UM LOUCO - Conto Clássico de Loucura e Horror - Guy de Maupassant

 



UM LOUCO

Guy de Maupassant

Tradução de Paulo Soriano

 

Morrera como presidente de um tribunal superior. Havia sido um íntegro magistrado, cuja vida irrepreensível fora citada em todos os tribunais da França. Os advogados, os jovens conselheiros, os juízes, com uma profunda reverência, em sinal de imenso respeito, saudavam a sua grande figura branca e magra, iluminada por dois olhos profundos e brilhantes.

Passara a vida inteira perseguindo o crime e protegendo os desvalidos. Os bandidos e assassinos nunca haviam tido inimigo mais ferrenho, pois ele parecia ler, no fundo de suas almas, seus pensamentos secretos, e desvendar, num relance, todos os mistérios de suas intenções.

Morreu, assim, aos oitenta e dois anos, cercado por homenagens e acompanhado pelo lamento de todo um povo. Soldados de calças vermelhas o escoltaram até o túmulo e homens de gravatas brancas despejaram lágrimas e discursos lastimosos, que pareciam verdadeiros, sobre seu ataúde.

Muito bem: eis aqui estranho pedaço de papel que o notário, perplexo, descobriu na escrivaninha onde o magistrado costumava guardar os dossiês dos grandes criminosos.

Era intitulado:

 

 

POR QUÊ?

 

20 de junho de 1851 — Saio da sessão. Eu havia condenado Blondel à morte! Afinal, por que motivo aquele homem matara os seus cinco filhos? Por quê? Com frequência, encontramos essas pessoas para as quais destruir a vida é uma volúpia. Sim, sim, deve ser uma volúpia, talvez a maior de todas. Afinal, matar não é o que mais se assemelha a criar? Fazer e destruir! Essas duas palavras encerram a história dos universos, toda a história dos mundos, tudo o quanto existe, tudo! Por que matar é inebriante?

 

25 de junho — Pensar que existe um ser que vive, que caminha, que corre... Um ser? O que é um ser? Essa coisa animada, que traz em si o princípio do movimento e uma vontade que governa esse movimento! A nada essa coisa se liga. Seus pés não se prendem ao chão. É um grão de vida que se move sobre a terra; e esse grão de vida, cuja origem desconhecemos, podemos destruir como quisermos. Então, nada, nada mais. Apodrece, acaba.

 

26 de junho — Por que matar é crime? Sim, por quê? Ora, pelo contrário, o ato de matar segue a lei da natureza. A missão de todo ser é matar: ele mata para viver e mata por matar. — Matar está em nossa índole; matar é preciso! O animal mata sem parar, o dia todo, em qualquer momento de sua existência. — O homem mata sem parar para alimentar-se, mas, como também sente a necessidade de matar por prazer, inventou a caça! A criança mata os insetos que encontra; os passarinhos, todos os bichinhos que aparecem à sua frente. Mas isso não basta para satisfazer à necessidade avassaladora de massacre que existe dentro de nós. Não é bastante matar o animal; precisamos, também, matar o homem. No passado, satisfazia-se esta necessidade por meio de sacrifícios humanos. Hoje, a necessidade de viver em sociedade convolou o assassinato num crime. Condenamos e punimos o assassino! Mas, como não podemos ceder a esse instinto natural e imperioso de morte, nós nos aliviamos, de vez em quando, por meio de guerras, nas quais um povo inteiro mata outro povo. Produz-se, então, uma orgia de sangue, uma orgia em que os exércitos entram em pânico, e da qual ainda se embriagam os burgueses, as mulheres e as crianças, quando, à noite, leem, sob a lamparina, o relato exaltado dos massacres.

Pensam que desprezamos aqueles que estão destinados a realizar essa carnificina humana? Não. Nós os cobrimos de honrarias! Eles se vestem com ouro e tecidos deslumbrantes; usam penachos na cabeça, adornos no peito. E damos-lhes medalhas, recompensas e títulos de todas as espécies. Eles são orgulhosos, respeitados, amados pelas mulheres, aclamados pela multidão, somente porque a sua missão consiste em derramar sangue humano! Pelas ruas, eles arrastam seus instrumentos de morte, que o transeunte, vestido de luto, olha com inveja. Porque matar é a grande lei lançada pela natureza no coração do ser! Nada há de mais belo e honroso do que matar!

 

30 de junho — Matar é a lei, porque a natureza ama a eterna juventude. Ela parece gritar, através de todas as suas ações inconscientes: “Rápido! Rápido! Rápido!” Quanto mais destrói, mais ela se renova.

 

2 de julho — Ser. O que é o ser? Tudo e nada. Pelo pensamento, ele é o reflexo de tudo. Pela memória e pela ciência, ele é uma forma resumida do mundo, cuja história carrega dentro de si. Espelho das coisas e espelho dos fatos, cada ser humano se torna um pequeno universo no Universo!

