O VÉU NEGRO - Conto Clássico de Tragédia e Horror - Charles Dickens



O VÉU NEGRO

Charles Dickens

(1812 – 1870)

 

“O Véu Negro” é uma das mais sombrias histórias escritas por Charles Dickens. Conto gótico, trágico, lúgubre.

Numa noite de chuva, semiadormecido, um jovem médico é subitamente acordado pela aparição de quem seria o seu primeiro cliente. Trata-se de uma estranha mulher vestida com trajes fúnebres. Seu rosto não se vê: é ocultado por um espesso véu negro. A mulher pede-lhe ajuda, mas em benefício de alguém que caminha irremediavelmente para a morte. Afirma ela que, na manhã seguinte, aquela pessoa estará à margem de qualquer socorro humano. Mas, ainda assim, naquela noite tempestuosa, apesar do iminente perigo de morte, o médico não poderia visitar o paciente...

Apesar de toda a incoerência da situação que lhe foi exposta, o médico decide-se por auxiliar a excêntrica mulher de preto. Mas o que o espera é um mistério insondável, uma loucura tocante e o horror surpreendente.



Numa noite de inverno pelo fim de 1800, ou do ano anterior, um médico ainda novo, que se estabelecera há pouco tempo, estava sentado em seu consultório, diante de um lume crepitante, ouvindo o vento que atirava a chuva contra as vidraças e uivava ferozmente na lareira.

A noite estava úmida e fria, e ele havia andado o dia todo metido em água e lama. Agora, descansava, em roupão e chinelas, um tanto mais que semiadormecido e um pouco menos que semidesperto, girando-lhe mil ideias na imaginação errante.

A princípio, dizia consigo que o vento soprava muito forte e que a chuva lhe açoitaria o rosto naquele momento se ele não estivesse confortavelmente agasalhado em sua casa.  Depois veio-lhe ao espírito a visita que, todos os anos, no Natal, fazia à sua terra onde nascera e aos seus melhores amigos.  Pensou que haviam de ficar muito contentes por vê-lo e que a miss Rose decerto muito agradaria saber que ele já tinha encontrado o primeiro cliente e que poderia esperar mais alguns. Talvez ela consentisse afinal em viajar até Londres com ele, desposá-lo e participar daquele canto do lar, agora tão triste, que ela haveria de alegrar com o seu sorriso e a sua tagarelice. Depois perguntou a si mesmo quando apareceria tal primeiro cliente, tão ansiosamente esperado, ou então se ele estaria destinado, por um desígnio especial da Providência, a não ter cliente nenhum. E então pensou de novo em miss Rose, adormeceu e sonhou com ela até que os sons da voz tão doce e alegre da donzela chegassem aos seus ouvidos e que, com a sua mão terna e pequenina, lhe tocasse o ombro.

Tinham-lhe posto, efetivamente, a mão no ombro, mas não era uma mão carinhosa e pequena: pertencia a um rapaz corpulento, de cabeça redonda que, pela quantia de um xelim por semana e comida, estava autorizado a levar medicamentos e a dar e trazer recados. E como ninguém fizera pedidos, e nem havia recados a ser levados, ele ocupava geralmente as suas horas de espera, que eram em média catorze por dia, em absorver pastilhas de hortelã-pimenta, alguns alimentos sólidos, e dormir.

– Uma dama, meu senhor, uma dama! – disse o rapaz em voz baixa, sacudindo o amo para acordá-lo.

– Que dama? – exclamou o médico, levantando-se em sobressalto, sem estar bem certo de que o seu sonho era uma ilusão, e esperando já que lhe aparecesse miss Rose.

– Onde está ela?

– Está ali – respondeu o rapaz, indicando com o dedo a porta envidraçada que dava para o laboratório, e exprimindo na fisionomia o espanto que a aparição inteiramente inesperada de um cliente devia produzir-lhe nos sentidos.

O médico olhou para a porta e teve um novo sobressalto ao ver a visita inesperada.

