AS VAMPIRAS - Conto Clássico de Terror - Clemente Palma

 


AS VAMPIRAS

Clemente Palma

(1872 - 1946)

 

I

Houve um tempo em que fiquei extremamente magro. Meus braços e pernas tornaram-se desconsoladamente finos, e meu o peito, antes musculoso e forte, degenerou de tal forma que, sob a pele lívida e pegajosa, a estrutura óssea de meu tórax se desenhava claramente. Minha pobre mãe me dizia, desconsolada:

— Stanislas, meu filho, que mal misterioso é esse que te consome? Teu emagrecimento não é natural e requer um exame médico. Que dor te incomoda? O que sentes de anormal? Conta-me tudo. Que o receio de me causares sacrifícios não te detenha. Irás a Nice, ao Adriático, à Suíça, aonde for necessário, para recobrar a saúde e as forças perdidas. Temo, meu filho, que a tuberculose haja se apoderado de teus pulmões... No entanto, não te ouço tossir. É verdade que não tosses, luz de minh’alma?

Minha noiva, a pequena e esbelta Natalia, beijava minhas mãos desconsoladamente.

— Os teus lábios ardem, meu Stanislas, como se o Etna estivesse nas tuas entranhas e aquecesse a tua boca e o teu hálito. Por que essa febre que te mata, esse fogo que te consome a vida e evapora o teu sangue? Eu te daria o meu para regozijar os meus olhos com as cores que as tuas faces, cheias de frescor e encanto, ostentavam antes... É alguma preocupação que destrói o teu ser? Mas não... Tu conservas o teu espírito alegre e apaixonado. E ele, muito ingrato, se impacienta e zomba do testemunho dos nossos olhos amorosos! Estás doente, Stanislas. Estás gravemente doente e logo repousarás no sepulcro. A tua mãe morrerá de tristeza e eu de desespero...

E a pobre donzela se ajoelhava diante de mim e molhava minhas mãos com suas lágrimas. Eu a erguia brincando e fazendo pouco caso de seus terrores. Mas as duas mulheres insistiram tanto que, por fim, fiquei alarmado.

Na verdade, eu me via um pouco magro e nada mais. A jovialidade de meu caráter não havia desaparecido. Eu me sentia extenuando: um pouco fadigado e enfraquecido pela manhã, mas logo me recuperava, sentia-me novamente forte e ágil, tanto que  imaginava que, de uma altura formidável, poderia alcançar o céu, pegar o Sol, trazê-lo comigo, e com ele fazer um diadema que colocaria na fronte da minha pequena e esbelta Natalia.

— Mas se nada tenho, se não me acode nenhum sofrimento físico ou moral — disse às duas mulheres, quando, com voz lacrimosa, comentavam minha suposta enfermidade —, não vedes que a minha vida continua como sempre foi? Até mesmo alimento-me com melhor apetite e durmo mais profundamente. Não sinto dor alguma, e só podeis basear vossos temores na circunstância de eu estar agora mais pálido e magro... Bem, e daí? Há momentos em que homens e mulheres ficam um tanto abatidos. Tal pode ser porque, por circunstâncias desconhecidas, ocorra uma maior desassimilação orgânica. Então, deixai o meu corpo trabalhar. E, acima de tudo, ponde-me a salvo de vossos presságios e desconsolos que vão, realmente, me deixar doente...

Mas elas tanto fizeram, repito, que um dia, para comprazê-las, fui à cidade, onde estava o Dr. Max Bing, meu sábio e ainda jovem amigo.

— Fico infinitamente feliz em rever-te! — ele exclamou ao me ver entrar em seu consultório. E, depois, pondo os óculos e fixando seu olhar inquisidor em minha pessoa, fez um gesto incrível. — Homem! Que doença fez em ti tantos estragos? Estás com uma péssima aparência. Vejamos. Senta-te e me diz o que te traz. Vens como cliente ou como amigo?

— Em primeiro lugar, não estive doente, doutor. E creio que, pelo contrário, gozo de excelente saúde. Mas, apesar de estar saudável, venho ao senhor para que me diga o que é que eu tenho, embora eu esteja são.