Mas viaje. Observe as raças enxamearem, e o homem não é mais nada! Mais nada, nada! Entre num barco, afaste-se da costa apinhada de gente e em breve você não verá nada além da costa. O ser imperceptível desaparece, tão pequeno e insignificante que é. Atravesse a Europa em um trem rápido e olhe pela janela. Homens, homens, sempre homens, inúmeros, desconhecidos, que enxameiam nos campos, que enxameiam nas ruas; camponeses estúpidos que mal sabem revolver a terra; mulheres horríveis que só sabem preparar a sopa dos seus homens e dar à luz. Vá à Índia, vá à China, e ainda verá milhões de seres que nascem, vivem e morrem, sem deixar mais vestígios do que a formiga esmagada nas estradas. Vá à terra dos homens negros, recolhidos em cabanas de barro; ao país de árabes brancos, abrigados sob uma tenda marrom esvoaçante ao vento, e compreenderá que o ser isolado, determinado, não é nada, nada. Raça é tudo? O que é o ser, um ser qualquer de uma tribo nômade do deserto? E essas pessoas, que são sábias, não se inquietam com a morte. Para eles, o homem não importa. Mata-se o inimigo: isto é a guerra. Assim se fazia no passado, de castelo em castelo, de província em província.

Sim, viaje pelo mundo e observe o enxame de incontáveis ​​e desconhecidos seres humanos. Desconhecido? Ah! Aqui está a palavra do problema! Matar é crime porque enumeramos! Quando eles nascem, nós os registramos, damos-lhes um nome, batizamos. A lei os arrebata! É claro! O ser que não está registado não conta: mate-o na charneca ou no deserto, mate-o na montanha ou na planície, tanto faz! A natureza ama a morte; ela não pune!

O que é sagrado, por exemplo, é o registro civil! É claro! É ele que defende o homem. O ser é sagrado porque está inscrito no registro civil! Respeito ao estado civil, o Deus legal. De joelhos!

O Estado pode matar porque tem o direito de modificar o registro civil. Quando ele tem duzentos mil homens massacrados em uma guerra, basta excluí-los do registro civil, suprimi-los pelas mãos de seus serventuários. Pronto, está feito. Mas nós, que não podemos alterar os documentos escriturados nos cartórios, devemos respeitar a vida. Registro civil, gloriosa Divindade que reina nos templos das municipalidades, eu vos saúdo. Sois mais forte do que a Natureza. Ah! Ah!

 

3 de julho — Matar deve ser um estranho e delicioso prazer... ter bem ali, à sua frente, o ser vivo, pensante; fazer nele um pequeno furo, nada além de um pequeno furo, para ver fluir essa coisa vermelha, que é o sangue, que produz a vida, e ter diante de si não mais que um monte de carne mole, fria, inerte, vazia de pensamento!

 

5 de agosto — Eu, que passei minha vida julgando, condenando, matando por palavras pronunciadas, matando pela guilhotina aqueles que haviam matado pela faca... Eu! Eu!... Se eu agisse como todos os assassinos que eu — eu mesmo! — sancionei, quem ficaria sabendo?

 

10 de agosto — Quem ficaria sabendo? Alguém suspeitaria de mim, de mim — de mim! —, especialmente se eu escolhesse alguém que não tenho nenhum interesse em aniquilar?

 

15 de agosto — A tentação! A tentação entrou em mim como um verme rastejante. Ele rasteja, seguindo em frente; vagueia por todo o meu corpo, por minha mente, que somente pensa nisto: matar. Por meus olhos, que necessitam da contemplação do sangue, de ver outrem morrer; por meus ouvidos, que filtra constantemente algo desconhecido, horrível, comovente e enlouquecedor, como o último grito de um ser; pelas minhas pernas, na qual estremece a vontade de seguir, de ir para o lugar onde a coisa vai acontecer; por minhas mãos, que tremem com a necessidade de matar. Como deve ser bom, raro, digno de um homem livre, sobrejacente, dono de seu coração e que procura sensações refinadas!

 

22 de agosto — Eu não pude mais resistir. Matei um pequeno animal para ensaiar, para começar.

 

Jean, meu criado, tinha um pintassilgo em uma gaiola pendurada à janela do escritório. Mandei-o comprar alguma coisa e peguei o passarinho na minha mão, onde podia sentir pulsar o seu coração. Ele estava quente. Subi ao meu quarto. De vez em quando, eu o apertava com mais força; seu coração batia mais depressa; era atroz e delicioso. Quase o sufoquei. Mas, assim, eu não veria o sangue.

Então peguei uma tesoura — uma tesourinha de unhas — e, devagarinho, cortei sua garganta com três golpes. Ele abriu o bico, tentou fugir, mas eu o segurei. Oh, eu o segurei — eu teria segurado um mastim raivoso — e vi fluir o seu sangue. O quão era belo — vermelho, brilhante, límpido — aquele sangue! Eu sentia vontade de bebê-lo. Mergulhei nele a ponta da minha língua! Era bom. Mas tinha tão pouco sangue aquele pobre passarinho! Não tive tempo de gozar, como gostaria, dessa nova perspectiva. Deveria ser maravilhoso ver um touro sangrar.

