O SEGREDO DA CONDESSA BARBARA - Conto Clássico de Terror - Henri de Régnier




O SEGREDO DA CONDESSA BARBARA

Henri de Régnier

(1864 – 1936)


O homem, cuja estranha confissão será lida adiante,  era filho de família veneziana. Digo era, porque, quando tive conhecimento do documento em questão, a criatura que a redigiu falecera poucas semanas antes, no hospício da Ilha de San Servolo, onde o haviam internado há vários anos.

Foi essa, sem dúvida, a circunstância que determinou o amável diretor daquele estabelecimento a me comunicar a ideia de existência dessa elucubração simpática. Ele já me conhecia como autor de uma pesquisa psicológica realizada no Manicômio de Veneza, e isso o tranquilizava quanto às minhas intenções. Sabia que eu não abusaria das confidencias de seu falecido paciente. Copiei, pois, esse documento que hoje revelo ao público, pois sei que os episódios nele relatados remontam há cerca de vinte e cinco anos. Faz justamente doze, agora, que os estudos a que me aplicava — e abandonei depois — me levaram a Veneza.

Naquela época, aqueles estudos me apaixonavam de tal modo que quase não pensava em apreciar as poéticas belezas da cidade dos doges. Apenas visitara, apressadamente, os monumentos clássicos, não pensando em um só instante em gozar do repouso que nos oferece a única cidade do mundo onde é possível esquecer quase completamente a vida moderna.

Foi no decorrer de uma palestra com o diretor do hospício de San Servolo que me foi confiado o documento abaixo:

 

“Manicômio de San Servolo, 12 de maio de 18...

Agora que sou indiscutivelmente considerado louco e que me encontro fechado neste asilo, muito provavelmente até os fins de meus dias, nada mais me impede de relatar, exata e verdadeiramente, os acontecimentos que ocasionaram o meu internamento.

Não imaginem, ao percorrer estas linhas, que se encontram diante de um desses maníacos que redigem intermináveis recriminações contra o "erro médico” de que são vítimas ou denunciam sombrias maquinações de família e dramas íntimos que tiveram por desfecho a perda de sua liberdade. Não! Longe de mim a ideia de me queixar da sorte e de reclamar contra um internamento cm um hospício. Nenhum projeto de evasão, depois que aqui me encerraram, atravessou me espírito. Ao contrário, minha célula de San Servolo não é para mim um cárcere, mas um refúgio. Ela me proporciona uma segurança que não poderia encontrar em outra qualquer parte e daqui não tenho a menor vontade de sair. Abençoo as espessas muralhas e as grades sólidas, que me colocam, de ora em diante, ao abrigo — e para sempre! — da sociedade dos homens e, particularmente, dos que fazem profissão julgar as ações humanas.

De fato, mesmo que estas linhas caíssem sob os olhos dos magistrados, seriam sem valor para eles e não constituiriam para mim perigo algum, pela boa e simples razão de estar eu, legalmente e segundo os doutos da medicina, louco, completamente. Essa qualidade concede-me liberdade para falar e escrever livremente.

Minha loucura é minha salvaguarda. Assim,  ao chegar aqui, tudo fiz para que meu caso se concretizasse. Rolei pelo soalho, fiz menção de querer estrangular um guarda. Era necessário e urgente assegurar-me da situação de doido, a fim de gozar em paz as vantagens que ela me confere. Porque — os leitores já o adivinharam, por certo — não sou um louco, mas fui vítima de uma horrorosa aventura, de uma dessas aventuras que parecem inverossímeis e às quais costumamos não dar crédito, mas são verdadeiras, embora ultrapassem o alcance de nosso fraco entendimento. Ouçam a minha e julguem...

A primeira infelicidade de minha vida foi a de ter nascido pobre; a segunda, a de a natureza me haver criado preguiçoso.

