O ANEL DE TOTH - Conto Clássico de Terror - Arthur Conan Doyle


O ANEL DE TOTH
Arthur Conan Doyle
(1859 – 1930)


O professor John Vansittart Smith, membro da Real Sociedade Britânica, já era notável por seus estudos no domínio da zoologia, da botânica e da química quando se dedicou mais especialmente às ciências orientais, chamando logo a atenção dos especialistas em uma Memória sobre as inscrições hieroglíficas de El Kab.

E apaixonou-se a tal ponto por esses assuntos que desposou uma jovem egiptóloga, autora de vários volumes sobre a 4ª. Dinastia, e começou a reunir dados para um livro em que pretendia resumir os descobrimentos de Lepsius[1] e o gênio de Champollion[2].

Esse trabalho obrigou-o a ir várias vezes a Paris visitar o museu do Louvre, onde passava horas inteiras curvado sobre a vitrine dos papiros. Ora, o ilustre John Vansittart Smith não era um tipo de beleza e bem o sabia. Mas, apesar disso, teve uma impressão desagradável ouvindo atrás de si uma voz exclamar, em inglês:

— Que tipo esquisito!

O sábio mordeu os lábios e curvou-se ainda mais.

— É verdade — disse outra voz. — Tem uma cabeça disforme.

— E tem um não sei quê de egípcio — continuou a primeira voz. — Dir-se-ia que, de tanto contemplar múmias, está se mumificando.

Exasperado, o sábio voltou-se e, com grande surpresa, viu que os interlocutores eram dois ingleses. De costas para ele, observavam um dos guardas da sala, que a certa distância limpava uma barra de metal.

Instintivamente, o sábio observou também o guarda e teve um sobressalto. Na verdade, aquele homem tinha uma face impressionante, de uma semelhança espantosa com as múmias augustas dos antigos faraós. Era uma reprodução exata das estátuas que enchiam a sala: até pela largura dos ombros e estreiteza dos quadris, aquele homem tinha os caracteres de um egípcio.

O professor Smith aproximou-se com a intenção de lhe dirigir a palavra. Mas, observando mais de perto o estranho homem, sentiu-se sem coragem para interpelá-lo. Tamanha semelhança chegava a ser sobrenatural. A pele da fronte e das faces do guarda era lisa como um pergaminho, parecia não ter poros.

— Onde está a coleção de Mênfis? — disse afinal o sábio, para não ficar em silêncio diante dele.

— Ali — respondeu o guarda, sem erguer a cabeça.

— O senhor é egípcio, não é verdade? — perguntou ainda o professor Smith.

O homem ergueu a cabeça e fitou seu interlocutor com estranhos olhos negros, vidrados, mas que brilhavam com singular fulgor. E o mais impressionante é que havia nesses olhos uma expressão de cólera e ódio.

— Não, senhor. Eu sou francês.

E continuou o seu trabalho. O sábio tentou voltar ao seu trabalho, mas seu espírito estava absorvido por aquela espantosa visão. E, fosse pela fadiga acumulada de dias anteriores, fosse por uma espécie de fascinação inconsciente, curvou pouco a pouco a cabeça sobre o peito e adormeceu tão profundamente que não ouviu a campainha que anunciava o fechamento do Museu e ali ficou.

***

Os ruídos noturnos foram cessando pouco a pouco. O sino da igreja de Notre-Dame bateu meia noite e o sábio continuava dormindo. Somente a uma hora da madrugada recobrou a consciência e sua primeira impressão foi a de que se achava em seu quarto. Mas, em pouco, a luz da lua, entrando pela claraboia, mostrou-lhe as fileiras de múmias e sarcófagos que o rodeavam. Que horror! Os guardas não o tinham visto oculto naquele recanto, por trás de uma espessa coluna, e agora tinha que passar a noite ali, sujeito a explicações desagradáveis no dia seguinte.

