O MESTRE DE MOXON - Conto Clássico de Ficção Científica e Horror - Ambrose Bierce

 

O MESTRE DE MOXON

Ambrose Bierce

(1842 – c. 1914)

 

— Você está falando sério? Acha, mesmo, que uma máquina pode pensar?

A resposta demorou um pouco. Meu amigo Moxon estava distraído, jogando mais carvão no fogo que ardia na chaminé e, depois de um certo tempo, que denotava a demora proposital em responder às perguntas mais triviais, como se estivesse, como se costuma dizer, “com qualquer coisa na cabeça”, finalmente voltou-se para mim e indagou:

— O que é uma máquina? É uma palavra que tem recebido inúmeras definições, mas vamo-nos contentar com a dada nos dicionários populares: "Qualquer instrumento ou aparelho pelo qual a energia é aplicada e utilizada para a produção de um determinado efeito". Está de acordo? Ora, neste caso, o homem também é uma máquina. Você admite, sem dívida, que ele pensa, ou que pensa que pensa.

— Se não deseja responder ao que lhe pergunto — respondi meio aborrecido —, é melhor arranjar outro pretexto, ou então dizer francamente que não está para conversas. Você sabe muito bem que, quando digo “máquina", não me refiro ao homem, mas sim a qualquer coisa que o homem construiu e controla.

— Quando não é controlado por ela... — retorquiu, abruptamente, Moxon, que se levantou e foi apreciar a chuva que caía forte, lá fora. Depois de uns instantes de silencio, voltou-se para mim e continuou:

— Peço que me desculpe o que chama de meu pretexto para não lhe responder. Julguei que a definição do dicionário pudesse ser de alguma utilidade para a nossa discussão. Mas, se quer saber a minha opinião, ei-la: estou certo de que as máquinas pensam no trabalho que executam.

Não podia desejar uma resposta mais direta. Mas a proposição de Moxon apenas serviu para confirmar um pressentimento que me atormentava há algum tempo. O meu amigo estava trabalhando demais no laboratório e esse trabalho era-lhe prejudicial às faculdades mentais. Além do mais, sabia que ele estava sofrendo de insônia, o que é a pior coisa que pode acontecer a uma pessoa mergulhada em trabalhos intelectuais.

A sua resposta devia ter-me esclarecido bastante sobre o seu estado de saúde, mas, naquela ocasião, eu ainda era moço, e a ignorância das grandes tragédias da vida é uma das poucas vantagens que não foram retiradas à mocidade. Incitado pelo que havia de paradoxal na resposta do meu amigo, procurei continuar a discussão.

— E com que pensam as máquinas, na falta de um cérebro?

A resposta foi muito mais rápida do que de costume e percebi que estava tratando de um assunto que realmente interessava ao meu amigo:

— E com que pensam as plantas, na falta de um cérebro?

— Não sabia que você considera as plantas entidades filosofantes. Pode me dizer algumas das suas conclusões. Dispenso as premissas.

— Talvez — respondeu ele, visivelmente indiferente à minha tola ironia —, o seu obscuro intelecto possa deduzir o modo de pensar das plantas, dos seus atos. Não citarei os clássicos exemplos da Mimosa pudica, das plantas insetívoras e das flores que derramam o seu pólen sobre as abelhas para que estas fecundem outras plantas a uma grande distância. Mas preste atenção a este fato. No meu quintal, plantei uma parreira. Mal apareceram os primeiros rebentos na cepa, finquei, a uma distância de um metro e pouco, uma estaca, e logo a parreira começou a se dirigir para esse ponto de apoio. Quando estava prestes a atingi-lo, mudei a estaca para um metro mais longe, e, cada vez que a parreira se aproximava, eu afastava mais ainda a estaca. No fim de algum tempo, a parreira desistiu de alcançar a estaca e dirigiu-se a um arbusto plantado a uns cinco ou seis metros do local onde estava e que acabou por alcançar.

“Você deve saber, também, que as raízes do eucalipto se prolongam indefinidamente em busca de umidade. Um horticultor muito conhecido conta que uma dessas raízes, certa vez, entrou num cano abandonado e seguiu adiante, em busca de água, até encontrar um muro que fora levantado no local por onde passava antigamente o cano. Diante do obstáculo, a raiz do eucalipto mudou de direção, seguiu o muro até encontrar uma brecha, pela qual passou, e de novo seguiu o muro até encontrar novamente o cano, pelo qual continuou o seu caminho até encontrar a água.”

