VAMPIRO - Conto Clássico de Terror - Emília Pardo Bazán

 


VAMPIRO

Emília Pardo Bazán

Tradução de Paulo Soriano

(1851 – 1921)

 

Não se falava de outra coisa no país. E que milagre! Acontece todos os dias subir ao altar um setentão com uma menina de quinze anos?

Assim, ao pé da letra: Inesinha, sobrinha do padre de Gondelhe, tinha acabado de completar quinze anos e dois meses quando seu próprio tio, na igreja do santuário de Nossa Senhora do Chumbo — distante três léguas de Vila Morta — abençoou sua união com o Sr. Dom Fortunato Gaioso, setenta e sete anos e meio, segundo rezava a sua certidão de batismo.

A única exigência de Inesinha era casar-se no santuário. Era devota daquela Virgem e sempre usou o Escapulário de Chumbo, feito de flanela branca e seda azul. E como o noivo não podia — como haveria de poder, o pobrezinho! — subir a pé a encosta íngreme que, da estrada entre Cebre e Vila Morta, leva ao santuário de Chumbo, nem tampouco se sustentar a cavalo, pensou-se que dois fornidos mocetões de Gondelhe, feitos para carregar a enorme cesta de uvas nas vindimas, levariam Dom Fortunato, em cadeirinha de braços, até o templo. Um bom motivo para chacotas!

Porém, nos cassinos, boticas e outros círculos, digamos assim, em Vila Morta e Cebre, bem como nos átrios e sacristias das igrejas paroquiais, era preciso concordar que em Gondelhe caçavam-se amplamente baús, e que Inesinha havia tirado o prêmio principal. Quem era, vamos ver, Inesinha? Era uma menina fresca, cheia de vida, com olhos brilhantes e bochechas como rosas; mas — que demônio! — há tantas assim do Sil a Avieiro! Por outro lado, não existe outra fortuna como a de Dom Fortunato em toda a província. E esta seria bem ou mal adquirida, porque os que voltam do outro mundo com tantos milhares de dólares sabe Deus que história escondem entre as duas tampas da sua maleta; só que.... quem se mete a investigar a origem de uma fortuna? As fortunas são como o bom tempo: são desfrutadas e não se indagam as suas causas.

Constava, em referências muito autênticas e fidedignas, que o senhor Gaioso trouxera grande soma de dinheiro. Somente na agência do Banco de Áurea Velha deixou depositado, esperando a oportunidade de investir, cerca de dois milhões de reais (em Cebre e  Vila Morta ainda se conta em reais). Todos quantos fossem os pedaços de terra que se vendiam do país, Gaioso comprava-os, sem barganhar. Na mesma praça da Constituição de  Vila Morta, adquiriu um conjunto de três casas, demolindo-as e erguendo nos terrenos um novo e suntuoso edifício.

— Não bastariam a esse velho caduco sete palmos de terra? — perguntavam, entre zombeteiros e indignados, os frequentadores do cassino.

Imagine-se o que eles acrescentariam quando a estranha notícia do casamento se espalhasse, e quando soubessem que Dom Fortunato não apenas dotou esplendidamente a sobrinha do padre, como também a instituiu herdeira universal. Os berros dos parentes, mais ou menos próximos, do ricaço chegavam ao céu: falou-se de tribunais, loucura senil, confinamento em manicômio. Mas como Dom Fortunato, embora bem acabadinho e seco como uma passa, conservava intactas as suas faculdades, reflexionava e dirigia os seus negócios perfeitamente, foi preciso deixá-lo em paz, confiando o seu castigo à própria loucura.

O que não se pôde evitar foi a descomunal cencerrada[1]. Diante da casa nova, decorada e mobiliada prodigamente, onde os recém-casados já haviam se recolhido, reuniram-se, armados de frigideiras, caçarolas, potes, tripés, latas, corneta e apitos mais de quinhentos vândalos. Alvoroçaram o quanto quiseram sem que nada os detivesse. No prédio, não se entreabriu uma janela, não se filtrou uma luz pelas frestas. Cansados ​​e decepcionados, os pândegos retiraram-se para dormir. Embora estivessem preparados para burlar uma semana inteira, é certo que, já na noite de núpcias, deixaram em paz os noivos e a praça deserta.

Entrementes, dentro da bela mansão, abarrotada de ricos móveis e provida de tudo o quando o conforto e o bem-estar podem exigir, a noiva pensou que estava sonhando. Por pouco, a sós, sentiu-se capaz de dançar com prazer. O temor, mais instintivo do que racional, com que se dirigiu ao altar de Nossa Senhora do Chumbo, dissipou-se perante as doces e paternais reflexões do velho marido, que só pedia à sua terna esposa um pouco de carinho e de calor, os incessantes cuidados de que a velhice extrema necessita.

