A MULHER QUE ENGANOU O DIABO - Conto Tradicional Europeu


A MULHER QUE ENGANOU O DIABO
Conto tradicional europeu

Um pobre trabalhador rural, que ganhava uma miséria por dia lavrado em terra alheia, tinha um vizinho que era o diabo, mas disso ele não sabia.

Certo dia, o vizinho chegou ao roceiro e  disse-lhe:

— Você é tão pobre! Mas eu tenho um grande campo onde você pode trabalhar para mim no regime de meação. Faremos um pacto  com a condição de  que o que crescer para debaixo da terra será meu,  e o que crescer para cima da  terra será seu.

O roceiro, aceitando a proposta, foi trabalhar o campo e semeou-o de trigo.

Do campo semeado nasceu muito trigo, que ele colheu no seu tempo, e disse ao vizinho que fosse buscar o que havia crescido para debaixo da terra. O diabo só achou as raízes.

 Vendo que tinha sido enganado pelo vizinho, disse-lhe o demônio:

— O nosso acordo, como está,  não me serve mais. Se  você  quiser continuar a lavrar a minha terra, há de aceitar um novo pacto às avessas: o que crescer para cima da terra será meu e o que crescer para baixo será seu.

O lavrador aceitou a condição e semeou o campo todo de batatas. A safra vingou maravilhosamente. Disse, então, ao vizinho  que fosse apanhar o que tinha crescido para cima da terra, que era apenas a  rama do tubérculo. Quanto a ele, tirou muitos e muitos alqueires de batatas, com que fez muito dinheiro. O diabo viu que perdia sempre no jogo e quis-se vingar do lavrador:

— Ah, velhaco! Você me enganou! Mas eu é que não deixo ficar assim. Nós vamos brigar cara a cara. E a luta há de ser às unhadas, que ao menos desta vez estarei em vantagem.

O lavrador bem sabia que o diabo tinha umas garras temíveis, mas, como não podia escolher as armas, já dava por certa a vitória do rival.

Então foi ter com a sua  mulher, a quem disse não saber como se veria livre daquela enrascada.

Então lhe disse a mulher, que sabia ser o vizinho realmente o diabo:

— Deixe-o vir para cá, que eu dou um jeito nele. No dia em que ele vier procurá-lo para a contenda, esconda-se, que eu é que vou falar com ele.

Chegado o dia, vem o diabo muito furioso e bate à porta do vizinho:

— Aqui estou para a disputa a unhadas.

Vem a mulher e diz:

— Entre aqui, vizinho, e espere pelo meu homem, que foi amolar as unhas. Olhe que ele sempre me dá cada unhada! Aqui está, entre as minhas pernas, a primeira que ele me deu…


Dizendo isto, levantou a saia até o queixo, e claramente mostrou aquilo, cujo nome todos sabem, ao diabo.

O diabo, assustado, vendo a enorme fenda em toda a sua dimensão, teve dela um medo horrível, e  botou a fugir com o receio de ficar repleto de arranhaduras como aquela. E nunca mais lá voltou.


Texto adaptado por Paulo Soriano a partir de “O Diabo de Papefiguière” ("Le Diable de Papefiguière"), de La Fontaine; “Como o Diabo Foi Enganado por uma Velha Mulher de Papefiguière” (Comment le Diable fut trompé par une Vieille de Papefiguière), de Rebelais, e, sobretudo, de “O Compadre Diabo”, de Teófilo Braga.

Ilustração de Charles Eisen  (1720- 1778).


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Um comentário:

  1. Ahahah ! Mistura terror, erótico e humor...conto no estilo Terrorótico !Muito bom !

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