— E o que você deduz de tudo isto?

— Não entende o que significa? Apenas que as plantas são seres dotados de raciocínio. Penso que é uma prova incontestável.

— Suponhamos que o seja. Não adianta nada para o nosso ponto de vista, pois estávamos discutindo máquinas e não plantas. Estas, meu caro, são feitas parte de madeira e parte de ferro, ou todas de ferro. E espero que não queira atribuir também ao reino mineral a faculdade de pensar!

— De que outra forma você pode explicar o fenômeno da cristalização?

— Apenas não o explico e pronto!

 Você não explica porque só poderia fazê-lo admitindo o que quer negar: uma cooperação inteligente dos elementos constituintes dos cristais. Quando um batalhão forma em quadrado para resistir a um ataque de cavalaria, você chama isso raciocínio. Quando os patos, em voo, formam-se em "V", chama isso instinto. Agora, quando vê átomos homogêneos movimentando-se livremente numa solução, agruparem-se em formas matematicamente perfeitas, você não diz nada. Nem sequer acha um nome para esconder a sua teimosia.

Moxon falava com uma animação fora do comum e cheio de entusiasmo. Quando parou, ouvi, nitidamente, num aposento que eu denominava ironicamente o “laboratório”, e no qual ninguém tinha licença de entrar, um ruído como o de uma pessoa dando socos sobre uma mesa.

O meu amigo ouviu também o ruído e, visivelmente agitado, precipitou-se para o interior do laboratório. Então percebi um rumor de luta, abafado pela espessura da porta, que veio ainda mais aguçar a minha curiosidade. Pouco depois, Moxon reapareceu, com a roupa em desalinho e enxugando o rosto, onde gotas de suor se misturavam com o sangue que escorria de um arranhão na face.

— Desculpe se o deixei assim, de repente, mas tenho aí dentro uma máquina que perdeu a paciência e foi preciso um pouco de energia para dominá-la.

— Por que não entrega a sua máquina aos cuidados de uma manicure? — indaguei, com uma ponta de sarcasmo, mostrando o arranhão.

Mas foi tempo perdido. O meu amigo fingiu não se aperceber do meu comentário e continuou a sua preleção.

— Estou certo que você não está de acordo com os que afirmam que toda a matéria é sensível e que cada átomo é uma entidade consciente. Eu estou. Não há nada mais absurdo do que se supor que existe uma coisa tal como a matéria morta. É mentira. Toda a matéria tem vida e é susceptível de contágio às emanações que lhes transmitem os organismos superiores com que está em contato; assim, por exemplo, creio que o homem, que constrói uma máquina, transmite-lhe um pouco da sua inteligência; essa proporção é tanto maior quanto mais complexa é a máquina.

“Você ainda se lembra da definição da vida, dada por Spencer? Faz uns trinta anos que que a li. Pode ser que, desde então, nos últimos anos de sua existência, ele tenha vindo a modificar-lhe um pouco os termos, mas, para mim, penso que nem uma palavra, nem uma vírgula devem ser trocadas para que ela seja a melhor, a mais perfeita e a mais real definição do que seja a vida: “A vida é a combinação definida de mudanças heterogêneas, ao mesmo tempo simultâneas e sucessivas, em correspondência intima com as coexistências externas”.

— Isto — respondi — é a definição do fenômeno, mas nem sequer sugere qual seja a sua causa.

— É o máximo que uma definição pode dar. Mills tem razão quando diz que nada sabemos de uma causa senão como antecedente, como também só conhecemos um efeito como consequente. Em certos fenômenos, um nunca se manifesta sem outro que, em regra, lhe é diferente: ao primeiro, num determinado tempo, chamamos causa; ao segundo, efeito. Um homem que visse diversas vezes um cão perseguindo uma lebre, sem nunca ter visto, em outras ocasiões, cães ou lebres, julgaria que a lebre é a causa do cão. Mas receio — continuou Moxon, com uma gargalhada natural — que, correndo atrás da lebre, eu me esteja afastando demasiadamente do meu assunto. O que quero que você observe é que, na definição de "vida", dada por Spencer, a atividade de uma máquina está incluída, pois não há nada nessa definição que não se possa aplicar, também, a uma máquina. De acordo com os observadores mais meticulosos, se um homem, durante o seu período de atividade, seja ela sob que forma for, está vivo, uma máquina em funcionamento também tem vida. Como inventor e construtor de máquinas, sei o que digo e afirmo a mesma coisa.