Era uma mulher muito alta, vestida de luto.  Estava tão próxima da porta que o seu rosto quase chegava a tocar na vidraça. Da cabeça até os olhos vinha cuidadosamente envolvida num xale preto; e dos olhos até o queixo num véu espesso da mesma cor. De pé, muito ereta, conservava-se absolutamente imóvel e, embora o doutor percebesse que aqueles olhos estavam fitos nele, por debaixo do véu, a dama em questão não mostrava pelo mínimo gesto ter consciência de que ele também a via.

– Deseja consultar-me? – perguntou o médico, abrindo a porta com alguma hesitação.

Esta abria para dentro e, por conseguinte, o movimento que ele fez não produziu mudança alguma na atitude da visitante, que ficou exatamente no mesmo lugar.

Ela inclinou levemente a cabeça em sinal de aprovação.

– Tenha a bondade de entrar, minha senhora – disse o médico.

A aparição deu um passo para a frente. Depois, voltando-se para o criado com um gesto de susto ou de horror, pareceu hesitar.

– Deixa-nos a sós, Tom – disse o doutor ao rapaz, cujos olhos redondos se tinham aberto o máximo possível. – Corre a cortina e fecha a porta.

O rapaz correu uma cortina verde sobre a parte envidraçada da porta, refugiou-se no laboratório, fechou a porta atrás de si e tratou logo de aplicar um dos grandes olhos ao buraco da fechadura.

O doutor aproximou uma cadeira da lareira e convidou, com um gesto, a desconhecida a sentar-se. A criatura misteriosa dirigiu-se lentamente para o local indicado.  Como a luz refletia no vestido preto, o doutor notou que a sua extremidade estava cheia de lama e escorrendo água.

– Está molhada? – perguntou ele.

– Estou – respondeu a desconhecida, em voz muito baixa.

– E está doente? – acrescentou ele, em tom de compaixão, porque a voz que acabava de ouvir denotava grande sofrimento.

– Sim – respondeu a mulher. – Estou muito doente, não do corpo, mas do espírito. Não é para mim, nem em causa própria, que vim procurá-lo. Se eu tivesse algum sofrimento físico, não andaria fora de casa a estas horas ou numa noite como esta.  Se tivesse uma doença incurável, sabe Deus com que satisfação esperaria a morte, como eu lhe pediria para que ela viesse depressa. É em favor de outra pessoa que venho reclamar o seu auxílio, senhor. Talvez seja isto loucura de minha parte, e eu creio realmente que estou louca. Mas, de noite para noite, durante as horas longas e terríveis de vigília e de lágrimas, não tem cessado de importunar-me o espírito o mesmo pensamento. E, embora eu bem veja que nenhum socorro humano lhe pode ser útil, que tudo está perdido sem esperança, só a ideia de sepultá-lo sem ter feito esta tentativa gela-me o sangue nas veias!

E um calafrio, que não podia ser fingido – o doutor perfeitamente o sabia –, fez-lhe estremecer o corpo todo.

Havia algo de tão profundamente dilacerante, tão sincero e sério na sua fala e gestos que aquelas palavras comoveram o coração do médico. Era novato e ainda não tinha visto bem essas misérias que passam diariamente pelos olhos de um médico, a ponto de o fazerem relativamente insensível aos sofrimentos humanos.

– Então – disse ele, erguendo-se com vivacidade –, se a pessoa de quem fala está neste estado desesperado, não há um momento a perder.  Vou acompanhá-la imediatamente. Mas, por que não consultou um médico antes?

– Porque seria inútil tê-lo feito mais cedo... porque é inútil mesmo agora – disse a desconhecida, torcendo as mãos nervosamente.

O doutor fitou novamente os olhos sob o véu negro, como se quisesse reter na vista a expressão das feições que aquele tecido ocultava; o véu era, porém, tão espesso que desafiava toda espécie de curiosidade.