Agora Inesinha entendia o repetido "Não tenha medo, sua boba", o "Case-se em paz", de seu tio, o pároco de Gondelhe. Era um ofício piedoso, era um papel de enfermeira e filha que lhe cabia desempenhar por algum tempo, talvez por muito pouco. A prova de que ela continuava menina eram as duas bonecas enormes, vestidas de seda e renda, que encontrou na penteadeira, muito sérias, com caras de bobas, sentadas no canapé de cetim. Ali não se concebia, nem em hipótese, nem por sonho, que pudessem vir outras crianças além daquelas de fina porcelana.

Cuidar do velhinho. Ora, isto sim é o que faria de muito bom grado Inês. Dia e noite — principalmente à noite, que era quando ele precisava, ao seu lado, colado ao seu corpo, de um doce abrigo — ela se comprometia a atendê-lo, a não o abandonar um minuto. Pobre senhor! Ele era tão simpático e já tinha o pé direito na cova! O coração de Inesinha comoveu-se: por não ter conhecido pai, imaginou que Deus lhe concedera outro. Ela se comportaria como uma filha, e mais ainda, porque as filhas não prestam cuidados tão íntimos, não oferecem seu calor juvenil, os cálidos eflúvios de seu corpo; e nisto justamente acreditava Dom Fortunato encontrar algum remédio à decrepitude.

— O que tenho é frio — repetia —, muito frio, minha querida. A neve de tantos anos coalhada nas veias. Eu te procurei como quem buscava o Sol. Eu me encosto a ti como se me encostasse a uma chama benfazeja em pleno inverno. Aproxima-te, dá-me os teus braços; senão, tiritarei e ficarei gelado imediatamente. Por Deus, mantém-me aquecido. Nada mais te peço.

O que o velho calava, o que  se mantinha em segredo entre ele e o especialista curandeiro inglês, a quem consultara como último recurso, era a convicção de que, quando posta em contato a sua ancianidade com a fresca primavera de Inesinha, ocorreria uma misteriosa troca. Se as energias vitais da moça, flor de sua robustez, sua intacta provisão de forças deveriam reanimar Dom Fortunato, a decrepitude e o cansaço do ancião lhe seriam comunicados, transmitidos para a jovem pela mistura e troca de hálitos, recolhendo o velho uma aura viva, ardente e pura, e absorvendo a donzela um vapor sepulcral. Sabia Gaioso que Inesinha era a vítima, a ovelha levada para o matadouro; e com o feroz egoísmo dos últimos anos de existência, nos quais tudo se sacrifica no afã de prolongá-la, mesmo que apenas por horas, ele não sentiu nenhuma nesga de compaixão.

Agarrava-se a Inês, absorvendo sua saudável respiração, seu hálito perfumado, delicioso, aprisionado na urna de cristal de seus dentes brancos. Aquele era o derradeiro licor, generoso e caro, que comprara, e que bebia para manter-se vivo. E acreditava-se que, fazendo uma incisão no pescoço da menina, e sugando-lhe o sangue da veia, ele rejuvenesceria... Sentia-se ele capaz de fazê-lo? Ora, ele não pagou pela moça? Bem, Inês era dele.

Grande foi o espanto de  Vila Morta — maior ainda do que o causado pelo casamento — quando notaram que Dom Fortunato, cujo sepultamento prognosticavam para oito dias, dava sinais de melhoras, até mesmo de rejuvenescimento. Já saía a pé um pouquinho, apoiado primeiro no braço da esposa, depois na bengala, a cada passo mais esguio, com menos tremores nas pernas. Dois ou três meses depois de casado, ele se permitiu ir ao cassino e, depois de meio ano — oh, que maravilha! —, jogou sua partida de bilhar, tirou a sobrecasaca, feito um jovem. Dir-se-ia que lhe inflavam a pele, que lhe injetavam sumos: as faces perdiam as rugas profundas, a sua cabeça se erguia, os olhos já não eram os olhos mortos que se acrescentavam ao crânio. E o médico de  Vila Morta, o famoso Tropiezo, repetia com uma espécie de cômico terror:

— Que os diabos me levem se não termos aqui um centenário daqueles de que falam os jornais.

O mesmo Tropiezo teve que assistir Inesinha em sua longa e lenta enfermidade. Ela morreu — coitadinha de menina! — antes de completar vinte anos. Febre héctica, algo que expressava da maneira mais significativa a ruína de um organismo que dera o seu capital a outrem.

Um bom enterro e um bom mausoléu não faltaram para a sobrinha do padre; mas Dom Fortunato está procurando uma noiva. Desta vez, ou ele sai da aldeia ou a cencerrada termina por  incendiar-lhe a casa e por arrastá-lo à rua para morrer de uma  tremenda sova. Essas coisas não se toleram duas vezes! E Dom Fortunato sorri, mascando com os dentes postiços a ponta de um charuto.

 



[1] A cencerrada era uma manifestação popular burlesca, consistente em barulhentas algazarras, feitas com cencerros (chocalhos de animais que servem de guias para as outras reses), buzinas, panelas e outros apetrechos ruidosos para perturbar o viúvo na primeira noite de núpcias. 


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