FABIANO COVEIRO - Conto Fúnebre - Eduardo Sabino



FABIANO COVEIRO

Eduardo Sabino

 

Quando cheguei ao barzinho, Fabiano já me aguardava no fundo do estabelecimento, na mesa rente à parede, próxima demais do banheiro e separada por um pequeno corredor do freezer e do balcão da cozinha. Eram ainda dezenove horas, o bar vazio, o garçom desencaixava as mesas da varanda, de modo que não entendi a escolha. Será que ele não tinha percebido? Receberíamos estímulos de cheiros bem diferentes, e entre cozinha e banheiro, o banheiro sempre vence e afasta o apetite de qualquer coisa que saia, cheirosa ou não, da cozinha. Bora mudar de mesa antes que as pessoas cheguem, vacilão, a frase estava engatilhada para depois dos cumprimentos. Então notei, ao me sentar na cadeira rústica à sua frente, o modo como os dedos da sua mão se entrecruzavam, massageando uns aos outros e que o sorriso dele, sempre tão escancarado, tinha sido substituído por uma fresta torta e sem dentes. Soube nesse instante: havia algo errado com Fabiano. Dessa vez não era minha culpa. Por um milagre cósmico, o trânsito  fluiu muito bem do trabalho ao boteco e lá estava eu, cinco minutos antes do horário marcado. A tensão só podia estar no que ele tinha a me dizer, no que o levou a insistir para tomarmos uma cerveja numa terça-feira, coisa não muito incomum para mim, admito, mas inédita se tratando dele.

“Tudo tranquilo, cara?”

“Tudo.”

“Não senti ­ firmeza. Aconteceu alguma coisa?”

As olheiras no seu rosto quase me responderam por ele. Cara de quem não dormia há dias.

“Tenho uma coisa pro cê.”

“Tá tra­ficando agora, é?”, perguntei, rindo.

Ele não riu de volta. Estava mesmo tenso.

Liguei o modo assunto sério, ­ nalmente, e me ajeitei na cadeira. Curioso, porque eu não podia imaginar o que Fabiano, um dos meus amigos mais cordiais, bobo, até certo ponto, poderia fazer de mal a alguém, ainda que fosse a si mesmo.

“O que rolou, mano?”

Ele olhou para os lados, os garçons absortos no seu trabalho de organizar as mesas, um casal se sentando em uma mesa na varanda.

“Antes de mais nada, o que vou te contar morre aqui.”

“Vai morrer. Fica tranquilo.”

Conheci Fabiano no colégio. Terceiro ano do ensino médio e já quase batia os dois metros de altura. Grande, forte e cara de mau, fazia o tipo valentão, mas só na aparência. Não gostava de brigas, não entrava nelas nem para separar, e abaixava a cabeça quando os meninos de outra sala mexiam com ele nos corredores, fazendo piadas com o seu tamanho. Cara, não aceita isso, mete o sopapo nele, dizíamos, e ele ignorava. Um cara da paz, o Fabão. De família religiosa, foi coroinha aos oito anos e, aos treze, ganhou um trabalho como gandula do Vila Nova. Ficava atrás do gol e saltava melhor do que o goleiro para apanhar as bolas que saíam pela linha de fundo. Impressionado, o técnico do time júnior lhe deu uma chance.

Em uma partida do Brasileiro Sub-20, o centroavante adversário agrediu o zagueiro e o jogo terminou em pancadaria, com jogadores, comissão técnica e todo o departamento médico trocando chutes e socos. Da arquibancada atrás do gol, vi meu amigo andando devagar pela lateral de campo e entrando no vestiário, na maior tranquilidade, como se nada estivesse acontecendo. Chamaram de falta de lealdade e amor à camisa, e desligaram-no do clube. Quando formou o ensino médio, surgiu uma oportunidade de vigia no cemitério do Rosário, e a paróquia, que cuidava do lugar, viu nele o per­ l para a vaga: jovem, grande, ameaçador e confiável.

Quando soube, achei estranho. Tomar conta de um cemitério? Os mortos não precisam de babá, não fazem bagunça nem tentam pular o muro. Daí me contaram o que vinha acontecendo. Os velhos descendentes de ingleses da cidade, muitos já centenários e fazendo hora extra aqui embaixo, vinham morrendo, um após o outro, e, seguindo a tradição das famílias, levavam seus amuletos para o túmulo. Anéis, colares, joias de todos os tipos. O fato não passou despercebido aos ladrões de túmulos, claro, e, depois que uma cova do avô do prefeito foi profanada, e levaram o relógio que marcaria o tempo de decomposição do morto e do coma profundo de sua alma até o juízo ­final, o padre reuniu a diretoria da paróquia e decidiu contratar um vigia: Fabiano.

“Eu não dei conta, caí em tentação.”

A garçonete chegou com a cerveja. Esperamos ela encher os copos, em silêncio. Quando se afastou, retomei:

“Traiu sua namorada?”

“Não, cara. No trabalho.”

“Cê tá brincando?! Cê não fez o que tô pensando...”

“Fala baixo, caralho.”