O sr. Smith não era medroso, mas isso lhe causou uma impressão desagradável. Em todo o caso, como não havia outro remédio, o que de melhor tinha a fazer era acomodar-se do melhor modo e continuar a dormir.

Infelizmente, nem isso lhe era possível, pois, pouco depois, viu a luz amarelada de uma lanterna que se aproximava. Ficou imóvel, a esperar, e uma nova observação veio aumentar seu espanto. Apesar do silêncio absoluto da sala, ele não ouvia os passos da pessoa que trazia a lanterna.

Mas, pouco depois, viu um rosto; um rosto que, alcançado pelo pequeno resplendor da lanterna, parecia suspenso no ar; um rosto de palidez cadavérica e pele com tons metálicos; o rosto do estranho guarda, que tanto lhe chamara atenção à tarde.

O primeiro movimento de Smith foi adiantar-se e relatar-lhe o ocorrido, mas um instinto secreto deteve-o, imóvel, no recanto que o ocultava.

O homem chegou junto de uma das grandes vitrines e, tirando do bolso uma chave, abriu-a. Tirou dela uma múmia, que deitou no soalho com grandes cuidados, colocou ao lado a lanterna e, sentando-se no chão, com as pernas cruzadas à moda oriental, começou a desenrolar as longas tiras de linho que envolviam a múmia. Um forte olor de arômatas exalou-se pela sala e, de súbito, o professor Smith teve um gesto de imensa surpresa.

Libertada das bandagens funerárias, uma basta cabeleira negra desprendia-se e caía entre as mãos do guarda. A segunda bandagem retirada descobriu um rosto moreno, mas rosado e tranquilo, com olhos fulgurantes e boca de desenho perfeito e soberbo.

Somente uma mancha escura na fronte perturbava a beleza daquela mulher morta há seis mil anos.

O guarda fitava-a com enlevo. Depois, enlaçando a múmia nos braços, murmurou com voz trêmula de emoção:

— Amada... minha amada!

Mas nesse momento seu olhar encontrou o rosto do professor que, não podendo conter a curiosidade, adiantara-se um pouco.

Ergueu-se com ímpeto furioso e aproximou-se.

— Desculpe-me — balbuciou o professor. — Eu adormeci à tarde estudando aqui e fiquei...

O guarda tirou do cinto um afiado punhal e perguntou:

— Então o senhor viu o que eu estava fazendo?

— Sim...

— Se eu o tivesse notado há dez minutos, tê-lo-ia matado como um cão. Mas, agora, prefiro que veja tudo até o fim. Mas não se mova, não intervenha... Haja o que houver. Mas diga-me: quem é o senhor?

— Eu... eu sou o professor John Vansittart Smith.


— Ah... Foi o senhor quem publicou recentemente um livro sobre El Kab?... Imbecil!... E pensou encontrar o segredo de nossa civilização nas inscrições dos monumentos?... Louco!... Esse segredo está em nossa filosofia hermética e em nossa ciência mística.

— Mas... mas... — balbuciou o professor, atônito — o senhor disse "nossa civilização".

Mas o guarda já não lhe dava atenção. Volvendo os olhos para a múmia, soltara um gemido profundo. O sábio voltou-se também e quedou-se gelado de espanto.
Exposto à ação do ar, o rosto da múmia desfigurara-se rapidamente. A pele secara, os olhos tinham-se afundado nas órbitas e os lábios, encolhendo-se, descobriram os dentes amarelados. Não fosse a mancha escura na fronte e o Sr. Smith não acreditaria que era aquele o mesmo rosto que ele vira, pouco antes, com uma tão soberana beleza.

O guarda gemeu ainda, com expressão de mágoa infinita, mas fez um esforço e disse com exaltação:

— Não faz mal. Agora, pouco importa seu corpo inerte, pois que posso afinal ir reunir-me a seu espírito.

E, como o professor o fitava, convencido de que estava diante de um louco, ele acrescentou:

— Chegou o momento que eu tanto esperei. Afinal... afinal!... Mas antes preciso que eu o faça sair daqui. Venha... venha!