– A senhora também está doente – disse ele com brandura. – Apesar de não a conhecer, não me é difícil certificar-me de que, sem que a senhora tenha sentido, a febre que a tem minado, a fadiga que tem sofrido, lhe esgotaram as forças e a vão consumindo. Chegue isto aos lábios – continuou ele, deitando-lhe um copo d’água. – Descanse por alguns minutos, e depois me dirá, o mais tranquilamente que puder, qual é a doença do enfermo e há quanto tempo a tem. Quando eu souber o que é indispensável para a minha visita dar bom resultado, estarei pronto para acompanhá-la.

A desconhecida, sem levantar o véu, levou o copo à altura da boca, tornou a pô-lo na mesa sem ter tocado no líquido, e rompeu em soluços.

– Sei perfeitamente – disse ela, tentando reprimir aqueles soluços –, que o que vou lhe dizer parece delírio da febre. Outras pessoas já me disseram isto, mas não tão bondosamente como o senhor. Já não sou nova, e dizem que quando a vida se aproxima do fim, o que pouco dela resta, por muito insignificante que às outras pessoas possa parecer, é sempre mais precioso para a pessoa sucumbente que todos os anos já vividos, ainda mesmo que eles só tivessem deixado no seu espírito a recordação de antigos amigos mortos há muito tempo, de novos, talvez de crianças, que sumiram de sua vida e a esqueceram tão completamente como se a morte também as tivesse levado. O curso natural de minha vida já não pode durar muito e por isso deveria ter muito apreço por ela.  Mas não.  Eu morreria sem pena, com felicidade, com alegria, até, se o que lhe digo pudesse ser inexato ou imaginário. Tenho certeza de aquele de quem lhe falo estará, amanhã de manhã, sem possibilidade de ajuda alguma. Nenhum auxílio humano poderá salvá-lo. Todavia, esta noite, apesar de ele se encontrar em perigo de morte, o senhor não pode vê-lo e nem lhe pode ser útil.

O doutor disse, depois de curta pausa:

– Não quero aumentar a sua dor fazendo a menor observação ao que acaba de dizer. Pode parecer-lhe que desejo aprofundar os fatos que a senhora parece ter empenho em ocultar. Há, porém, na sua declaração uma certa insistência que não posso conciliar com as probabilidades.  A senhora me diz que essa pessoa está morrendo, mas, ainda assim, eu não posso vê-la, malgrado possa talvez ser-lhe útil o meu auxílio. Tem medo que amanhã seja muito tarde e, contudo, não quer que eu a veja antes. Se efetivamente consagra a tal pessoa muito afeto, como as suas palavras parecem provar, por que não tentaremos salvar-lhe a vida antes que os progressos da doença tornem o remédio ineficaz?

– Ah, meu Deus! – exclamou, chorando amargamente, a dama.  – Com eu posso fazer acreditar a estranhos o que a mim própria me parece impossível? Não quer, então, ir vê-lo? – acrescentou, levantando-se de repente.

– Eu não disse que me recusava a ir vê-lo – respondeu o doutor.  Mas previno-a de que se persiste nessa obstinação incompreensível, e se tal pessoa morrer, a senhora incorre numa terrível responsabilidade.

– Sim, a responsabilidade será terrível e o céu há de pedir-me contas dela – disse a desconhecida, amargamente. – Mas seja qual for a responsabilidade em que eu incorrer, aceito-a e saberei defender-me.

– Como eu não tenho nenhuma – disse o médico –, para satisfazer o seu pedido irei ver o moribundo amanhã de manhã, se quiser deixar-me o endereço.  A que horas poderei ir?

– Às nove – respondeu a desconhecida.

– Desculpe-me fazer-lhe ainda uma pergunta – disse o doutor. – Ele está agora em sua casa?

– Não!

– Então, se eu lhe receitasse algum remédio para esta noite, ele poderia tomá-lo?

– Não – disse ela –, não poderia.

Julgando que tinha pouca probabilidade de obter informações mais exatas se prolongasse este interrogatório, e desejando não ofender os sentimentos da desconhecida e não lhe agravar os sofrimentos morais que, reprimidos a princípio por um poderoso esforço de vontade, bem se viam pungentíssimos, o médico repetiu a promessa de ir à casa do moribundo no dia seguinte às nove horas. A desconhecida, depois de dar a indicação de uma rua obscura do bairro pobre de Walwort, saiu tão misteriosamente como tinha entrado.