O seu tom não admitia réplica. Terminada a preleção, deixou-se ficar esquecido, contemplando o fogo que ardia na lareira. E como já principiava a ficar tarde, achei que era tempo de ir-me. Por um outro lado, a ideia de deixar o meu amigo sozinho naquela casa, sob o império de ideias tão absurdas, e ainda mais com uma coisa desconhecida, mas que eu supunha feroz, fechada dentro do laboratório, não me agradava.

Levantei-me para partir, mas, primeiramente, indaguei:

— Moxon, o que é que você esconde aí no laboratório?

— Nada. O incidente que você quase presenciou foi devido à minha tolice de deixar uma máquina em movimento sem utilizar a sua energia, enquanto perdia o meu tempo para tirá-lo das trevas da ignorância. Sabe, porventura, que a consciência sensível é filha do ritmo?

— Quero que mãe e filha não me amolem a paciência, Moxon. Boa noite e até logo. Cuide para que a sua máquina, quando estiver zangada, tenha unhas curtas ou calce luvas.

 E, sem esperar para ver o efeito de minha observação, saí.

Chovia a cântaros e a escuridão era intensa. Por detrás de uma colina por onde eu buscava, com dificuldade, contra o vento e o aguaceiro, o meu caminho, o clarão das luzes da cidade iluminava o céu, mas, atrás de mim, na escuridão da noite, apenas brilhava um ponto: a janela do laboratório de Moxon.

Por mais que fizesse, não podia distrair a minha atenção daquela luz. Caminhava e, quase de dois em dois passos, voltava-me como que fascinado por aquele clarão, que na treva ambiente tinha qualquer coisa de irreal, de fantasmagórico.

Sem dúvida, o meu amigo voltara às suas ocupações e aos seus estudos que havia interrompido unicamente para me ministrar ensinamentos sobre o parentesco da sensibilidade consciente com o ritmo.

As suas últimas palavras ecoavam no meu pensamento: “A consciência sensível é filha do ritmo”.

A princípio, a afirmação me parecera paradoxal, mas, à força de repeti-la, sentia-me atraído pela clareza sublime da afirmação e pela convicção com que Moxon a enunciara.

E pus-me a pensar.

Se a consciência sensível é o produto do ritmo, todas as coisas são conscientes, pois o movimento é a origem de tudo e não há movimento sem ritmo. Pus-me a excogitar se Moxon compreendia toda a magnitude de sua concepção e o campo de generalização filosófica a que se prestava.

Como Saulo no caminho de Damasco, senti que a luz da verdade iluminava a minha alma. E ali, no meio da escuridão, em plena tormenta, batido pela chuva, fustigado pelo vento, senti “as mil e uma variedades de um pensamento filosófico”. Exultei ao sentir que uma nova esfera de conhecimentos me fora revelada e os meus pés pareciam não tocar mais a terra. Era como se asas invisíveis me fizessem pairar muito alto, acima do mundo, acima dos homens, das suas misérias e sofrimentos.

Obedecendo ao impulso do homem que quer, que precisa saber, reconheci em Moxon, de quem eu, ainda há pouco, caçoava, o meu mestre e o guia da minha vida intelectual. Sedento de saber, ávido de luz e, antes que tivesse consciência do que estava fazendo, encontrei-me, mais uma vez, diante da porta da casa de Moxon, batendo como um desesperado.

Estava encharcado pelo aguaceiro, mas nem sequer me passou pela cabeça a ideia de que minha volta, àquela hora, podia ser incômoda e extemporânea. Bati com furor, com raiva e, vendo que ninguém respondia, experimentei a porta.

Não estava fechada à chave. Entrei. Na sala onde ainda há pouco tínhamos conversado, o fogo da lareira morria, mas um silencio de morte pairava na casa, tornado ainda mais lúgubre pelo ulular do vento por entre o arvoredo do jardim.

Deduzi que Moxon devia estar no “laboratório” e, apesar de nunca ter sido convidado a penetrar naquele aposento, senti que a ânsia de expor a Moxon a minha conversão seria uma desculpa suficiente. Bati discretamente à porta do laboratório e escutei.

