consolo que lhe restara era o de que, embora todos os demais o confundissem com um asno, as próprias bruxas, sozinhas ou em grupo, que frequentavam a casa, o reconheciam como homem. Assim, podia falar e comportar-se com elas como o faria um homem.

Depois de passar três anos desta forma, no quarto ano aconteceu que o jovem foi, certa manhã, à cidade, seguido de longe pela mulher. Passando à frente de uma igreja em que se celebrava a Santa Missa, ouviu o tocar da sineta no momento da elevação da Hóstia (pois nesse reino a missa é celebrada de acordo com o rito latino, e não com o grego). Voltou-se para a igreja. Mas, como não se atrevia a entrar, por medo de ser expulso a pancadas, ajoelhou-se do lado de fora, dobrando os joelhos das patas traseiras, e levantou as dianteiras, ou seja, com as mãos unidas sobre sua cabeça de asno. E, por assim dizer, contemplou a elevação do Sacramento.

Quando alguns mercadores genoveses viram este prodígio, seguiram, assombrados, o asno, discutindo entre si essa maravilha. Foi então que a mulher chegou e espancou o asno. E, dado que esse tipo de bruxaria é melhor conhecido naquelas terras, por instância dos mercadores o asno e a bruxa foram levados diante do juiz. Interrogada e torturada, ela confessou o crime e prometeu devolver a verdadeira forma ao jovem, desde que a permitissem voltar para casa. Finalmente, foi mandada embora e retornou a seu lar, onde o jovem recuperou a forma anterior. Posteriormente, ela foi novamente presa. Pagou a dívida que os seus crimes mereciam.  E o jovem retornou alegremente para o seu país natal.


Tradução indireta e adaptação: Paulo Soriano.
Nota do editor: A presente narrativa é um episódio do “Malleus Maleficarum”, também conhecido como “Martelo das Bruxas”.




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