Apanhou a lanterna e precedeu o sábio através das extensas salas do museu. Desceram uma escada e chegaram a uma porta que dava para a rua. Mas, em vez de guiá-lo por aí, o guarda empurrou-o para uma porta baixa, que se abria de um lado do corredor.

O ilustre egiptólogo hesitou, mas a curiosidade foi mais forte do que o medo e ele seguiu o estranho homem.

Ali era uma espécie de portaria com uma mesa, uma cadeira e uma cama de ferro. O guarda indicou a cadeira ao sábio, sentou-se à beira da cama e começou:

— Estava escrito que não voltaria ao descanso eterno sem fazer a um mortal a narração de meus sofrimentos, como um aviso aos temerários que tentam opor-se às leis da Natureza. Sou egípcio e nasci, sob o reinado de Tutmósis, no ano 1600[3] antes daquele que chamam Cristo. Chamo-me Senra. Meu pai era chefe dos sacerdotes de Cairis, no templo magnífico de Abaris. Antes de completar 17 anos, já eu possuía os conhecimentos das artes místicas de que fala a Bíblia dos homens de hoje. Depois, continuei a estudar os segredos da Natureza e alcancei na ciência pináculos que nenhum outro homem logrou conhecer. Porém, o que mais me atraía era o estudo do princípio vital, buscando um meio de imunizar as criaturas contra todas as enfermidades e, talvez, contra a morte. Acabei por descobrir uma substância que, injetada no sangue, dava ao corpo energia para resistir ao tempo, às enfermidades e aos acidentes. Uma substância que podia manter suas prodigiosas faculdades, senão eternamente, pelo menos durante milhares de anos. Note que não se tratava de coisa sobrenatural ou misteriosa. Não. Tratava-se de uma simples operação de química. Com louca alegria, inoculei em minhas veias esse líquido. Depois, busquei um companheiro para minha existência eterna e escolhi um jovem sacerdote de Thoth, chamado Parmés, que havia conquistado minha simpatia por seu elevado caráter e por sua inteligência. Fiz-lhe, também, a preciosa injeção e, desde aquele, dia abandonei os estudos para viver percorrendo os campos e cidades, para contemplar com orgulho homens e monumentos destinados à morte, enquanto eu continuaria a viver indefinidamente.

“Um dia, passeando assim em companhia de Parmés, encontrei a filha de um oficial do rei, uma moça chamada Athma, famosa por sua beleza, e o amor feriu meu coração como um raio. Jurei por Toth[4] que aquela mulher seria minha e, no mesmo instante, vi Parmés afastar-se de mim com um olhar de ódio. Soube, depois, que ele já havia declarado seu amor a Athma. Ela, porém, me preferiu e aceitou-me como seu noivo.

“Foi nessa época que uma horrível epidemia de peste branca fez terríveis estragos entre a população. Então, aterrorizado, relatei a Athma o segredo que havia descoberto e quis fazer-lhe a inoculação do líquido de vida eterna. Ela, porém, recusou, entendendo que era uma ofensa aos deuses perturbar as regras da morte. Insisti. Ela, todavia, pediu-me uma noite para refletir.

“No dia seguinte, apenas terminei minhas orações no templo, corri à sua casa. Encontrei-a já gravemente enferma e tendo na fronte a mancha vermelha, que era o sinal da peste. E mal pousou os olhos em mim, morreu.

“Quanto sofri! Tudo quanto era possível, tentei para morrer. Mas era em vão. O líquido precioso tornara-me imortal.


“Um dia, quando eu chorava mergulhado em profundo desespero, Parmés, sorrindo, com uma expressão de ódio infernal, disse-me:

‘— Nem um oceano de lágrimas será capaz de vencer o sortilégio que tu mesmo criaste. Hão de passar muitos séculos antes que te possas reunir a ela. E eu...’

‘— Tu estás, como eu, condenado a viver.’