— Bem, o teu aspecto é o de uma pessoa que esteve ou está gravemente doente. Entra em meu gabinete.

O médico examinou-me de diferentes maneiras e com diferentes aparelhos. Apalpou-me, colocou-me em várias posturas, auscultou-me e fez o que a sua ciência lhe indicava para descobrir o que me acontecia. Eu percebia que, a cada exame, o seu alarme crescia. Finalmente, com uma voz ligeiramente alterada, disse ele:

—Estás muito enganado, caro Stanislas, por pensares que estás saudável. És presa de uma consunção violenta que poderá ser fatal se não a atacarmos com rapidez e energia. O teu caso não é, certamente, o primeiro a chegar ao meu conhecimento, e todos os sintomas que observo fazem-me presumir que tu tens a enfermidade que matou Hansen, um belo e robusto jovem que morreu há dois meses. Sentes alguma dor insidiosa e contínua? Tens observado alguma anomalia funcional em teus órgãos? Sentes tonturas pela manhã, peso na cabeça, sono profundo ou entressonhos mortificantes?

O Dr. Bing falava num tom que se pretendia tranquilizador, mas notei que nele havia uma inquietação mal dissimulada. Ele me amava ternamente. As nossas famílias cultivavam uma leal amizade, e ele era um estudante de medicina quando eu ainda era criança, e mais de uma vez me teve em seus joelhos. O alarme do médico me causou um frio de morte nas veias: tive medo de morrer e pensei na minha mãe e na minha pequena Natalia. Tentei acalmar-me e disse ao médico o que já tinha dito tantas vezes: que sentia um ligeiro desvanecimento ao acordar, um esmorecimento que passava assim que bebia um grande copo de leite fervido no café da manhã. Depois, sentia-me ágil, todo o mal-estar desaparecia, comia com apetite e dormia profundamente. Quanto aos entressonhos, não me lembrava precisamente se os tinha, mas ficava-me alguma sombra de reminiscência de havê-los tido.

— São precisamente os sintomas que Hansen sentia — disse o médico, pensativo.

Em seguida, fez-me tirar a camisa e a camiseta e, com uma lente poderosa, examinou-me o pescoço e o peito.

— Exatamente igual a Hansen! — repetiu várias vezes, à medida que prosseguia em seu exame.

— Doutor! — exclamei, impaciente. —Não quero saber desse Sr. Hansen e pouco me importaria se ele ressuscitasse cem vezes e morresse outras tantas. Qualquer que tenha sido a doença que matou esse Hansen — tuberculose, hidrofobia, câncer ou meningite —, ele não foi o primeiro e não será o último.

— Ei, ei, jovem irascível! Se me lembro do pobre Hansen é porque ele tinha a mais estranha das enfermidades. A mais inverossímil  das causas— mas, também, a mais terrível — foi a que o levou à sepultura. E, certamente, amiguinho, terás o mesmo fim de Hansen se eu não me empenhar em tua defesa. Há apenas dois caminhos: ou te entregas incondicionalmente a mim ou te entregas à própria sorte.

— Tens razão, meu amigo. Eu não quero morrer e me entrego aos teus cuidados. Desculpa-me o desatino. Continua o teu exame e salva-me.

O médico continuou atentamente as suas observações, e nelas ficou tão absorvido que falava em voz baixa, como se conversasse consigo mesmo, à medida que encontrava, sob as suas lentes, indícios que chamavam a sua atenção:

—Sim, aqui estão os resquícios bastante esmaecidos de mordedura e sucção. Os poros se dilataram até um raio três vezes maior do que o normal. Oh, percebo, claramente, a profundidade desta ruptura vascular! A carótida está seriamente comprometida pela equimose causada por uma ventosa formidável. Que terrível e inútil desperdício de vida... Certamente, há outras perdas nervosas, migrações forçadas de fluxos de energia, aproveitados ou transformados em misteriosas regiões... Ah, malditas! Ah, insaciáveis! Felizmente, existe ainda uma grande reserva de força para a luta. Não é um caso perdido. Que grande força é a da personalidade!

Depois, voltando-se para mim, ordenou-me que me vestisse.

