SOBRE A ÁGUA - Conto de Horror - Guy de Maupassant



SOBRE A ÁGUA

Guy de Maupassant

(1850 – 1893)

No verão passado, aluguei uma casa de campo à margem do Sena, a algumas léguas de Paris, aonde ia dormir todas as noites. Depois de alguns dias, travei relações com um vizinho, homem de 30 a 40 anos, o tipo mais curioso que tenho conhecido. Era um velho remador, sujeito fanático, que não saía da água. Deve ter nascido numa canoa e com certeza há de morrer com os remos nas mãos.

Numa noite em que passeávamos à beira d’água, pedi-lhe que me contasse uma história de sua vida náutica. Imediatamente, o meu amigo animou-se, transfigurou-se, tornando-se eloquente, quase poético. Ele trazia no coração uma grande, uma aguda e irresistível paixão pelo rio.

—Ah — disse-me ele —, quantas coisas eu sei a respeito deste rio que corre junto a nós! Quem mora na cidade não sabe o que é o rio. Ouça, porém, um pescador que pronuncia esta palavra. Para ele, é uma coisa misteriosa, profunda, o lugar das miragens e das fantasmagorias, onde se veem, à noite, coisas que não existem, onde se ouvem rumores ignotos, ou se treme sem saber por quê, como quando se atravessa um cemitério. E, de fato, é o mais terrível cemitério, onde não existem túmulos.

Na sombra, quando não há lua, o rio não tem limites. O marinheiro não experimenta no mar a mesma sensação que o pescador no rio. O mar é grande, é leal: grita, uiva. O rio é silencioso e pérfido. Não tem vagas. Corre sempre sem rumor, e o eterno movimento da água que flui me apavora mais que as ondas do oceano.

Certos sonhadores pretendem que o mar esconde em seu seio grande cidades azuladas, onde os afogados turbilhonam entre grandes peixes, em meio a estranhas florestas e grutas de cristal. As profundezas do rio são escuras. Entretanto, ele é belo quando resplandece ao Sol e docemente murmura entre as margens cobertas de sussurrantes caniços.

Um poeta[1], falando do oceano, disse:

 

Oh, ondas, quantas lúgubres histórias conheceis!

Ondas profundas, temidas pelas mães ajoelhadas,

As histórias que a elas contais quando sobem as marés

E é o que fazem desesperadas as vozes

Que tendes à noite, quando chegais até nós.

 

Pois bem, eu creio que as histórias sussurradas pelos frágeis caniços devem ser mais sinistras do que os lúgubres dramas narrados pelo urro das ondas. Mas, como o senhor me pede alguma de minhas recordações, contar-lhe-ei um estranho caso que me sucedeu há cerca de dez anos.

Por esse tempo, eu morava, como ainda hoje moro, na casa da senhora Lafon, e um dos meus melhores colegas, Louis Benet, que depois renunciou ao esporte para entrar no Conselho do Estado, morava na aldeia de C., duas léguas abaixo. Jantávamos juntos todas as noites, um dia na casa dele, outro dia na minha.

Certa noite, em que eu voltava só, e muito cansado, remando com grande esforço, parei um pouco, fazendo a canoa encalhar. O tempo estava magnífico. Havia lua, o rio cintilava, o ar estava calmo e doce.

Aquela tranquilidade me tentou. Veio-me a vontade de fumar meu cachimbo. Lancei âncora.

A canoa ainda desceu um pouco, esticando a corrente, e parou. Acomodei-me como pude. Não se ouvia nada, nada. Só de vez em quando me parecia ouvir um barulhinho quase imperceptível da água contra o barranco, e então os maciços relvosos assumiam para mim formas surpreendentes, agitadas.

O rio estava perfeitamente tranquilo, mas eu me sentia comovido pelo extraordinário silêncio que me circundava. Todas as vozes noturnas dos pantanais haviam se calado pelas margens. De repente, à minha esquerda, uma rã coaxou. Estremeci. Como o barulho não se repetiu, pus-me a fumar. Conquanto eu estivesse acostumado a fumar, nessa noite o fumo me fez mal ao estômago. Comecei a cantarolar. A minha voz enfadou-me. Estirei-me, então, no fundo da canoa, contemplando o céu. Por algum tempo, permaneci calmo. Logo, porém, certos movimentos da barca me perturbaram. Parecia-me que ele oscilava de um modo extraordinário, até tocar ora uma e ora outra margem. Depois, eu tive a impressão de que um ser, ou uma força invisível, me arrastava para o fundo da água. Sentia-me apavorado como em meio a uma tempestade. Ouvia rumores vindos de todos os lados. De repente, ergui-me. A água brilhava. Tudo se achava calmo.

Compreendi o meu estado de nervos e decidi ir-me embora. Puxei a corrente. A canoa moveu-se, e depois senti uma resistência. Puxei com mais força e a âncora não cedeu: tinha-se enroscado em alguma coisa no fundo da água e eu não podia erguê-la. Tornei a puxar, mas inutilmente. Então, com os remos, empurrei a canoa rio acima, para mudar a posição da âncora. Em vão. Irritei-me e sacudi furiosamente a corrente. Nada se moveu. Sentei-me desencorajado e pus-me a refletir sobre a minha situação. Arrebentar a corrente era impossível. Arrancá-la da borda da canoa, também, porque estava segura num todo de madeira da grossura do meu braço. Entretanto, como o tempo continuava belíssimo, tinha a esperança que por ali passaria algum pescador, a quem chamaria em socorro. Esperei, pois, acalmando-me um pouco, e desta vez pude fumar. Trazia comigo uma garrafa de rum. Bebi dois ou três cálices, e a minha situação me fez rir. Fazia muito calor, de modo que não seria desagradável, na pior das hipóteses, passar a noite ao relento.