É fácil compreender que tão estranha visita causou extraordinária impressão no espírito do médico, e que ele se entregou a toda espécie de conjecturas, mas sem grande resultado, acerca das circunstâncias prováveis deste caso singular. Como a maior parte da gente, tinha ele ouvido falar muitas vezes em fatos inexplicáveis, pressentimentos de que certas pessoas têm do dia, hora e até do minuto exato de sua morte.  Teve por um momento a ideia de que podia tratar-se de um fato análogo. Mas lembrou-se, também, de que todos exemplos desse gênero que ele conhecera se haviam dado com pessoas que tinham sido de algum modo advertidas de sua própria morte. Ora, a mulher desconhecida tinha falado doutra pessoa, num homem. E era impossível supor que um simples sonho ou um capricho da imaginação – uma alucinação qualquer – a tivesse levado a falar na morte próxima daquele homem com a terrível convicção que exprimira.

Não seria o caso de que o homem estava para ser assassinado na manhã seguinte, e que a mulher, inicialmente cúmplice, e obrigada por um juramento a guardar segredo, se arrependesse, e, embora incapaz de obstar a prática de alguma agressão à vítima, determinara-se a evitar a sua morte, se possível, pela intervenção oportuna de um médico?

Mas fatos tão monstruosos, executados com tanta ferocidade e premeditação a duas milhas apenas do centro de Londres eram inadmissíveis em plena civilização.

Então, a impressão original de que que a mulher padecia de algum transtorno mental ganhou consistência, e, como este era o único modo de contornar a dificuldade satisfatoriamente, ele obstinadamente induziu a sua mente a acreditar que a mulher estava mesmo louca.

 

Na sua parte mais afastada da grande cidade, Walworth é um lugar isolado e miserável, mesmo atualmente. No princípio deste século era nada menos que um deserto habitado por gente de caráter duvidoso, a quem a indigência impedia de viver em melhor local, ou que, pelos seus intentos e modos de vida, preferia o isolamento. Quase todas as casas que se veem agora dos dois lados da estrada não existiam nesse tempo, e as que se encontravam dispersas, espaçadas a distâncias irregulares, apesentavam o aspecto mais grotesco e repelente que se pode imaginar.

A aparência dos caminhos e becos que teve de atravessar naquela manhã não foi concebida para elevar o espírito do jovem médico, ou para afastar qualquer sentimento de ansiedade ou depressão que a singular natureza da visita, que estava prestes a realizar, lhe houvesse despertado.

Saindo da estrada principal, meteu-se numa espécie de pântano, por caminhos estreitos, interrompidos de quando em quando por alguma choça que caía em ruínas, deixada ao abandono. Uma árvore raquítica, um lamaçal de águas estagnadas, com a lama agitada pela chuva da véspera, dava por vezes diversão ao quadro.  De quando em quando, um bocado de jardim miserável, onde algumas tábuas podres, pregadas de qualquer modo, fingiam um caramanchão, e paliçadas velhas, reforçadas o melhor possível com estacas roubadas de cercas próximas, atestavam a extrema indigência dos habitantes e o eu pouco escrúpulo em se apossarem do alheio.  Por vezes, apresentava-se uma mulher de aspecto sórdido à aporta de sua casa abjeta, despejando na valeta o conteúdo de algum utensílio de cozinha, ou cobrindo de injúrias uma mocinha de sapatos acalcanhados que conseguira afastar-se alguns passos levando ao colo uma criança amarelenta quase do tamanho dela. Mas era tudo quase a mesma coisa, e à proporção que avançava o mais que podia, rompendo o nevoeiro frio, o doutor tinha sempre diante dos olhos o mesmo horizonte sombrio e sinistro.