E então agi como fazem os assassinos, os de verdade. Lavei a tesoura, lavei as mãos, joguei a água fora e levei ao jardim o corpo, o cadáver, para enterrá-lo. Enterrei-o sob um morangueiro. Jamais o encontrarão. Comerei, todos os dias, um morango daquela planta. Realmente, com se pode aproveitar a vida, quando se sabe!

Meu criado chorou; ele acredita que seu passarinho fugiu. Como poderia suspeitar de mim? Ah! ah!

 

25 de agosto — Devo matar um ser humano! É preciso.

 

30 de agosto — Está feito. Mas é tão pouco!

 

Eu tinha ido passear no bosque de Vernes. Não estava pensando em nada, nada. Havia uma criança no caminho, um garotinho, que comia uma fatia de pão com manteiga.

Ele parou para me ver passar e disse:

— Bom dia, senhor presidente.

E o pensamento penetrou em minha cabeça: “E, se eu o matasse...?”

Respondi:

— Você está sozinho, meu garoto?

— Sim, senhor.

— Sozinho no bosque?

— Sim, senhor.

O desejo de matá-lo me embriagava como o álcool. Aproximei-me muito devagar, convencido de que ele iria fugir. Eis que eu o agarrei ele pelo pescoço... E apertei, apertei com todas as minhas forças! Ele olhou para mim com olhos apavorados! Que olhos! Olhos redondos, profundos, límpidos, terríveis! Nunca experimentei uma emoção tão brutal, mas... tão curta! Ele segurava os meus punhos com as suas pequeninas mãos e seu corpo se retorcia como uma pluma em chamas. Depois, parou de se mover.

Meu coração batia. Ah! O coração do pássaro! Lancei o corpo na vala; em seguida, espalhei um pouco de grama por cima.

Voltei para casa. Jantei bem. Mas como é pouco! À noite, fiquei muito alegre, leve, rejuvenescido. Passei a noite com o prefeito. Acharam-me espiritual.

Mas não vi o sangue! Eu estou calmo.

 

30 de agosto — Encontraram o cadáver. Procuram o assassino. Ah! Ah!

 

1 ° de setembro — Prendemos dois vagabundos. Faltam provas.

 

2 de setembro — Os pais vieram me ver. Choraram! Ah! ah!

 

6 de outubro — Não encontramos nada. Algum vagabundo errante deveria ter feito aquilo. Ah! Ah! Creio que, se eu tivesse visto o sangue escorrer, agora estaria tranquilo!

 

10 de outubro — O desejo de matar percorre-me a medula. Sensação comparável aos acessos de amor que nos torturam aos vinte anos.

 

20 de outubro — Mais um. Eu passeava à margem do rio, depois do almoço. E vi, debaixo um salgueiro, um pescador adormecido. Era meio-dia. Uma pá parecia propositalmente plantada num campo de batatas vizinho.

 

Eu a peguei. Voltei. Levantei-a como uma maça e, de um só golpe, com a lâmina, rebentei a cabeça do pescador. Oh, como sangrou, aquele homem! Um sangue rosado, entremeado de miolos, que escorria, muito lentamente, para água. E fui embora com passos graves. Se eles tivessem me visto! Ah! Ah! Eu daria um excelente assassino.

 

25 de outubro — O caso do pescador está causando uma grande agitação. Seu sobrinho, que pescava com ele, é o acusado do homicídio.

 

26 de outubro — O juiz de instrução afirma que o sobrinho é culpado. Na cidade, todos acreditam nele. Ah! Ah!

 

27 de outubro — O sobrinho defende-se muito mal. Tinha ido à aldeia comprar pão e queijo, alega. Jura que assassinaram o seu tio enquanto estava fora! Quem acreditaria nisto?

 

28 de outubro — O sobrinho quase confessou, de tanto que se fez para que perdesse a cabeça. Ah! Ah! A Justiça!

 

15 de novembro — Temos provas esmagadoras contra o sobrinho, que viria a herdar os bens de seu tio. Eu presidirei o julgamento.

 

25 de janeiro — À morte! À morte! À morte. Fiz com que ele fosse condenado à morte! Ah! Ah! O promotor falou como um anjo! Ah! ah! Mais um. Assistirei à execução!

 

10 de março — Acabou. Ele foi guilhotinado nesta manhã. Ele está morto! Muito bem morto! E isto me foi prazeroso! Como é lindo ver deceparem a cabeça de um homem! O sangue jorrava como uma torrente, como uma torrente! Oh, se pudesse, teria me banhado nela. Como seria inebriante deitar-me sob aquele fluxo, recebê-lo nos meus cabelos, em meu rosto, e me levantar todo vermelho, todo vermelho! Ah, se soubessem!

Agora, vou esperar; eu posso esperar. Faltaria muito pouco para que eu me deixasse apanhar.

 

*

 

O manuscrito ainda continha muitas outras páginas, mas sem relatar nenhum novo crime.

Os médicos alienistas, a quem o manuscrito foi confiado, afirmam que há no mundo muitos loucos ignorados, tão astutos e temíveis ​​quanto aquele monstruoso demente.


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