O MELHOR PRESENTE - Conto Clássico de Terror - Clemente Palma


O MELHOR PRESENTE
Clemente Palma 
(1872 - 1946)

No fundo da choça humilde estava a cama tosca da camponesa enferma... Sua pálida cabeça se perdia entre os travesseiros e, amorosa, com a santa ternura de todas as fêmeas por seus filhotes, amamentava o recém-nascido, belo e robusto como um São João.

O pai se vestia com as roupas domingueiras. Sua mulher o fitava, fixando nele seus olhos de lassa expressão, e depois beijava, sorrindo, o pequerrucho. Nevava. A noite era escura, apesar da fosforescência cinzenta da geada. Todavia, o bom lavrador se aprontava cuidadosamente, como um jovem pretendente que se prepara para o encontro com uma amada aristocrática. E ajeitava-se, porque ia procurar a Rainha das Fadas, que se oferecera para ser a madrinha de seu filho.

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Cinco meses antes, numa tarde em que foi, como de costume, ao bosque cortar azinheiras, salvou uma cerva perseguida de perto por um lobo: com destreza, lançou o seu machado à cabeça da fera e a matou. Grande foi o seu assombro ao ver que a cerva se converteu em uma belíssima dama, ricamente vestida, que aproximou e lhe disse:

— Eu te agradeço, lenhador, pelo serviço que me prestaste. Sou a Rainha das Fadas. Quando nascer o teu filho, dele eu serei a madrinha. E eu e as minhas companheiras lhe daremos dons. Toma este galhinho de sabugueiro e, quando nascer o menino, vem à noite, neste mesmo bosque, e bate com o galho em cada árvore. De cada uma sairá uma Fada. A árvore mais antiga e robusta tocarás para chamar-me. Adeus.

O lenhador contou à sua mulher o que havia acontecido. Passaram-se os cinco meses e, numa manhã, nasceu-lhe o filho.


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Regressou do bosque contentíssimo: havia tocado uma multidão de azinheiras e delas haviam saído inúmeras fadas.  Só que tocou, equivocadamente, um pinheiro. Dele saiu uma Fada de negro, mas muito bela e ricamente vestida.

Mal cabiam na cabana. Prestaram obsequiosa atenção à enferma e se agruparam em torno de seu leito. A Fada de negro permaneceu imóvel num canto.

— Eu te farei amado pelas mulheres! — disse a Rainha das Fadas e deu um beijo na fronte do menino.

— Eu te darei Riquezas.

— Farei de ti Rei.

— Eu te darei a Força.

— Eu, a Coragem.

Todas presenteavam o menino com um dom e o beijavam. Só a Fada de Negro se manteve imóvel em seu canto.

— Senhora — disse-lhe o lenhador, suplicante —, não quereis favorecer o meu filho?

— Veja bem, bom homem — respondeu com voz lúgubre; seus olhos brilhavam estranhamente —, eu posso dar a teu filho a Sorte, a Felicidade, dons com os quais as minhas colegas não o presentearam. Posso impedir que ele sofra as mordeduras da Dor. Mas posso fazer-lhe o obséquio mais valioso para um homem. Queres que eu o faça? Tu o exiges?

— Oh, senhora, eu vos peço de joelhos!

— Bem, eu vou satisfazer ao teu pedido — disse, sorrindo, a Fada de Negro, acercando-se do menino.

As demais fadas abriram-lhe passo. Então ela tomou para si o infante que, ao sentir o frio de suas mãos, chorou. Beijou-o na fronte e depois... depois o estrangulou.

Havia dado ao menino o melhor presente: a morte.

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