Abaixei a cabeça e projetei o tronco na direção dele, diminuindo o tom de voz, mas me esforçando para não rir. Eu mal podia acreditar

no que ouvia:

“Lalou o colar de uma véia inglesa, é?”

Ele apalpou o bolso, olhando os arredores como se o defunto

roubado estivesse por perto.

“Com os ingleses não mexo. Nem a pau”, disse.

Tirou algo do bolso, ergueu a mão e a desceu sobre a mesa. Na

palma da luva natural de goleiro, a mão enorme de Fabiano, as costas

de um celular, a maçã mordida prateada brilhando: um iphone.

“Ok, um celular. Agora cê vai me dizer que alguém foi enterrado com isso?”

“Pior que foi.”

“Conta outra, Fabão. Cadê a câmera escondida?”

Fabiano contou os detalhes. O velório e o enterro tinham acontecido no entardecer do dia anterior ao nosso encontro, véspera de sua folga. Fabiano os acompanhou de perto, pois o padre que encomendou o corpo solicitou sua presença para ajudar o coveiro a carregar o caixão. Pouco antes do cerramento do caixão, a viúva abriu caminho e enfiou o celular embaixo das mãos cruzadas do morto, um homem aparentemente jovem, meia idade, os cabelos começando a branquear.

As ­filhas tentaram dissuadi-la, mas a viúva estava irredutível: esta coisa vai embora com ele, não quero mais um pio. E as meninas choraram muito, Fabiano não soube dizer se pelo pai ou o smartphone. Durante os velórios interioranos, as pessoas costumam fazer muitos comentários; às vezes não têm a mínima intimidade com o morto e vão ao cemitério observar a choradeira da família e fazer comentários. Nesse caso não foi diferente. Disseram que o falecido era um homem endividado. Comprava coisas além de sua condição ­ financeira; a  última tevê da Sony, o último aparelho da Apple, andava de carro zero fi­nanciado em cinco anos enquanto as garotas interrompiam cursos na faculdade por falta de grana e coisas essenciais faltavam na casa; até mesmo na geladeira. A situação estava complicada, disseram, tinham acabado de pegar um empréstimo no banco e essa seria a razão do infarto do falecido: não aguentou a pressão. Por que diabos a mulher enterrava uma das poucas coisas pagas da família e que podia vender facilmente, ainda mais precisando de dinheiro? Segundo os relatos dos fofoqueiros de velório, o aparelho era motivo de discórdia entre as irmãs. Desde que o pai morreu, elas vinham batendo boca e até caindo no tapa pelo smartphone. A mãe então se livraria do aparelho para dar uma lição a elas: aquilo seria enterrado com o pai, como símbolo de sua morte, de tudo que o levou à morte e que agora a família precisava superar: um consumismo irresponsável e uma valorização estúpida de coisas materiais.

Saber da história acendeu um dilema moral em Fabiano, ele me contou, que terminou com a violação do túmulo às três horas da manhã. Diferente das joias dos ingleses, o celular não era um amuleto, não tinha signifi cado para o morto, na verdade tinha sido a sua ruína. A viúva, herdeira legítima, decidiu se livrar da herança.

“Seria pecado, eu me perguntei, pegar algo que ninguém mais queria?”

“De jeito nenhum”, concordei. “Daqui nada se leva, meu amigo.”

Quantos meses precisaria trabalhar, Fabiano calculou, para comprar um smartphone como aquele? Não seria justo que ­ casse debaixo da terra, pegando ferrugem, inutilizado, vendo o dono servir de banquete aos vermes, o dono que não poderia fazer, nunca mais, nenhuma ligação, por estar ausente de todos os lugares ou ao menos, segundo a fé de Fabiano, fora da área de cobertura deste mundo.

“Então eu peguei o celular, e agora, como você pode ver, ele está aqui. Toma.”

Dito isso, Fabiano empurrou o aparelho em minha direção.

Empurrei-o de volta:

“Vende, cara. Vai te dar uma grana. Eu tô numa pindaíba danada. Não posso pagar por isso agora.”

“Eu tô te dando”, insistiu. “Fiz merda, agora é seu.”

“Para com isso, Fabiano. Esquece essa culpa cristã, meu amigo.

O celular tava debaixo da terra. Não tinha dono.”

“Se não tinha dono, não pode ser vendido”, e o devolveu para mim.

De repente, colocou as mãos sobre os olhos, e achei que pela primeira vez o veria chorar, mas apenas deu um longo suspiro.

“Essa porra me deu um baita susto, velho. Sou muito besta de acreditar nos fofoqueiros, achar que sabem de tudo. As pessoas nem sempre contam porque fazem o que fazem, cara. E quando contam não contam tudo.”

“Sim, é foda. Às vezes nem a gente sabe direito por que faz o que faz.”

“...”

“Mas por que o susto? Teve pesadelo?”

“Antes fosse.”

Daí ele ­ficou em silêncio, deu um gole na cerveja, olhando-me pensativo – na certa decidindo se me contaria – e recomeçou o relato que pensei ter chegado ao ­ m cinco minutos atrás.

