MINHA QUARTA SEPTICEMIA - Conto Clássico Insólito - Horacio Quiroga



MINHA QUARTA SEPTICEMIA

(Memórias de um Estreptococo)

Horacio Quiroga

Tradução de Paulo Soriano

(1878 – 1937


Tivemos que esperar mais de dois meses. Nosso homem tinha uma ridícula prolixidade asséptica que contrastava cruelmente com a nossa decisão.

 

Eduardo Foxterrier! Que nome! Esta foi a causa da vaga consideração que tive por ele um momento. O nosso sujeito não era na verdade pior que os outros; antes honrava a medicina ― que seria a sua profissão ― com sua bela presunção apostólica.

 

Quando cortou a mão na vértebra de nosso morto em dissecação ― que pleurisia justa! ―, não se deu conta. Assim que retirou a mão, viu a ferida e ficou por um instante olhando para ela. Teve a fugaz ideia de continuar, e mesmo fez um movimento para afundá-la novamente, mas toda a Academia de Medicina e Bacteriologia se impôs, e ele largou o bisturi. Lavou-se copiosamente. À tarde, voltou à Faculdade. Cauterizou a ferida, embora um tanto tardiamente, coisa que ele claramente sabia. Em 22 horas, minuto por minuto, teve o primeiro calafrio.

 

Mas, mal a epiderme desgarrou-se ― no incidente da vértebra –, lançamo-nos dentro dele com uma precipitação que acelerava o terror do bicloreto iminente, seguros das cautelas de Foxterrier.

 

Em dois minutos, lavou-se. A corrente arrastou, inutilizou e abrasou uma terça parte da colônia. O termocautério, à tarde, com o sacrifício dos que restaram, selou a sua própria tumba, encerrando-nos dentro dele.

 

Ao anoitecer, começou a luta. Nas primeiras horas nós nos reproduzimos silenciosamente. Éramos muitos, sem dúvida; mas, como aos 20 minutos éramos o dobro (como têm aumentado esses companheiros!) e, aos 40 minutos, o quádruplo, em 6 horas éramos 180.000 vezes mais. Isto conduziu ao primeiro ataque.

 

Creio estar seguro de que ― a não ser nós mesmos ― qualquer outra colônia teria sucumbido no primeiro dia, dada a enérgica fagocitose de Foxterrier. Algo para nossa energia, nossa própria meditação do crime. Se chegamos ao último grau de exasperação séptica, foi porque fizemos o possível para consegui-lo, ao menos em honra do inferno branco que teríamos de combater. Este nos envolvia sem trégua possível, mas rumava para a morte conosco, na própria absorção. Incansáveis, continuávamos a nossa secreção mortífera, morríamos aos trilhões, novamente nos multiplicávamos e, a 22 horas desta luta desesperada, a colônia inteira vibrou de alegria dentro de Foxterrier: ele acabava de experimentar o primeiro calafrio.

 

É justo que se diga: ele não abrigou nem remotamente uma só dúvida a respeito do que desmoronava sobre ele.

 

Deitou-se em seguida. Sentiu-se melhor, sem dúvida, como era natural. Mas, vinte minutos depois, voltou o calafrio, a temperatura subiu, e, a partir de tal momento, o quadro de sua horrível enfermidade ajustou-se em um todo ao que havíamos decidido.

 

Na casa de Foxterrier não havia estufa. Como esses dias foram cruéis, acenderam-se em seu quarto duas ou três lâmpadas, que não se apagaram até que ele morreu. Seus companheiros não o abandonaram um só instante, revezando-se em turnos, cheios de triste serenidade fraternal ante este sacrifício que compartilhava seu apostolado comum. Algo mais grave devia ser para nós a Academia reunida.

 

A quinina foi nosso tormento contínuo com o gelo de sua presença, esfriando-nos, detendo nossa vertiginosa reprodução. E o soro — o maldito soro claro — ampliava uma energia cardíaca tão ridícula como desesperada, sustentando a corrente, varrendo a nossa obra com sua estéril purificação. Os banhos, o café, os panos frios sustinham, de sua feita, a química. Logo, os rins eliminavam-nos abundantemente... De modo que, na manhã seguinte, último dia de Foxterrier, decidimos subir a temperatura e mantê-la alta a todo custo. O principal, indubitavelmente, era que não nos concentrássemos num dado local, malgrado uma broncopneumonia nos tentasse como em uma criança. E a terebintina aplicada a nosso passo havia sido o nosso martírio, em razão de sua força redutiva quase irresistível. Teria sido uma loucura fixar-nos, e sobretudo uma crueldade a mais com Foxterrier, já que nossa excitação devia de todo modo findar-se com ele.

 

Não posso recordar-me das últimas horas sem compartilhar do violento calafrio que varreu Foxterrier. De fato, às três, Foxterrier tinha 41,5 graus de febre. Resistiu ainda um momento, pois, se no mundo que abandonou conosco houve um cérebro claro, este foi o de Eduardo. Às quatro, a temperatura subiu a 42 graus e ele se rendeu em franco delírio. Não houve esperança. O pulso não reagia mais, apesar das estricninas e dos óleos. Às cinco, caiu em coma e a febre subiu a 42,4 graus. Nesse momento, tivemos aflorada a ideia de nosso próprio perigo. Houve uma voz de alarme que, sem dúvida, saiu das profundezas de nossa angústia: a temperatura, a temperatura! Mas, o que podíamos fazer? Tão grande havia sido e era a nossa exasperação que nossas toxinas se tornavam luminosas. Nem mesmo podíamos nos deter, em meio a uma secreção meditada dois meses inteiros. Às cinco e quinze, Foxterrier tinha 43,1 graus e morreu. Foi debalde o nosso desespero. Continuamos multiplicando-nos, secretando novos rios de toxina, subindo, subindo sempre a temperatura. Em meia hora chegou a 44,5 graus.


A metade da colônia morreu. Um ambiente de fogo, asfixia e honra comprometida acompanhou os resquícios de nossa atividade, e minhas lembranças cessam aqui, uma hora e doze minutos depois de havermos matado Foxterrier.

 


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