ANVERSO - Conto de Horror - Emerson Pimenta


ANVERSO
Emerson Pimenta

Ninguém precisou avisar ao Simão Bacamarte que ele era louco. Ninguém disse a Bento Santiago que ele era um corno. Também não me avisaram que eu era um assassino.

                Moro sozinho em um edifício no subúrbio recatado de uma cidade interiorana de Minas Gerais. Os poucos barulhos que daqui ouço são produzidos pelos mudos gritos em minha memória. Torturam-me como se o meu respirar já fosse um grave pecado. E eu sequer posso gritar de volta. Falta-me força. Sou velho. Solitário. Estúpido, como qualquer humano.

E culpado.

                Houve um tempo em que fui jovem. Psiquiatra de grande sobrenome e arrogância. Usava um cavanhaque, chapéu de massa, paletós exclusivos e bengala sem mesmo necessitar. Adentrei com o pé direito quando as grades do Manicômio de Serra Clara se abriram para mim. Fui indicado pelo governador que devia favores ao senhor meu avô. Ele aceitou sem relutar minha indicação. Ninguém queria saber daquele grande mausoléu de podridão. E sequer tiveram a maldade de procurar saber por que um jovem médico, vistoso, rico, recém-formado, iria querer trabalhar ali. Em suma verdade, àquele tempo, nem eu mesmo saberia explicar. Mas quem por mim procurasse encontrar-me-ia sentado detrás de uma larga mesa de madeira nobre, com pilhas de livros que eu não lia, castiçais de prata, porta-retratos com fotos falsas, e ao fundo um grosso crucifixo dentro de um círculo que foi a única coisa que eu permite que ficasse quando me apoderei da sala. Eu era, a partir dali, Doutor Joaquim De Almeida Silvério, ou Dom Silvério, como preferiam. 

                Durante o dia eu usava o jaleco branco, gel suficiente para deixar os cabelos os cabelos assentados, e caminhava por entre os internos exalando simpatia e atenção. Gostava de ficar na sala de convivência jogando xadrez com um velho que dizia que via anjos, e também gostava de ouvir os murmúrios de uma cega que se dizia profeta. Gente que para mim não passava de diversão. Todavia, dentre todos, existia uma especial. Linda, de pele alva, cabelos castanhos e olhos verdes incandescentes. Andava sempre sozinha, pelos cantos, nunca conversava com ninguém. Perguntei aos poucos funcionários seu nome, mas nem eles me disseram. Sequer tinham a informação de onde a ficha dela estaria. O que aumentou ainda mais minha curiosidade. Aquela mulher não parecia pertencer àquele lugar. Não tinha cara de louca. Tinha o olhar altivo, postura de rainha, ares de nobreza. Talvez fosse esta sua loucura.

                Era quando a noite chegava que eu me transformava. Sim, uma bizarra releitura de o médico e o monstro. Quando o sol sumia a escuridão da noite cobria minha pele e eriçava todos os meus pelos como se fosse um veneno. Eu sentia minhas pupilas dilatarem-se e enfiava os dedos entre os cabelos. Rangia os dentes e vestia a combinação de roupas mais escura que encontrava. E pelos corredores tombados pela penumbra eu caminhava, de bengala na mão, em busca de diversão. Escolhia o interno da vez de forma aleatória, e o levava para o calabouço que eu mesmo mandei montar. Os funcionários do manicômio eram meus comparsas. E não somente por eu ser seu superior, mas por serem, assim como eu, tão sádicos. Eu não permitia que eles assistissem às experiências, mas eles sabiam o que acontecia, e quando iam limpar minha sujeita ficavam perguntado detalhes. Se a vítima chorou, implorou, ou aguentou muito. A maioria dos loucos não implorava, ou chorava. Duvido muito que sequer sabiam o que estava acontecendo. Mas eles gritavam, gritavam muito.
                Eu adorava inovar em meus ‘estudos’. Gostava de arrancar membros e costurar em outros lugares. Ou trocar entre eles. Gostava de brincar com fogo. E também com água. Submersão em água congelante, e em seguida escaldante. O vapor que subia da carne fumegante me abria o apetite. Por falar em apetite, certa vez pedi que dobrassem a refeição de uma interna que já era obesa. A mulher duplicou de tamanho. E quando fui estudá-la, tentei lhe retirar o vício pela comida forçando-a a ingerir o máximo de macarrão e mingau que pudesse. Resultado: engasgou-se com seu próprio vômito.

