O ESPÍRITO DE DOURDANS - Narrativa Clássica Sobrenatural - Vidi e Charles Nodier

 


O ESPÍRITO DE DOURDANS

Vidi (séculos XVII e XVIII) e Charles Nodier (1780 – 1844)

 

O senhor Vidi, coletor de impostos em Dourdans, escreveu a um de seus amigos a história de uma singular aparição que ocorreu em sua casa, no ano de 1700. Esta carta foi conservada pelo senhor Barré, auditor de contas, e publicada por Lenglet-Dufresnoy em sua Coleção de Dissertações sobre Aparições. A carta é a seguinte:

 

“Para satisfazer a sua curiosidade, envio-lhe, senhor, por esta carta, um relato preciso e confiável do que aconteceu à minha criada na casa onde permaneci antes e depois da Páscoa do presente ano de 1700.

O espírito começou a fazer ruído num cômodo não muito distante de onde alojamos os serviçais doentes. Nossa criada ouviu várias vezes suspiros semelhantes aos de alguém que sofre; no entanto, ela não viu ou sentiu nada.

Infelizmente, ela adoeceu. Cuidamos dela durante seis meses e, quando estava convalescente, a enviamos à casa de sua família, para que respirasse o ar de sua terra natal. Ali permaneceu por cerca de um mês. Durante esse tempo, não viu ou ouviu nada de extraordinário. De lá voltou com boa saúde, mas fizemo-la dormir num cômodo próximo ao nosso. Ela queixou-se de que ouvia ruídos e, dois ou três dias depois, quando estava no lenheiro, aonde fora buscar madeira, sentiu-se puxada pela saia. Depois do jantar desse mesmo dia, minha mulher a enviou à novena. Quando saía da igreja, sentiu que o espírito a subjugava com uma força tal que não conseguia sequer avançar. Uma hora depois, voltou a casa e, ao dirigir-se aos nossos aposentos, foi puxada com tanta força que minha mulher ouviu o barulho. E, chegando a jovem ao nosso quarto, pudemos ver que os prendedores de sua saia estavam rompidos. Ao ver este prodígio, minha mulher tremeu de medo.

No domingo seguinte, durante à noite, a jovem ouviu passos no quarto e, um pouco depois, o espírito deitou-se ao lado dela, passando uma mão muito fria em seu rosto, como se para acariciá-la. Então, a jovem tirou do bolso o rosário e o colocou no pescoço. Alguns dias antes havíamos dito a ela que, se continuasse a ouvir os ruídos, conjurasse o espírito em nome de Deus para que lhe revelasse o que desejava. Ela fez mentalmente o que lhe havíamos recomendado, pois o terror excessivo deixara-a sem fala. Ouviu, então, o resmungo de sons inarticulados.

Entre as três ou quatro horas da manhã, o espírito provocou um estrondo tão grande que parecia que a casa desmoronava. O barulho acordou-nos a todos ao mesmo tempo. Chamei uma empregada para ver o que havia acontecido, pensando que a criada que havia produzido aquele estrépito em razão do medo que sentia. A empregada encontrou-a empapada de suor. A moça quis vestir-se, mas não encontrou as meias. E neste estado entrou em nosso quarto. Vi uma espécie de bruma ou fumaça densa que a seguia e que desaparecia logo depois. Nós a aconselhamos a vestir-se e a se confessar e comungar quando soasse a missa das cinco. Foi novamente buscar as meias, que encontrou num buraco da cama, na parte mais alta do dossel. Recolheu-as com a ajuda de um bastão. O espírito também havia arrastado os sapatos para a janela.

Quando se recuperou do espanto, foi confessar-se e comungar. Assim que voltou, perguntei o que havia visto. Ela me disse que, ao se aproximar do altar para tomar a comunhão, viu muito perto de si a sua mãe, que havia morrido há doze anos. Depois da comunhão, retirara-se a uma capela onde, mal havia entrado, a mãe se pôs de joelhos à sua frente e lhe tomou as mãos, dizendo-lhe:

— Minha filha, não tenhas medo; sou eu, tua mãe. Teu irmão se queimou por acidente quando eu me encontrava no forno de Ban de Oisonville, próximo a Estampe. Em seguida, fui procurar pároco de Garancières, que vivia santamente, para que me impusesse uma penitência, pois eu pensava que era culpada por aquela desgraça. Ele me respondeu que eu tinha culpa alguma e me enviou a Chartres, ao presbítero penitenciário. Fui encontrá-lo, e como eu me obstinava em pedir-lhe uma penitência, ele me impôs uma, que consistia em levar um cinturão de crina de cavalo durante dois anos. Não pude cumprir tal penitência por causa da gravidez e outras enfermidades, e como morri grávida, sem a ter cumprido a penitência, rogo-lhe que a cumpra por mim...

A filha assim o prometeu. A mãe a encarregou, ademais, de jejuar a pão e água durante quatro sextas-feiras e sábados, pagar ao armarinheiro Lânier vinte e seis quartos que lhe devia pela compra de um novelo, e que fosse ao porão da casa onde havia morrido.

— Lá encontrarás – disse — a soma de sete libras que escondi debaixo do terceiro degrau. Faz, também, uma viagem a Chartres, para ver a boa Nossa Senhora, a quem rezarás por mim. Voltarei a falar contigo mais uma vez.

Continuando, deu conselhos à filha: disse-lhe sobretudo que rezasse à Santa Virgem, que Deus não lhe negaria nada e que as penitências deste mundo eram fáceis de cumprir, mas a do outro mundo eram muito duras. No dia seguinte, a criada mandou rezar uma missa, durante a qual o espírito agitava-lhe o rosário. Nesse mesmo dia, passou-lhe também a mão pelo braço, como se para acariciá-la. Durante dois dias seguidos, a moça a viu ao seu lado.

Achei necessário que ela realizasse o mais rápido possível o que a mãe a havia encarregado de cumprir. Por isso, na primeira oportunidade, mandei-a a Gomberville, onde encomendou uma missa, pagou os vinte e seis quartos, que sua mãe efetivamente devia, e encontrou as sete libras sob o terceiro degrau do sótão. De lá seguiu a Chartres, onde encomendou três missas, confessou-se e comungou na capela. Quando saiu, sua mãe apareceu-lhe pela última vez, dizendo-lhe:

— Minha filha, como estás disposta a fazer tudo o que te pedi, eu me libero deste fardo, que tu hás de suportar em meu lugar. Adeus: vou à glória eterna.

Desde então, a moça não viu nem ouviu nada. Ela usa o cinto de crina de cavalo noite e dia; e assim o fará durante os dois anos recomendados por sua mãe.

Eis, senhor, como terminou a história do espírito do qual fui testemunha ocular. Esteja convencido de que a ela eu nada acrescentei.

 

Dourdans, 5 de dezembro de 1700”.

 

Versão em português de Paulo Soriano.

Fontes: Infernaliana, de Charles Nodier e Recueil de Dissertations sur les apparitions, de Lenglet-Dufresnoy.


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