— Meu amigo, se tivesses adiado a tua visita por uma quinzena ou um mês, eu te garanto que tudo teria sido inútil, e que terias empreendido a grande viagem sem a sentir e sem dares conta disso. Estarias agonizando, verias a tua mãe em desespero, verias o pastor prestando-te os últimos auxílios, e acreditarias que tudo seria uma brincadeira de mal gosto, um pesadelo, uma loucura de teus sentidos. És um homem e posso dizer-te: és vítima de sortilégios misteriosos. Morres durante o sono e os teus inimigos atacam-no enquanto dormes. Ainda existem, neste século de luzes e de incredulidade, forças misteriosas, poderes ocultos, sobrevivência da energia, malignidades ativas de vontades secretas, radiações psíquicas desconhecidas, forças não estudadas, espíritos como se diz vulgarmente —, espíritos de mortos ou de vivos que operam, ferem, e até matam sorrateiramente. O raio de ação destas forças estranhas — a sua lei — ainda não ingressou no domínio da ciência oficial. São por ela negadas porque não são coisas verificáveis pelas leis científicas, pois não podem ser estudadas sob a lente do microscópio. E, no entanto, são coisas que existem, fenômenos que se realizam e que trazem consequências reais. Talvez tudo seja natural e racionalmente explicável dentro das leis biológicas e psíquicas conhecidas, e dentro das hipóteses aceitas, mas o que é certo é que ainda não restaram estabelecidos o mecanismo e a lei daquilo que, devido à sua aparência extranatural e maravilhosa, melhor corresponde à mitologia popular. Tu deves ter ouvido, entre os aldeões, mil histórias e lendas sobre súcubos e vampiros, e certamente riu-se delas. Bem, esses disparates, essas lendas de comadres, essas histórias de velhotes para assustar criancinhas são as que vieram a entrelaçar-se à vida de Hansen e o mataram; são as que, também, intervieram na tua vida e que te levariam a uma morte certa se eu não estivesse determinado a libertar-te delas com todo o esforço do meu carinho e dos meus estudos... Ainda amas Natalia? Sim, posso vê-lo nos teus olhos. Casa-te com ela o mais depressa possível. Acredita que isto contribuirá notavelmente para a nossa vitória. Não te assombres e nem me olhes com este ar de incredulidade. Eu sei o que digo. As mulheres idosas dizem que não há nada melhor do que o choro de uma criança para afugentar fantasmas e aparições. Tenho para mim que para afastar vampiras e súcubos não há nada melhor que um pimpolho de seis meses com o sangue de nossas veias.

Apesar da maneira meio brincalhona com que o médico me falava, senti que um frio de terror regelava os meus ossos e que uma palidez mortal aflorava em minha face.

—Ei, homem, não te alarmes! Eu me comprometo a arrancar de teu corpo essa obscura e sinistra consumição de vida. Por ora, tu comes comigo e dormes aqui. Escreve para a tua mãe e o meu empregado levará a tua carta. Visita a minha biblioteca, se quiseres, ou faz um passeio, se for de teu agrado. Ainda tenho que dedicar uma hora e meia aos meus clientes. Depois de escrever, toca a campainha e manda o meu empregado ir a cavalo à casa de tua mãe.

Enquanto o doutor atendia seus pacientes, procurei distrair-me de minhas dolorosas preocupações folheando os livros de sua biblioteca e vendo os seus estranhos e curiosos aparelhos. Mandei a carta à minha mãe e, quando já estava começando a entediar-me, o doutor entrou.

Conversamos um pouco e fomos para a sala de jantar em que,  apesar da ameaça de morte que pairava sobre minha cabeça, ataquei a comida com verdadeiro apetite. O médico riu muito disso.

— Essa fome que sentes é a desforra da natureza: é o afã vital do organismo para recuperar as forças exauridas; é a vida buscando o equilíbrio perdido pela ação perturbadora de poderes ocultos.