Sem resposta, abri-a resolutamente, esquecido até dos mais elementares princípios de civilidade, empolgado que estava pela nova orientação das minhas especulações filosóficas.

Mas a cena que se deparou aos meus olhos foi suficiente para varrer de mim qualquer outra sensação que não a do espanto.

Moxon estava sentado diante de uma mesa pequena, de frente para a porta, e tinha defronte de si outra pessoa, cujas feições, na luz incerta da única lâmpada que iluminava o aposento, não podia distinguir. Estavam jogando xadrez.

Conheço muito pouco esse jogo, mas, como só restavam poucas peças sobre o tabuleiro, deduzi que a partida devia estar prestes a acabar. Moxon tinha um olhar com qualquer coisa de desvairado e, o que me pareceu ainda mais estranho, não só não me viu entrar, como, em vez de olhar para o tabuleiro e para as peças, não tirava os olhos do adversário.

Curioso, aproximei-me ainda mais e, então, pude avistar melhor o companheiro de Moxon. Era, não direi um homem, mas sim uma coisa descomunal, disforme, horrenda, com qualquer coisa de gorila, curto de estatura, largo de ombros e com uns braços desproporcionalmente longos para o seu corpo e que vestia uma espécie de túnica vermelha, tendo na cabeça um barrete cilíndrico da mesma cor.

Os lances eram rápidos. Moxon não pensava e tive até a impressão de que apenas mexia as peças que estavam mais ao seu alcance, enquanto que o seu adversário, embora jogando com rapidez, tinha nos seus gestos qualquer coisa de irreal, de estranho, lembrando mais os movimentos de um filme em câmara lenta do que os de um ser humano.

Esqueci tudo, a própria fúria com que Moxon me receberia ao perceber que eu testemunhara aquela cena estranha, e, enquanto de olhos arregalados contemplava, boquiaberto, ora o meu amigo, ora o seu parceiro, veio o fim.

Moxon, com um gesto decisivo, derrubou o rei do seu adversário e gritou:

— Xeque-mate!

E, com um salto, ergueu-se e saltou para trás da cadeira.

A “coisa” não se moveu durante alguns segundos. O vento lá fora continuava a soprar rijo e as bátegas fustigavam as vidraças, mas, mesmo assim, ouvi que do corpo da coisa partia um ronco como o de uma locomotiva sob pressão e o ruído inconfundível do movimento de uma engrenagem.

O adversário de Moxon era um autômato!

Mas, mal chegara a essa conclusão, com um ruído seco de explosão, o autômato se atirou contra Moxon e, segurando-o pela garganta, começou a sufocá-lo.

Vi o olhar desvairado do meu amigo, que se debatia em vão nas garras poderosas daquele monstro de ferro, e ia atirar-me em seu socorro quando tive a impressão de que a sala toda se enchera de luz e que o autômato e Moxon caíam inertes e... não me lembro de mais nada.

Três dias mais tarde, despertei num leito de hospital. Com o retorno completo das minhas faculdades, reconheci, ao meu lado, Haley, o empregado de confiança de Moxon.

 — Diga-me o que houve... Conte-me tudo — supliquei com uma voz ainda muito fraca

— Pouca coisa. O senhor foi salvo da casa em chamas. Ninguém sabia explicar a sua presença ali, àquela hora, como também ninguém explica a causa do fogo... Para mim, entretanto, nem há dúvida possível, foi um raio que caiu.

— E Moxon?

— Foi enterrado ontem. Pelo menos, o pouco que ainda se achou dele.

— E quem me salvou?

— Se lhe interessa saber, fui eu.

— Muito obrigado, Haley. E... diga-me... conseguiu salvar também aquele autômato, aquela máquina tão complexamente perfeita que matou o seu inventor?

Haley ficou silencioso um bom momento e, afinal, respondeu:

— Tem certeza disso?

— Tenho — respondi. — Eu assisti ao crime.

Mas isso foi há muito tempo. Hoje, se me perguntassem, talvez hesitasse em responder com a mesma confiança.

 

Versão condensada em português de autor desconhecido.

Fizeram-se breves adaptações textuais.

Fonte: “Fru-Fru”, edição de setembro de 1931.

 

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