Meus pais são de boa origem, porém pouco favorecidos pela fortuna. No entanto, deram-me uma excelente educação. Fui, cedo ainda, enviado para o melhor colégio de Veneza, onde tive como companheiros filhos de boas famílias e travei relações com o jovem conde Odoardo Grimanelli, de quem falarei mais adiante.

Terminados meus estudos de maneira não muito brilhante, meus pais puseram-me diante da contingência de escolher uma profissão. Nesse momento, minha maldita preguiça interveio. Era uma preguiça invencível e, nisso, sou um verdadeiro veneziano. De que serve ter nascido na mais doce cidade do universo, se é necessário trabalhar como em outra qualquer parte? Veneza sozinha já era, para mim, ocupação suficiente. Eu gostava de apreciá-la em seu presente e em seu passado. Teria, de boa vontade, empregado meu tempo visitando e estudando os velhos arquivos de sua história, mas, para isso, era preciso ter dinheiro, coisa que eu não possuía. Como suprir essa penúria, que era um obstáculo para meus gostos de ocioso e de historiador?

Num dia em que ruminava essas dificuldades, a fatal ideia — causa de minha permanência aqui — atravessou bruscamente meu cérebro.

Eu entrara na igreja de São Marcos. Sentado em um banco, considerava os mármores preciosos e os mosaicos que ornam essa obra prima das artes. Todo o ouro ali espalhado hipnotizava-me; toda essa riqueza berrante, que faz do interior da igreja uma gruta de sortilégios, agravava o sentimento de minha pobreza, quando, bruscamente, eu me recordei do conteúdo dos velhos papeis de Estado, que, na mesma manhã, eu folheara nos arquivos. Era um relatório de inquisidores a respeito de um aventureiro alemão chamado Hans Glucksberg, que pretendia possuir a arte da transmutação dos metais. Estivera operando em Veneza na segunda metade do século XVIII, onde tivera inúmeros adeptos!

Nesse instante, uma espécie de deslumbramento aniquilou-me. A abóbada de ouro de São Marcos começou a rodar sobre minha cabeça e sofri um curto desmaio. Se esse maravilhoso segredo existira, por que eu não o encontraria? O alquimista devia ter deixado algum depositário. Devia ser possível encontrar-lhe vestígios, chegar até o detentor do segredo e obter, por minha vez, a lucrativa iniciação.

 Minha resolução estava tomada. Obtive de minha família novo prazo e mergulhei febrilmente no estudo das obras de ocultismo e tratados de alquimia. Estava convencido de que o poder de fazer ouro não era uma fábula. Hans Glucksberg o possuíra. Devia ter comunicado a fórmula a alguns de seus adeptos venezianos. Essa convicção decuplicou minhas forças. Continuei investigando e acabei por verificar que, entre os adeptos do alemão, citava-se a condessa Barbara Grimanelli, dama de grande inteligência e que, segundo os contemporâneos, restabelecera em poucos anos a fortuna de sua família, então bastante arruinada. Fora ela quem mandara reedificar o palácio Grimanelli e decorá-lo com afrescos por Pietro Longhi. Para mim, não havia mais dúvida: a prosperidade repentina da condessa Barbara era devida à posse do segredo maravilhoso do qual seu descendente Odoardo devia ser o atual legatário!

Ah! Essa condessa Barbara... Sua fisionomia era-me familiar! Eu a revia no centro da composição em que Longhi representara diversos personagens da família Grimanelli, sentados em mesas de jogo. Essa pintura era admirável, com figuras do tamanho natural.  No meio dos jogadores, mantinha-se de pé a condessa Barbara. Era uma mulher alta, de fisionomia severa e altiva. Sua mão desenrolava um papel coberto por sinais cabalísticos. Por que razão esses sinais não me haviam levado logo ao bom caminho?