Quando terminamos de comer, supliquei a ele que me contasse o caso de Hansen, e ele o fez da seguinte maneira:

II

— Certa noite, já bem tarde, quando eu já me entregara ao sono há várias horas, a campainha tocou precipitadamente, anunciando um caso urgente. Ordenei ao mordomo que abrisse a porta e vesti imediatamente uma bata para receber o inoportuno cliente. Um jovenzinho pálido e lamuriento entrou e implorou-me de joelhos que acudisse imediatamente o seu irmão, que estava morrendo sem o meu auxílio. Eu o fiz entrar em meu dormitório e, enquanto eu me vestia, ele disse-me que, há vários meses, o seu irmão emagrecia, penosamente,  dia a dia. Vários médicos e curandeiros tinham-no examinado, e ninguém conseguia parar a devastação da misteriosa doença: todos haviam receitado poderosos tônicos e revigorantes, mas tudo fora em vão, porque a caquexia era progressiva e, o que é pior, o doente não sentia qualquer desconforto ou dor que pudesse orientar os médicos.

“Naquela noite, ouviram um ruído no quarto de Hansen, e a mãe, temendo algum acidente, entrou no quarto e encontrou o jovem agitado, inchado, banhado de suor, e com uma pequena ferida no peito. Acordaram-no. A sua fraqueza era tal que ele não conseguia falar. A família de Hansen morava no campo, naquela bela quinta cujo bosque de tílias corta o caminho que liga a cidade à tua casa. Dispensei o jovem, assegurando-lhe que iria tão logo o meu cavalo fosse selado. Assim o fiz e, no caminho, pensei ter ouvido gritos e uivos estranhos, e presumi que partiam de lobos a devorar alguma ovelha desgarrada num bosque vizinho. Também julguei que o meu cavalo quisera empinar-se e que estremecia, como se mãos invisíveis o mortificassem e lhe impusessem obstáculos. Atribuí toda esta agitação à irascibilidade do animal, aborrecido com este trote noturno. Cheguei à quinta e fui levado por várias mulheres desconsoladas ao quarto do doente. Encontrei um jovem sumamente emaciado e pálido, que parecia estar dormindo ou desfalecido. Depois de examiná-lo, vi que tinha manchas vermelhas no pescoço e no peito e, neste, havia uma que sangrava ligeiramente. Examinando-a, imediatamente inferi que eram o resultado de uma sucção brutal. Mais de uma vez, eu tivera a ocasião de encontrar, nos hospitais, homens e mulheres que tinham sido sugados, em virtude daquele sadismo selvagem em que, em certos temperamentos grosseiros,  o amor degenera.  Não é raro que o amor e os instintos sanguinários e ferozes evoluam paralelamente; e, em muitas espécies animais, o amor é o antecedente da morte, ou melhor, esta é a consequência daquele.

“Como era natural supor, aquelas manchas de Hansen tinham alguma origem, e isso, talvez, pudesse me orientar quanto às causas do estado de coma e do enfraquecimento geral do pobre rapaz. Era o que eu precisava averiguar em primeiro lugar. Roguei à senhora que fizesse sair as suas filhas e o jovem que veio me procurar. Uma vez a sós, disse-lhe:

“— Senhora, o seu filho dá sinais de ter sido sugado por alguém que esteve com ele, aqui ou fora da quinta. Oh, senhora, compreendo a sua surpresa! Há coisas que a senhora ignora, que uma alma singela não pode conceber e que não é nobre descobrir. No entanto, devo preveni-la daquilo que observo em volta de seu filho: sinto a pérfida influência de algum ente maligno. Diga-me, então, se outras pessoas vivem aqui, além da senhora e seus filhos.

“— Meu marido, ausente por algumas semanas, a empregada de minhas filhas e mais dois velhos criados.

“— A senhora põe fé na moralidade da empregada?

 “— Oh, sim, senhor! Fé absoluta...

“— É confiar demais, senhora ... Perdoe-me esse questionamento sobre a privacidade do seu lar, mas acredite que eu preciso inteirar-me de certas coisas para diagnosticar a doença do seu jovem filho e determinar o tratamento. Diga-me se o jovem Hansen é dado a... amores passageiros, passatempos galantes... Vamos, diga-me se ele comete certas imprudências, como a maioria dos jovens de sua idade. Se bebe, se chega tarde e quais são os seus costumes.