Depois de chafurdar na lama e nas imundícies, depois de ter feito uma infinidade de perguntas a respeito da situação exata do lugar que lhe haviam designado e ter obtido em troca outras tantas respostas contraditórias e que pouco o satisfizeram, o médico chegou finalmente em frente da casa que lhe fora informada como fim de seu itinerário.

Era uma construção pequena e baixa, de dois pavimentos e de aspecto tão desolado e desanimador como todas as outras que ele tinha visto no caminho. As janelas de cima tinham cortinas amarelas e do pavimento térreo tinham os postigos encostados, sem os fechos corridos. A casa era completamente isolada, e como estava no canto do beco estreito, não se via nenhuma outra habitação.

O doutor hesitou por alguns minutos e deu alguns passos para diante da casa antes de poder decidir-se a bater. É provável que o mais audaz dos meus leitores tivesse feito o mesmo. A polícia de Londres era então muito diferente do que é hoje. Os subúrbios eram completamente isolados naquela época, em que a fúria de construir e o progresso, bem como os melhoramentos da vida material, não tinham ainda começar a ligar estes pontos extremos da capital com seu centro e arredores imediatos. Walworth era nesse tempo, como muito daqueles arrabaldes, e talvez mais que nenhum deles, o refúgio e o covil de tudo o que na população havia mais de perigoso e depravado. As ruas, mesmo nos bairros mais animados de Londres, eram pouco iluminadas e os subúrbios como Walworth estavam inteiramente abandonados à guarda da lua e das estrelas. Havia, por conseguinte, pouca probabilidade de apanhar malfeitores, a não ser em flagrante delito, e dificilmente se conseguiria seguir-lhes o rastro até os seus covis. Os delitos multiplicavam-se naturalmente em razão direta da sua audácia e a certeza que tinham de estarem relativamente em perfeita segurança aumentava pela experiência de que disso faziam cotidianamente. Convém recordar também que o médico tinha passado algum tempo nos hospitais da capital e que, se as façanhas de Burke e Bishop não tinham ainda adquirido a sua horrível notoriedade, as suas observações pessoais podiam ter-lhe feito compreender o quanto era fácil cometer as atrocidades às quais o primeiro daqueles celerados deu o seu nome. Fossem quais fossem as reflexões que o fizessem hesitar, o caso é que ele hesitava. Mas como era moço e corajoso, aquela hesitação mal durou um instante. Retrocedeu e foi bater devagar à porta.

Ouviu-se uma espécie de cochichar, como se alguém, que estivesse ao fim do corredor, conversasse em voz baixa e às ocultas com outra pessoa parada no patamar de cima. A este tempo seguiu-se o de um par de botas arrastando-se pesadamente no chão.  Tiraram a tranca da porta e um homem alto, de cara desagradável, cabelos pretos e mais pálido – contou depois o doutor – que qualquer cadáver que ele tinha visto até então, apareceu.

– Entre, senhor – disse ele em voz baixa.

O doutor obedeceu, e o homem, depois de pôr novamente a tranca na porta, levou-o para um pequeno cômodo ao fim do corredor.

– Cheguei a tempo? – perguntou o médico.

– Muito cedo!

O doutor deu uma reviravolta, com um gesto de espanto, no qual se via a perturbação que ele não podia reprimir.

– Se quer vir por aqui – disse o homem, que percebera a agitação do visitante –, prometo-lhe que terá de esperar apenas cinco minutos.

O doutor entrou no cômodo. O homem fechou a porta e o deixou só.

Era uma saleta fria, mobiliada apenas com a mesa de pinho e duas cadeiras. O punhado de carvão que ardia num fogareiro tornava ainda mais sensível o contato da umidade que corria do alto das paredes e caía em largos sulcos.

A janela, que tinha os vidros quebrados e remendados em vários lugares, dava para um pequeno quintal cercado de muros baixos e quase inteiramente submergido. Não se ouvia ruído algum fora de casa. O médico sentou-se em frente ao fogo, esperando o resultado de sua primeira visita.