‘— Enganas-te — exclamou ele, com uma expressão de alegria feroz. — Eu descobri um princípio tão forte que anula o poder do líquido que inoculaste em minhas veias. Dentro de uma hora, estarei morto.’

“E retirou-se. No dia seguinte, foi encontrado já frio diante do altar.

“Mediante um inquérito paciente e minucioso, consegui descobrir que Parmés ocultara o formidável veneno de sua invenção no anel do ídolo de Thoth. Eu conhecia essa joia. Era um grosso anel de platina com uma pedra de cristal oco. Mas o anel desaparecera do dedo do ídolo.

“Onde encontrá-lo? Em vão eu o procurei no templo e seus arredores. Depois houve a grande guerra com os Hicsos. Os capitães do nosso rei foram derrotados, nossa cidade caiu em poder do inimigo e eu, como muitos outros, fui levado como escravo. Anos e anos passei guardando rebanhos no vale do Eufrates. Depois vivi em todos os países, conheci todos os povos, falei todos os idiomas, durante séculos e séculos.

“Há cerca de um ano, eu estava em São Francisco da Califórnia quando li a notícia de que haviam, pela primeira, vez descoberto em um túmulo egípcio uma joia de platina. E era exatamente um anel com uma pedra de cristal.

“Só podia ser o anel de Thoth. Na mesma noite, parti. A joia fora encontrada por um sábio francês: portanto, devia vir para o Louvre. A peso de ouro falsifiquei papeis de identidade e consegui um lugar de guarda neste museu. Mas o anel só hoje foi exposto aqui e eu vou afinal reunir-me à minha amada”.

O sábio ouvira-o sem um gesto, sem uma palavra, mudo de assombro.

Quando a narração terminou, ele se manteve no mesmo lugar, perguntando a si mesmo se não estaria sonhando. Mas o estranho homenzinho empurrava-o com impaciência.


 — Vá. Saia. Esta porta dá para a rua Rivoli.

No dia seguinte, chegando a Londres, o professor Smith leu no Times o seguinte telegrama:

UM ACIDENTE SINGULAR NO LOUVRE
Paris, 12 — Hoje pela manhã foi encontrado morto na sala egípcia do Louvre um dos guardas desse museu. O infeliz apertava ainda entre os braços uma múmia, e com tal força que foi difícil separá-lo dela. De uma das vitrines da mesma sala desapareceu um anel de grande valor. Ao que parece, o guarda morreu de uma ruptura de aneurisma. Não se conhecem parentes do morto. Seus costumes eram um tanto excêntricos e não foi possível averiguar com segurança sua idade.

Tradução de autor desconhecido do início do séc. XX. A presente narrativa, uma versão condensada, em português, do conto "The Ring of Thoth", foi publicada originalmente na revista “Eu Sei Tudo”, edição de junho de 1921. Fizeram-se pequenas adaptações textuais.

Texto disponível em PDF, Mobi e E-Pub em Free Books Editora Virtual.



[1] Karl Richard Lepsius (1810 — 1884), arqueólogo, egiptólogo e linguista alemão, autor de “Monumentos do Egito e da Etiópia”, obra em 12 volumes, resultado de seus estudos e escavações nas pirâmides de Gizé, Abusir, Sakara e Dahchur.

[2] Jean-François Champollion (1790 — 1832), linguista e egiptólogo francês, notabilizou-se pela decifração dos hieróglifos egípcios a partir da famosa Pedra de Rosetta. 

[3] Na verdade, Tutmósis ou Tutmés I reinou entre os anos de 1494 e 1482 a.C.

[4] Deus do panteão do antigo Egito. Muito culto, era antropomorfo: homem com a cabeça de íbis, uma ave de bico alongado. Era o deus das mais altas esferas do conhecimento da sabedoria: da escrita, da magia, da medicina. Também era o deus da música. Teria ensinado aos homens a arte de escrever e, por isto, era o protetor dos escribas.

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