“— Hansen vive apenas para a noiva, assim como ela vive apenas para ele. Não sei se ele comete as imprudências a que o senhor alude. Mas creio que não, porque todo o tempo é muito curto para que ele visite a sua Alicia. De manhã, caminha, na companhia de Alicia, com seus irmãos; de tarde, substitui o irmão no cuidado da plantação; de noite, ele volta para a noiva. Previno o senhor de que esses encontros se dão sempre na presença de meus filhos ou dos pais e irmãos de Alicia. Às dez horas da noite, Hansen vai para a cama.

“— Uma última pergunta, senhora: tem certeza de que, depois dessa hora, ninguém se encontra com Hansen e que o jovem não sai furtivamente de casa? Não me esconda nada, senhora, porque, apesar dos bons informes que me dá, posso assegurar-lhe que algo misterioso está acontecendo à noite. Algo que está matando o seu filho.

“A senhora, chorando, me garantiu a moralidade do filho, que a porta se fechava assim que Hansen chegava, que a empregada dormia no quarto contíguo ao das filhas, que o cão dormia junto ao quarto de Hansen.  E tanta certeza me deu que vacilei no conceito que havia formado sobre as causas do definhamento do jovem enfermo.

“Ministrei a Hansen um tônico enérgico e ele logo acordou. Seu rosto expressava um grande assombro.

“— O que está acontecendo, mãe?" Por que me rodeias?

“Tomei o braço esquerdo do jovem e mostrei-lhe uma das manchas avermelhadas que cruzavam uma artéria; perguntei, olhando para ele.

“— Quem fez isto? E esta... contusão no pescoço? E esta, no peito?

“Hansen parecia perplexo com minhas perguntas. Depois, como quem lembra, ele respondeu:

“— Ah sim, sim... Eu já tinha observado isso nas manhãs, ao banhar-me. Mas, como não me causavam dor ou desconforto, não voltei a me lembrar dessas manchas.

“E, percebendo o desânimo e tristeza de sua mãe, ele se sentou na cama:

“— Acaso é algo sério, doutor? Será varíola? E quanto a Alicia? Não deixe que Alícia venha aqui.

“Tão sincera era a sua ignorância e tão notável era o tom de sua voz que não me restou dúvida de que Hansen não era minimamente responsável pelo seu mal.

“Depois de conversar um pouco com Hansen e sua mãe, despedi-me. Prescrevi um regime restaurador. Mandei que fechassem bem uma janela alta, que estava entreaberta, e ordenei à senhora que vigiasse cuidadosamente o sono do jovem. Prometi voltar no dia seguinte.

“Ao sair e montar o meu cavalo, notei que o animal estava assustadíssimo. Em muitos lugares, ao longo do caminho, percebi uivos e gritos distantes de mulheres, e em duas ou três ocasiões ouvi algo como o zumbido de pedras, atiradas por mãos invisíveis contra mim. Por muito tempo, já na cama, meditei sobre o estranho caso do jovem Hansen.

“No dia seguinte, às primeiras horas da noite, fui ver meu paciente. Seu semblante estava melhor. A senhora disse-me que, seguindo a minha orientação, tinha velado o sono do filho e que constantemente tinha de se levantar para fechar hermeticamente a janela do quarto, porque o ar, com uma fúria invulgar, lhe tinha empurrado as folhas. Mas, naquela noite, não houvera vento!

“Às nove, pus o jovem Hansen para dormir na minha presença. Mandei que lhe dessem leite, ovos crus e uma taça de vinho do Porto. Pouco depois, ele adormeceu. Então, pendurei paralelamente ao seu leito uma cortina preta que havia levado, apaguei a luz, abri um pouco a janela e me escondi num canto bem escuro, atrás de alguns móveis, para observar meu paciente. Mais de duas horas se passaram. Nenhum som chegava aos meus ouvidos além da tranquila respiração de Hansen, o canto dos galos da vizinhança e o mugido das vacas da quinta. Eu ouvi soar as doze horas em um relógio cuco. Esperei mais.