A própria existência que Odoardo levava desde sua maioridade explicava tudo. Era de notoriedade publica que, quando o pai de Odoardo morrera, havia dissipado seus bens e, no entanto, havia dois anos, Odoardo gastava desenfreadamente. O palácio Grimanelli fora restaurado e luxuosamente aberto à alta sociedade. Odoardo fazia em Londres e em Paris vilegiaturas  caríssimas. Não era isso uma prova de que ele, por sua vez, era possuidor do segredo da condessa Barbara e de Hans Glucksbcrger, o segredo maravilhoso, que, também eu, desejava possuir? Sim! Por que não? Ousaria Odoardo recusá-lo a mim, cuja perspicácia descobrira a sua existência?

 

*

 

Mas como chegar a meus fins? A primeira condição era tornar a rever Odoardo. Ora, ele se encontrava em Veneza. Na manhã seguinte, dirigi-me ao palácio Grimanelli. Conduziram-me justamente à galeria onde se encontrava o afresco.

 Como Odoardo tardava a aparecer, tive bastante tempo para examinar a obra de Longhi. Um só personagem me interessava: a condessa Barbara. Confesso que, ao fim de alguns minutos, estremeci sob seu olhar duro e ameaçador. Sua mão parecia apertar com cólera o pergaminho e querer ocultá-lo de olhares indiscretos.

A entrada de Odoardo interrompeu meu raciocínio. Odoardo recebeu-me com amizade. Falou-me em sua recente viagem a Londres, depois interrogou-me cordialmente sobre mim mesmo. Então, estava eu, finalmente, resolvido a escolher uma profissão? A essa pergunta, respondi evasivamente; aleguei, para justificar minha indecisão, meu gosto pelos trabalhos de arquivos.

Odoardo ouvia-me com benevolência. Evidentemente, para ele, as viagens, o jogo, os prazeres, eram as únicas preocupações admissíveis. Sim, eu compreendia isso. No entanto, as pesquisas de erudição não deixavam de ter interesse. Assim, ultimamente, por exemplo, eu descobrira curiosos detalhes sobre sua antepassada, a condessa Barbara. Assim falando, apontei para o retrato. Odoardo pareceu ligeiramente embaraçado, depois desatou a rir:

— Essa é boa! Estou certo de que descobriu algumas aventuras de minha respeitável ancestral. Ah, vocês eruditos são todos iguais! Imagine que, ultimamente, em Paris, apareceu uma brochura em que um jovem pesquisador francês pretende ter descoberto uma correspondência das mais comprometedoras entre a condessa e o aventureiro Casanova de Seingalt.

Espreitava-me de soslaio. Por minha vez, desatei a rir.

— Eh, meu caro! Isso não me surpreenderia... Pode muito bem ser que Casanova tenha contribuído para a iniciação de sua antepassada nas manipulações de alquimia e magia... Veneza, naquele tempo, estava cheia de cabalistas. Chegavam de países distantes, em profusão...

Odoardo não ria mais. Parecia presa de um visível mal-estar e desviou bruscamente a conversa. Voltou ao assunto de minha carreira, considerando urgente que eu escolhesse. Ofereceu-me mesmo auxílio com suas relações. Se eu necessitasse de alguma coisa, estava à minha disposição.

E, assim falando, fazia, discretamente, tilintar no bolso do colete algumas moedas de ouro.

Pobre Odoardo! Não era isso que eu desejava. O que eu queria era o maravilhoso segredo da transmutação de ele que era, certamente, possuidor. E eu estava certo de arrancar-lhe, por bem ou pelo emprego da torça. Só me restava achar o melhor meio,  por persuasão ou por violência.

Empreguei várias semanas no estudo desses meios. A cada dia, eu passava longas horas a meditar em uma gruta de ouro de São Marcos. Muitas vezes, tomava uma gôndola e fazia-me conduzir ao ponto mais deserto da laguna.