Não havia dez minutos que ele estava naquela posição quando se ouviu o rolar de uma carruagem, que parou junto à casa. Abriu-se a porta da rua. Houve troca de palavras em voz baixa, acompanhadas por um ruído de passos abafados no corredor e na escada, como se dois ou três homens levassem um corpo pesado para o quarto de cima. Alguns segundos depois, o ranger dos degraus deu a conhecer que os condutores, quer quem fossem, tinham cumprido o encargo e saíam da casa. Tornou a fechar-se a porta e o silêncio restabeleceu-se.

Passaram-se mais cinco minutos. O doutor estava decidido a procurar por toda a casa até encontrar alguém, mas a porta se abriu e a desconhecida, que ele havia visto na véspera, e que estava vestida exatamente da mesma forma, com o mesmo véu preto muito espesso sobre o rosto, fez-lhe o sinal para que se aproximasse.

A sua altura extraordinária e a obstinação do seu mutismo fizeram crer que por um momento ao doutor que fosse um homem disfarçado de mulher. Mas os soluços histéricos que saíam de debaixo do véu e aquela atitude convulsa provaram-lhe todo o absurdo de tal suposição. Acompanhou, portanto, a desconhecida.

Ela conduziu-o ao andar de cima e, quando chegou ao patamar, parou diante da porta, deixando-o entrar primeiro.

O quarto era mobiliado miseravelmente. Apenas tinha uma caixa de madeira, duas cadeiras e um leito sem cortinas, com a coberta remendada. A luz indecisa, passando através da cortina da janela que ele já vira da parte de fora, fazia tão indistintos os objetos e dava-lhes tons tão uniformes, que o doutor não reparou primeiro no que depois lhe saltou de repente aos olhos, quando a mulher, passando-lhe adiante com um movimento espavorido, se foi deitar de joelhos junto ao leito.

Ali estava estendida, embrulhada num pano e coberto com um lençol, uma forma humana rígida e aparentemente inanimada. A cabeça e a face, que eram de um homem, estavam descobertas. Uma ligadura passava-lhe pelo alto do crânio, pelo rosto e queixo, sob o qual se via o nó. Os olhos estavam fechados. O braço esquerdo descansava pesadamente ao longo do corpo. A desconhecida segurava-lhe a mão inerte.

O doutor afastou brandamente a mulher e pegou naquela mão.

– Meu Deus! – exclamou ele, deixando-a cair involuntariamente. – Este homem está morto!

A mulher levantou-se e juntou as mãos.

– Oh, não diga isto! – exclamou ela com um ímpeto frenético. Não posso, não quero acreditar! Há pessoas que voltaram à vida depois de terem sido dadas por mortas. Outras morrem à falta do emprego de meios eficazes para salvá-las. Oh, não o deixe aqui sem ter feito um esforço para arrancá-lo dos braços da morte. Ainda deve haver um sopro de vida.  Tente, doutor. Tente, pelo amor de Deus!

Enquanto falava, ia friccionando vivamente, com ardor, a testa e o peito do homem inanimado. Dava-lhe grande pancadas, com uma espécie de selvageria, mas palmas das mãos glaciais que, quando ela deixava de as segurar, tornavam a cair, inertes e pesadas, cobre a coberta.

– Tudo isso é inútil – disse o doutor brandamente, retirando a mão que ela pusera sobre o coração do homem. Deixe-o... Espere! Afaste a cortina...

– Para quê? – disse a mulher, levantando-se em sobressalto.

– Afaste aquela cortina, já lhe disse – tornou o médico, com um tremor na voz.

– Deixei o quarto quase às escuras de propósito – disse ela, pondo-se diante do médico para impedi-lo de chegar à cortina.  – Oh, senhor, tenha dó de mim!  Se não há nenhum remédio, se ele realmente está morto, não o exponha à vista de outra pessoa.

– Este homem não morreu de morte natural – disse o médico. – Preciso examinar o corpo!

E, com um movimento tão repentino, que a mulher quase não percebeu, arrancou a cortina, fazendo penetrar viva luz no quarto, e voltou para junto do leito.