                E era assim que levava minha vida no manicômio dos gritos, como fora apelidado o local. As autoridades riam da fama do local, e usavam isso para amedrontar a população. Mas existia uma coisa que me intrigava. A Rainha, como apelidei a interna sem nome. A adoração que criei por ela não tardou para se tornar uma obsessão. E a forma como ela me intimidava tornava isso ainda pior. Durante o dia eu não conseguia me aproximar dela. Durante a noite nunca a encontrava. Isso, além de ferir cruelmente meu ego, aumentava ainda mais minha necessidade por gritos, por sangue. Graças a isso, o número de internos foi diminuindo drasticamente. Em certa noite, conversando com um copo de gin amargo, e ter derrubado todos os arquivos em busca da ficha dela, saí pelos corredores com um candelabro gritando para os guardas levarem todos os internos para a sala de convivência.

                Olhando-me com aqueles olhos que pareciam lúcidos à luz das velas os internos não passavam de cem. Eu havia devorado o resto. Alguns estavam encolhidos pelo frio da madrugada. Outros mostravam o peito aberto ao abalroamento. Mas eles não me davam medo, só ela consiga me fazer desviar os olhos. Na primeira vez que perguntei onde ela estava, recebi meu eco como resposta. Mandei que os guardas trancassem as portas e me entregassem a chave. Só sairíamos dali até eu a encontrar, avisei-os, e isso poderia durar séculos. Perguntei outra vez. Outra. Cheguei a perguntar um por um, e quando me aproximei da velha cega ela sussurrou: “Ela nos avisou sobre isso... Ela irá nos salvar.” Empurrei a velha no meio dos demais, eles a apararam. Resolvi tomar medidas drásticas. Peguei o candelabro sobre a mesa e me aproximei de uma das cortinas. Ateei fogo, cego de ódio. Estava sendo feito de tolo por verdadeiros tolos. Alguns gritaram e se escolheram no canto, os guardas se juntaram a eles. Os gritos começaram. Aquilo me alegrou. Caminhei até a outra cortina e fiz o mesmo. Gargalhei, perguntei aonde ela estava, quando iria salvá-los. As chamas tomaram proporções imensas. Os gritos se tornaram tosse. Um dos guardas veio em minha direção em burcas da chave, mas o derrubei cortando-lhe a garganta com o punhal que sempre me acompanhava. A fumaça começou a me incomodar, mas mesmo assim ainda me divertia com o sofrimento daqueles vermes.

                Foi quando um fio de razão pareceu me acordar. O fogo já havia consumido praticamente toda a sala. Estava quente, respirar doía. Haviam internos caídos no chão, e o cheiro da carne queimada me embrulhou o estômago. Por um minuto pude perceber, pelo vidro enegrecido da janela, que o dia clareava. Eu estava me transformando novamente. Resolvi procurar as chaves nos bolsos quando de repente houve um forte flash de luz branca. Todos os loucos e os guardas, inclusive o que matei, estavam de pé na minha frente. Dei um passo para trás e outro flash me cegou. Estavam novamente caídos. Estou ficando louco, pensei. Finalmente achei a chave e driblava os obstáculos para sair daquele inferno quando outro flash. Abri os olhos e me vi de joelhos ainda na sala em chamas. Todos que ali prendi estavam de pé na minha frente, queimados, deformados, fedendo a morte. E no meio deles, ela. A rainha. Linda, em um vestido azul claríssimo, tranquila como se estivesse em um campo levado de brisas. Olhava-me com seus lindos olhos verdes. Foi quando me perdi neles. Vi suas enormes asas se abrirem e novamente um clarão me tomou a consciência.

                Acordei, inacreditavelmente, vivo na manhã seguinte em meio aos escombros da tragédia. As autoridades chegaram. Internaram-me e quando finalmente estava pronto para dar meu depoimento recebi um jornal no leito do hospital. A manchete era enorme com letras cheias de voltas: Dom Silvério Salva loucos de incêndio ao evacuar manicômio em início de incêndio. Fiquei perplexo com aquilo. Nenhum corpo foi encontrado em meio aos destroços. A verdade ficou entalada em minha garganta até agora, que compartilho com vocês.

            Ganhei monumento em praça pública, e vários prêmios e homenagens. Recebi todas como se segurasse uma coroa de espinhos. Foi fácil me esquivar das perguntas sobre para onde os loucos e os dois guardas tinha ido. Difícil foi a trajetória que segui a partir dali. Às noites não mais me transformei. Nem era mais médico, nem mais monstro. Era um maldito culpado, que só agora enxerga o real motivo de ter sido poupado naquela noite. Para pagar, para ouvir eternamente o eco dos gritos que eu provoquei.










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