O silêncio dessas águas mudas é propício à reflexão.  Foi em uma noite, em que minha gôndola corria ao longo das velhas muralhas da ilha de San Servolo, que engendrei o plano decisivo. Iria procurar Odoardo e, uma vez, fechado, a sós, com ele, havia de forçá-lo a falar. Eu era de força muscular pouco comum. E, além disto, estava determinado a tudo para alcançar o que desejava.

Tive que esperar a volta de Odoardo, que fora a Roma a fim de assistir a uma representação teatral. Enfim, o dia fatídico chegou. Odoardo devia receber-me às seis horas. Às cinco e meia dirigi-me para o palácio Grimanelli. Todas minhas disposições tinham sido tomadas.

Tinha em meu bolso uma mordaça e um pequeno rolo de corda, fina e sólida, não esquecendo meu revólver. Estava calmo. Uma só coisa me preocupava. Odoardo iria me receber em sua sala para fumantes  ou na galeria das pinturas. Eu preferiria a sala, mais isolada, mas havia de arranjar as coisas mesmo na galeria. Fosse como fosse, estava certo de vencer.  Odoardo não me oporia grande resistência e, uma vez revelado seu segredo, havia de me perdoar até mesmo o extremo a que chegara meu processo.

Foi com esses sentimentos que cheguei ao palácio Grimanelli. Foi à galeria que o criado me conduziu.

Odoardo ali estava, diante da pintura de Longui, que parecia examinar com tanta atenção que pude chegar junto a ele sem ser pressentido.

Antes que ele pudesse dar um grito, foi amordaçado e amarrado. Então enxuguei a fronte, empunhei o revólver e comecei a lhe explicar o que queria.

À proporção que eu falava, Odoardo ficava pálido, cada vez mais pálido. Era de se jurar que não me estava ouvindo e o seu olhar se mantinha voltado para a parede.

Maquinalmente, eu me voltei a fim de ver o que tanto o interessava ali e o que vi foi tão terrível que meu revólver me caiu das mãos e eu fiquei petrificado pelo terror.

Lentamente, mas com um movimento firme e seguro, a figura da condessa Barbara animava-se.

A princípio foi um dedo que se moveu; depois, a mão, o braço. De súbito, ela voltou a cabeça. Vi o tecido de sua roupa mover-se. Ela caminhava, afastava-se da parede onde o pintor a colocara havia cento e cinquenta. E o lugar que ela ocupara no quadro ficava em branco. Não havia dúvida. A condessa Barbara vinha defender o segredo pelo qual vendera sua alma ao demônio. Veio até junto de mim e senti sobre meu ombro uma mão gelada.

 

*

 

Quando recobrei os sentidos, estava deitado num leito ao qual me haviam prendido com uma sólida correia.

A um canto, Odoardo conversava com um cavalheiro de barba grisalha que, soube depois, era o diretor do hospício de San Servolo. À minha cabeceira, meu pai e minha mãe choravam. E, pelo que disseram, soube que me julgavam doido. Ah, ainda bem... Ainda bem. Ali, nem a polícia nem a condessa viria tomar-me conta por meus atos. “

 

*

 

Tinha já esquecido esse curioso documento quando, no mês passado, fui passar uma quinzena em Veneza. Um dia, um amigo, Jules d’Escoulac, convidou-me a ir ver as pinturas no palácio Grimanelli.

Esse nome fez-me recordar o estranho caso do interno de San Servolo e apressei-me a segui-lo.

Chegando à famosa galeria, d’Escoulac fez-me admirar a pintura de Longhi. E disse-me:

— É uma pena que essa pintura tenha sofrido uma avaria. Uma das figuras desapareceu quase por completo. Um acidente incompreensível.  Alguma infiltração de umidade na parede, talvez.

Olhei para a pintura e reconheci a figura que faltava. Segundo a descrição do louco, era a condessa Barbara.

E, a despeito de me considerar um espírito forte, senti um mal-estar indefinível.

 

Tradução de autor desconhecido.

Fonte: “Eu Sei Tudo” (RJ), edição de junho de 1930.


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