– Um ato de violência foi cometido aqui – disse ele, mostrando o cadáver e fitando os olhos no rosto da desconhecida que, no paroxismo do desespero, tinha retirado o chapéu e o véu e cravava agora os olhos no doutor.

Era uma mulher de cinquenta anos, que deveria ter sido outrora bela. Os desgostos e as lágrimas tinham-na deixado no rosto uns sinais que nem o tempo lhe poderia imprimir. O rosto era de palidez mortal. Os lábios agitavam-se nervosamente, contraindo-se. Os olhos tinham um brilho inexprimível, que provava que as suas faculdades físicas e intelectuais tinham sido esmagadas pelo peso de todas as misérias.

– Um ato de violência foi cometido aqui – repetiu o doutor, sem deixar de mergulhar nas pupilas da mulher o seu olhar investigador.

– É verdade! – respondeu ela.

– Este homem foi assassinado!

– É verdade – disse a mulher com exaltação. – Tomo Deus por testemunha! Assassinado covardemente, desapiedadamente, desumanamente assassinado!

– Por quem? – exclamou o doutor, segurando a mulher por um braço.

– Veja os sinais que o assassino deixou em seu corpo – respondeu a mulher.

O doutor olhou para o leito e inclinou-se para o cadáver, que estava naquele momento iluminado por um largo feixe de luz. O pescoço estava tumificado e tinha a marca lívida de uma corda a circundá-lo. A verdade irrompeu, como um relâmpago, no cérebro do doutor.

– É o homem que foi enforcado esta manhã! – exclamou ele, recuando com um estremecimento de horror.

– É verdade – respondeu a mulher num tom frio e quase indiferente.

– Quem é este homem? – interrogou médico.

– Meu filho! – replicou a mulher.

E caiu aos seus pés, desmaiada.

Dissera a verdade. O cúmplice fora absolvido, por falta de provas, e ele tinha sido julgado e executado.

Recordar aqui os pormenores deste caso, que já se passou há tanto tempo, seria inútil e não faria senão entristecer os meus leitores. Além do mais, a história lúgubre e sanguinolenta era das que se leem frequentemente nos jornais. A mãe era uma viúva pobre, sem amigos, sem recursos, que de tudo se privara para criar o órfão. Ele, insensível às súplicas da mãe, esquecido dos sacrifícios e sofrimentos que ela padecera por causa dele, das incessantes torturas do seu espírito, das mágoas de toda a espécie que aceitara unicamente para fazer dele um homem, da fome que tinha passado, entregara-se a todos os vícios e a todos os crimes. E o resultado daquele processo estava ali patente aos olhos do médico: o filho morto pela mão do carrasco e a mãe curvada ao peso da vergonha e irremediavelmente louca.

Por muitos anos após esta ocorrência, quando as árduas e rentáveis atividades teriam levado muitos homens a se esquecerem da existência daquele miserável ser, o jovem cirurgião visitou diariamente a louca e inofensiva mulher. Ele não somente apaziguava com a sua presença e bondade, como atenuava o rigor de sua situação com doações em dinheiro, realizadas com mãos generosas, para proporcionar-lhe arrimo e conforto.

Nos breves lampejos de lucidez que precederam a morte da mulher, elevaram-se, com um fervor jamais visto entre os mortais, dos lábios daquela pobre e desamparada criatura, súplicas em favor do bem-estar e proteção de seu benfeitor. Estas orações subiram aos céus e foram escutadas. Os caridosos gestos do médico foram retribuídos e multiplicados por mil. Mas, em meio a todas as honras proporcionadas pela posição e nível social, por ele tão bem merecidas, nenhuma reminiscência era mais gratificante ao seu coração que aquela evocada pelo Véu Negro.

 

Fonte: A Leitura, primeiro ano, tomo VI, 1894, José Bastos Livreiro-Editor e H. Lombaerts & Cia Livreiros-Editores, Lisboa/Rio de Janeiro.

Tradução de autor desconhecido do século XIX com a participação de Paulo Soriano.


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