De repente, qualquer coisa bateu na quilha da canoa. Dei um salto e um suor frio gelou-me da cabeça aos pés. Com certeza, tinha sido algum pedaço de pau que dera de encontro ao fundo da embarcação. Mas fora o bastante para me lançar de novo numa estranha agitação nervosa. Agarrei a corrente e fiz um esforço desesperado para arrancar a âncora. Mas a âncora resistia sempre. Tornei a sentar-me, exausto.

No entanto, o rio fora se cobrindo aos poucos de uma névoa branca muito densa que tocava na água, de modo que, erguendo-me, não pude ver o rio, nem a canoa, nem os meus pés: distinguia apenas o cimo dos caniçais e, ao longe, palidamente iluminada pelo luar, a planície manchada de negro pelas árvores que se erguiam para o céu. Eu me achava como que sepultado até a cintura naquela névoa de estranha alvura. Vinham-me ideias fantásticas. Parecia-me que alguém que eu não reconhecia tentava subir para a barca, e que o rio, oculto pela névoa opaca, estava cheio de seres bizarros que nadavam em torno de mim. Experimentei um horrível desassossego e, com as têmporas opressas, o coração a bater-me violentamente, fora de mim, pensei em salvar-me a nado. Esta ideia, porém, me arrepiou. Vi-me perdido, joguete do acaso em meio da bruma, debatendo-me entre perigos que não podia evitar, gritando de medo, sem ver terra, sem encontrar o barco, e nunca aprendi tão bem como nessa noite a luta dos dois seres que vivem em nós, um que quer e o outro que resiste, e cada um dos quais ora vence, ora é vencido.

Aquele pavor brutal e inexplicável aumentava sempre e tornava-se terror. Fiquei imóvel, com os olhos esbugalhados e ouvindo à espreita, esperando. Esperando o quê? Não sei, não sabia, mas creio que era qualquer coisa de terrível. Creio que, se um peixe saltasse fora d’água, como acontece tantas vezes, eu cairia semimorto.

Todavia, graças a um violento esforço, acabei por dominar ao menos em parte a minha perturbação. Tomei de novo a garrafa de rum, sorvendo-o a grandes goles. Acudiu-me, então, uma ideia. Comecei a gritar com toda força, voltando-me para os quatro pontos cardeais. Quando não tinha mais fôlego, escutei. Um cão ladrava ao longe.

Bebi mais e deitei-me, estirado, no fundo da canoa. Fiquei assim talvez uma hora, talvez duas, sem dormir, com os olhos abertos, sentindo fantasmas em volta. Não tinha coragem de levantar-me, apesar de o desejar ardentemente: deixava de um minuto para o outro. E dizia com os meus botões: “Vamos, de pé!” e, ao mesmo tempo tinha medo de fazer o menor movimento. Finalmente, ergui-me, com infinitas precauções, como se a minha vida dependesse do mínimo barulho que eu fizesse. E alonguei o olhar por sobre as margens.

A névoa, que duas horas antes flutuava sobre a água, tinha-se pouco a pouco adensado nas margens, ao longo de cada qual formava uma colina contínua, de seis ou sete metros de altura, banhando de luar a sua alvura de neve. Entre duas montanhas brancas, o rio. Sobre a minha cabeça, lá no alto, brilhava a lua cheia num céu de turquesa esbranquiçada.

Todos os habitantes da água tinham despertado. As rãs coaxavam furiosas e, de momento em momento, eu ouvia a nota breve, monótona e triste que a voz metálica dos sapos lança às estrelas. Coisa estranha: passara-me o medo. Cercava-me uma paisagem tão extraordinária que nada podia me parecer estranho.

Quanto tampo durou isso, não o sei, porque acabei por adormecer. Quando reabri os olhos, o céu estava cheio de nuvens e a Lua, velada. A água murmurava lugubremente, ventava, fazia frio e a escuridão era profunda.

Bebi o último gole de rum que me restava, depois fiquei escutando a tremer o farfalhar da folhagem e o rumor sinistro do rio. Não enxergava o barco. Aproximei as mãos dos olhos: não as enxergava também.

Pouco a pouco, porém, a treva diminuía. De repente, pareceu-me sentir uma sombra passar por cima do meu corpo. Dei um grito. Uma voz respondeu-me. Era um pescador. Chamei-o. Ele se aproximou. Contei-lhe o que me acontecera. Então, ele trouxe o barco para junto do meu e puxamos juntos a corrente. A âncora não se moveu. A madrugada estava escura, cinzenta, chuvosa, glacial, anunciando um desses dias que trazem tristezas e dores. Avistei outro pescador. Chamado, ele veio unir aos nossos os seus esforços. Então, pouco a pouco, a âncora cedeu. Subiu, mas docemente, e carregada de um peso considerável. Finalmente, surgiu um fardo negro, que passamos para a barca.

Era o cadáver de uma velha mulher com uma grande pedra no pescoço.

 

Tradução de autor desconhecido.

Fonte: “O Pirralho”(SP), edição de  21 de dezembro 1912



[1] Victor Hugo (1802 – 1885). Os versos citados por Maupassant sãos os últimos do poema Oceano Nox, publicado em 1840: “O flots, que vous savez de lugubres histoires!/Flots profonds redoutés des mères à genoux!/Vous vous les racontez en montant les marées,/Et c'est ce qui vous fait ces voix désespérées/Que vous avez le soir quand vous venez vers nous!


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