O PADRE E O DIABO - Conto Clássico Fantástico - Fiódor Dostoiévski

 


O PADRE E O DIABO

Fiódor Dostoiévski

(1821 – 1881)

 

— Olá, padre gorducho! — disse o diabo disse ao sacerdote. — O que o faz mentir tanto àquela pobre gente enganada? Que torturas do inferno descreve para elas? Você não sabe que essas pessoas já estão sofrendo as torturas do inferno em suas vidas terrenas? Não sabe que você e as autoridades do Estado são meus representantes na Terra? Não é outro, senão você, que as faz padecer as torturas infernais com as suas ameaças. Não sabia disto? Bem, então, venha comigo!

O demônio agarrou o padre pelo colarinho, ergueu-o bem alto e carregou-o a uma fábrica, a uma fundição de ferro. O sacerdote viu os trabalhadores apressados, correndo de um lado para o outro, labutando penosamente no calor escaldante. Logo o ar espesso e pesado e o calor eram demais para o padre. Com lágrimas nos olhos, ele implorou ao diabo:

— Solte-me! Deixe-me sair deste inferno!

— Oh, meu caro amigo — disse o demônio —, devo ainda mostrar-lhe muitos outros lugares.

O diabo tomou o padre novamente e o arrastou a uma fazenda. Lá, ele viu trabalhadores debulhando os grãos. A poeira e o calor eram insuportáveis. O feitor carregava um pesado chicote de couro, com várias tiras, e açoitava sem misericórdia qualquer um que caísse no chão, vencido pelo trabalho árduo ou pela fome.

Em seguida, o padre foi levado para as choças onde aqueles mesmos camponeses viviam com suas famílias — buracos sujos, frios, enfumaçados e insalubres. O diabo sorria. Ele apontava a pobreza e a penúria que reinavam naquele lugar.

— Bem, já chega? — ele perguntou.

E parecia que até ele, o diabo, sentia pena daquelas pessoas.

O piedoso servo de Deus dificilmente poderia suportar aquilo. Com as mãos erguidas, ele implorava:

— Deixe-me ir embora daqui. Sim! Sim! Este é o inferno na Terra!

— Bem, agora você vê. E ainda lhes promete outro inferno. Você os atormenta, tortura-os mentalmente até a morte, quando já estão quase mortos fisicamente. Vamos! Vou lhe mostrar mais um inferno. Mais um, o pior.

Ele o levou a uma prisão e lhe mostrou um calabouço, com sua atmosfera fétida e as muitas formas humanas, privadas de toda a saúde e energia, deitadas no chão, cobertas de vermes que devoravam seus pobres corpos nus e macilentos.

— Tire as suas roupas de seda — disse o demônio ao sacerdote. — Ponha nos tornozelos pesadas correntes como essas, que esses pobres infelizes usam. Deite-se no chão frio e imundo e, depois, fale-lhes sobre o inferno que ainda os espera!

—Não, não! —respondeu o padre. — Não consigo imaginar nada mais terrível do que isto. Eu imploro, deixe-me ir embora daqui!

— Sim, este é o inferno. Não pode haver inferno pior do que este. Você não sabia disto? Não sabia que esses homens e mulheres, a quem você assusta com as imagens de um inferno no além... não sabia que eles já estão no verdadeiro inferno, bem aqui, antes de morrerem?

 

Versão em português (tradução indireta): Paulo Soriano

Ilustração: Francisco Goya (1749 -1838)


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