“De repente, ouvi vozes de mulheres que, à distância, mesclavam-se a uivos. Levantei furtivamente a cabeça para a janela. Vi uma nuvem informe que se agitava entre as barras, uma espécie de redemoinho de linhas tênues, de formas vagas e desfeitas, de corpos aéreos indecisos. Aos poucos, tudo foi se definindo, os ruídos se converteram em sussurros e as formas vagas se condensando em corpos de mulheres. Como aves carniceiras, elas se deixaram cair sobre os armários e os móveis. Eram mulheres brancas com feições nervosas e cínicas. Seus olhos eram amarelos e fosforescentes como os de corujas; os lábios — de um vermelho sangrento — eram carnudos e, atrás deles, contraídos em sorrisos perversos, se viam pequenos dentes, afiados e brancos como os de ratazanas. Os corpos dessas mulheres tinham o brilho oleoso de superfícies envernizadas e a transparência leitosa de opala. A primeira a descer precipitou-se, ansiosa, sobre o jovem adormecido e o beijou raivosamente na boca; depois, com uma contração infame dos lábios, tomou o lábio inferior de Hansen entre os dentes e o mordeu suavemente. Pôs-se, então, a sugar-lhe o sangue, enquanto o seu corpo se agitava diabolicamente e os seus olhos emitiam um fulgor esverdeado que iluminava o rosto do homem adormecido.

“Mais outras duas desceram: pareciam famintas de sangue e prazer. Uma se apoderou de uma orelha, outra sentou-se no chão e, com a ponta da língua, que devia ser áspera como a dos felinos, começou a acariciar a plantas dos pés de Hansen, que se contraíram, como se eletrificados. Outra, sinistramente bela, ajoelhou-se na cama e, com a espinha dorsal encurvada, com os cabelos lançados sobre a testa, aderiu sua boca ao peito de Hansen: parecia uma hiena devorando um cadáver. Todo o corpo do jovem se retorceu de um desespero louco, que poderia ser tanto a contração de um prazer agudo ou a de uma dor violenta: ele agitava-se com a inconsciência de um pedaço de carne posto em brasas. E outras e mais outras, diabólicas, belas, perversas, desceram da janela e aderiram as suas cabeças a diferentes partes do corpo de Hansen. Os corpos opalinos daquelas malditas mulheres se destacavam contra o tecido preto com toda a precisão. Vi passar gota a gota o sangue sugado por aquelas bocas infernais, via correr o sangue pálido por suas veias, subir-lhe aos rostos e colorir aquelas faces lívidas de um tênue rosa... O terror me paralisou e meus esforços para gritar foram em vão. Cinco ou dez minutos depois daquela horripilante cena de vampirismo, recuperei-me um pouco: dei um salto brusco, como molas em meu corpo tivessem sido repentinamente liberadas de um obstáculo que lhes impedia a distensão. As vampiras fugiram dando uivos tão terríveis que os meus cabelos se eriçaram.

“Com um salto — ou voo —, elas correram para a janela e escaparam aos gritos.

“A porta se abriu e a mãe de Hansen entrou apavorada, meio vestida. O uivo distante daquelas mulheres sinistras ainda podia ser escutado.

“— O que foi isso? — ela perguntou, tremendo de terror e pálida como um cadáver.

“— Senhora, eles são as vampiras, que há um bom tempo estão assassinando o seu filho. Quando se viram surpreendias em sua infame atividade, elas fugiram.

“A mãe de Hansen desmaiou de terror. Quando voltou a si, ajoelhou-se aos meus pés e, tomando as minhas mãos, disse:

“— Salve meu filho, doutor! Salve-o do poder dessas fúrias infernais. A minha vida, a do meu marido, dos meus filhos, será consagrada ao seu serviço; a nossa fortuna será sua, doutor...

“Prometi à senhora esgotar os recursos da ciência para salvar Hansen. Mas já era tarde. Todo o meu esforço foi inútil. Dois dias depois, morreu o pobre rapaz, alegre, sem perceber que fenecia, acreditando-se saudável, assim como tu mesmo acreditaste, meu amigo. Um dado: Hansen havia cortejado muitas mulheres antes de amar sua noiva. E muitas das belas aldeãs estavam morrendo de amor pelo galã que, nos últimos tempos, profundamente apaixonado por Alicia, as desprezava.”