Levou bastante tempo para desenterrar o caixão – a lanterna trêmula, assustando-se com os voos rasantes dos morcegos e piados  de coruja. Quase desistiu, tanto esforço teve que fazer pra tirar as placas de concreto armado, pesadíssimas, acopladas no buraco com um cimento, sorte dele, ainda molenga. Então abriu o caixão, tirou o iphone das mãos do morto, tampou-o novamente e refez o processo até a sepultura ­ ficar como antes. Abaixou-se, pegou o iphone na grama e, quando se levantou, quase teve uma parada cardíaca: o celular tocou, o visor brilhando no escuro. Fabiano deu um berro, meu deus do céu, estremeceu o corpo e deixou o aparelho cair novamente. Deu um salto para trás, taquicardíaco, e ­ficou olhando à distância. Quem diabos enterra um celular com bateria? Se tratando de um iphone, devia ter sido enterrado com cem por cento da bateria para durar o dia inteiro.

De longe, ele viu o nome no visor: Amor, certamente quem ligava era a viúva.

Esperou o celular parar de tocar e o apanhou no chão. Correu até a guarita, fechou-a, a respiração ofegante, sentindo-se culpado por tirar o aparelho do morto e agora ter de testemunhar a sua vibração. Mais de setenta ligações não atendidas, e contando. Imaginou-a sentada na sala, no escuro, enquanto as meninas dormiam, iluminada por uma vela, o telefone fixo na orelha, talvez com uma bíblia a mão, lendo os versículos em que Jesus manda Lázaro se levantar. Acorda-te e atenda, talvez ela estivesse repetindo, incansavelmente, baixinho. O celular ainda marcava trinta por cento de bateria. Fabiano decidiu acabar com aquela angústia e desligou-o.

“Agora é todo seu”, Fabiano me diz, “já tirei o chip”.

Guardei o celular no bolso.

“Se você vai se sentir melhor se livrando dele, não vou mais negar. Você que sabe.”

Ele assentiu, e chamou a garçonete; mais uma garrafa seca.

Quando enfileiramos o bastante para percebermos que bebemos demais, talvez mais do que poderíamos pagar sem usar o crédito, pedimos a conta.

Descemos a Rua da Bahia abraçados – ou melhor, o braço dele no meu ombro, o meu nas costas dele, porque o diabo era alto demais –, ríamos e lembrávamos episódios do colegial. Fabiano esperou comigo o meu ônibus e, antes do balaio chegar, con­fidenciou-me:

“Depois do que te contei, eu liguei de novo o celular. Mandei uma mensagem pra ela.”

Escorei na placa de ônibus, incrédulo.

“Cê tá me zoando...”

“Sério, porra. Eu não ia brincar com isso. Cê me conhece.”

“E o que você escreveu, maluco?”

Vi seus olhos se erguendo, as pupilas quase sumindo nas córneas, e depois tornando a me encarar.

“Não lembro exatamente. Falei para ela não se preocupar. Estou indo para um lugar melhor. Te amo, cuida bem das garotas. Algo assim.”

“Puta que o pariu, cara.”

“Fiz merda, né?”

“Sei lá. Acho que fez.”

Ficamos em silêncio algum tempo, dois carros passaram assobiando, motores tunados, apostando pega, uma garota ofereceu chicletes às pessoas no ponto, uma a uma, e depois partiu, eu continuei tentando pensar no que dizer e, como ele parecia de repente entristecido, acabei dizendo:

“Você fez bem. Era o que ela queria ligando para ele. Se tiver um céu, acho que você acabou de garantir a sua vaga”

Fabiano riu:

“Lógico que tem um céu. Em algum lugar...”

“Então beleza. Quando você morrer, vou colocar o celular no seu caixão. Pro cê devolver quando chegar lá. Isso se o cara não tiver ido para o inferno, né?”

Ele deu outra risada, e depois coçou queixo.

“Até que é uma boa ideia, hein?”

Meu ônibus chegou, apertamos as mãos, agradeci pelo presente, mais uma vez, prometi não contar sua história para ninguém, bico calado, ok, conte comigo, e embarquei. Sentei na ­ leira de poltronas do fundo, recostado na janela da esquerda, ao lado da porta. Cochilei uns vinte minutos de viagem e, quando acordei, apalpei os bolsos, com medo de ter sonhado tudo o que havia ocorrido, procurando provas materiais de que ouvi aquela história de Fabiano. Ufa, ainda estava lá. Puxei e ergui o aparelho contra a luz da rodovia: a tela negra, o fundo prateado sem um arranhão, um smartphone morto temporariamente precisando de chip e recarga de bateria.

 

Conto originalmente publicado na “Revista Blecaute” (Campina Grande/PB), v. 7, nº 20, 2020.

Sobre o autor: Eduardo Sabino nasceu em Nova Lima, Minas Gerais. É autor de quatro livros de contos, entre os quais Naufrágio entre Amigos (Editora Patuá, 2016) e Estados Alucinatórios (Caos e Letras, 2020). Fundou, em 2019, em sociedade com o poeta Cristiano Silva Rato, a Caos e Letras, editora de literatura independente localizada na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Integra, como membro fundador, o coletivo Vida de Escritor, idealizado por Nelson de Oliveira e Marne Lúcio Guedes.


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