III

No dia seguinte, minha mãe e a pequena Natália me esperavam cheias de ansiedade. Assim que cheguei em casa, notaram a melhora que eu havia experimentado, mas se alarmaram quando viram que um pensamento sombrio vagava pelos meus olhos. Eu as tranquilizei, assegurando-lhes que logo estaria saudável e forte com o tratamento que o médico me havia prescrito. A pequena e esbelta Natalia saltou aos em meus braços batendo palmas de alegria. Num momento em que estávamos a sós, ela beijou meus olhos com tanto fervor e amor que minhas carnes estremeceram... Era assim que as vampiras deveriam beijar!

Dormi a tarde inteira com a cabeça apoiada nos joelhos da minha noiva, que havia obtido da família a permissão para passar o dia em minha casa.

À noite, não conseguia dormir. Às três da manhã, eu tinha os olhos fechados, mas não dormia. De repente, ouvi pequenos ruídos, pequenos estalos e, em seguida, o deslizar de algo impalpável sobre o tapete. Meus cabelos se eriçaram de terror. Senti que o hálito quente e perfumado dos lábios de uma mulher acariciava minha têmpora, e uma voz silenciosa murmurava em meus ouvidos frases ardentes de amor, promessas de felicidade infinita. Senti, depois, que um corpo duro e ardente, que não pesava, se punha ao meu lado e que uns lábios se colavam ao meu pescoço. Louco de terror, levantei-me, dando um grito abafado. E, tentando agarrar e estrangular a maldita vampira, só consegui mordê-la no braço. E, como se em meus dentes e em minha língua eu tivesse os olhos e a consciência; como se alguma vez eu tivesse provado o seu sangue, tive — sem ver aquele corpo que fugiu ou desvaneceu — a sensação de que a carne que mordia era a da pequena e esguia Natália.

Durante toda a manhã, fui presa de preocupações. À tarde, quando visitei a minha noiva, implorei que ela me mostrasse o braço, na altura cotovelo. Alicia tinha uma lesão recente! Eu não averiguei mais nada. Afastei-me, abruptamente, de minha noiva e, a cavalo, fui ver o médico, a quem contei, com ar sombrio, o que me havia acontecido e participei a minha resolução de desmascarar aquela infame bruxa, que se dedicava a satisfazer seus ignóbeis instintos vampíricos e, fingindo devotar o mais apaixonado amor, estava me matando.

O médico me ouviu com profunda atenção, refletiu um pouco e depois riu:

— O que me contaste prova algo que sempre me preocupou constantemente. Não deves fazer juízos deprimentes sobre a tua noiva, que merece teu amor e respeito, porque ela é pura como os anjos. O que acontece é que, por ser pura, inocente e boa, não deixa ela de ser mulher e, como tal, tem imaginação, desejos, sonhos e aspirações à felicidade. Ela tem nervos, tem ardores e veemências naturais e, acima de tudo, ela te ama com aquele amor equilibrado das naturezas saudáveis. Foram os seus desejos, suas curiosidades de noiva, seu pensamento intenso sobre ti o que vieram procurá-lo na noite passada. Os pensamentos, em certos casos, podem exteriorizar-se, personalizar-se, isto é, viver e agir, por uma certa energia latente no inconsciente que os acompanha, como seres ativos, como entidades substantivas, como pessoas. Tudo isso é obra da força psíquica que tem um raio de ação infinito e cujas leis ainda são misteriosas. Se perguntas a tua noiva o que ela fazia ontem à noite, à hora em que tiveste a visão, ela responderá que pensava em ti, que sonhava contigo. Talvez nada disso, porque o fenômeno misterioso também se verifica na mais absoluta inconsciência, e, talvez, com mais força. Acredita em mim, Stanislas: o poder da personalidade humana é muito vasto. Agora, aqui está o regime terapêutico que te prescrevo: casa-te com a tua prometida. Casa-te hoje mesmo. Se não hoje, amanhã. E se não for amanhã, o mais rápido possível. Esse é o teu remédio. E... o da tua noiva.



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