O CAPITÃO ASSASSINO - Conto Clássico de Horror - Charles Dickens


O CAPITÃO ASSASSINO

Charles Dickens

(1822 – 1870)

Tradução de Paulo Soriano

 

O primeiro personagem diabólico a imiscuir-se em minha pacífica infância — como eu rememorei naquele dia em Dullborough — foi um certo Capitão Assassino. Este desgraçado deve ter sido um descendente da família de Barba Azul, mas, naquela época, eu não nutria suspeita alguma de tal consanguinidade. A advertência que havia em seu nome não parecia suscitar qualquer preconceito generalizado contra ele, pois era admitido na alta sociedade e possuía imensa riqueza. O objetivo do capitão assassino era o matrimônio e a satisfação de um apetite canibalesco com ternas noivas.

Na manhã de cada um de seus casamentos, ele providenciava que ambas as margens do caminho até a igreja estivessem ornamentadas por flores exóticas; e quando sua noiva perguntava: "Caro Capitão Assassino, eu nunca vi flores como estas; como se chamam elas?", ele respondia: "Chamam-se Guarnições para Cordeirinhas Domésticas", e ria, terrivelmente, de próprio seu gracejo feroz, inquietando as mentes do nobre cortejo nupcial, e exibindo pela primeira vez os dentes afiados.

Costumava cortejar as donzelas numa carruagem de seis cavalos e levava-as para as bodas numa outra de doze corcéis brancos como o leite, tisnados de mancha vermelha no dorso, que ele tratava de esconder sob os arreios, já que a mancha aparecia, a cada casamento,  no lombo dos cavalos, embora estes estivessem imaculadamente brancos  quando Capitão Assassino os comprava. E aquela mancha era produzida pelo sangue de cada jovem noiva assassinada (e é a este detalhe terrível que devo a minha primeira experiência pessoal de um calafrio na espinha).

Encerados o banquete e a festa de bodas, e dispensados os nobres convidados, o Capitão ficava a sós com a sua esposa. Um mês após as bodas, era seu peculiar costume tirar do armário um rolo dourado e um tabuleiro de massas de prata.

Ora, durante o noivado, o galanteio do Capitão era peculiar:   perguntava sempre se a jovem senhora sabia fazer massas de tortas; e, se ela não sabia, por lhe faltar o dom ou o aprendizado, ele a ensinava como fazê-las. Pois bem, quando a jovem esposa via o Capitão Assassino chegar com o rolo dourado e o tabuleiro prata, recordava-se do que aprendera nos tempos de noivado e arregaçava suas mangas de seda para fazer uma torta.

O Capitão trazia uma fôrma de prata de imensa capacidade; depois, farinha, manteiga, ovos e todos os ingredientes necessários ao preparo da iguaria; mas não trazia nada para o recheio.  

Então a adorável esposa perguntava-lhe:

— Caro Capitão Assassino, que espécie de torta faremos?

Ele respondia:

—Uma torta de carne.

A esposa, então, dizia-lhe:

— Caro Capitão Assassino, não vejo carne nenhuma.

O Capitão retrucava, pilheriando:

— Olhe no espelho.

Ela olhava para espelho, mas não via carne alguma.

Então o Capitão soltava uma gargalhada e, de repente, franzia a sobrancelha e desembainhava sua espada, ordenando que ela abrisse a massa. A moça obedecia, deixando cair sobre a massa aberta pesadas lágrimas, porque via-o assim tão severo. E quando a jovem revestia a fôrma com a massa, e separava-lhe  uma parcela  para fazer a cobertura da torta, o Capitão gritava:

— Estou vendo a carne no espelho!

E a noiva olhava para o espelho, justamente a tempo de ver o Capitão cortar-lhe a cabeça. Depois, fatiava a noiva em pedacinhos, temperava-a com pimenta e sal e, com sua carne, recheava a torta, que mandava assar no forno, e, depois, devorava-a toda, chupando até os ossos.

Assim o Capitão tocava a vida, prosperando muito, até que teve de escolher uma noiva entre duas irmãs gêmeas e, a princípio, não soube por qual se decidir, pois, malgrado uma fosse branca e a outra morena, eram ambas muito belas.

Como a gêmea branca o amava, e a gêmea morena o odiava, ele escolheu a alva. Se pudesse, a gêmea morena teria impedido o casamento, mas não pôde. Todavia, na noite anterior, muito desconfiada do Capitão Assassino, ela escapuliu furtivamente e escalou o muro do jardim da casa do noivo. Olhando por uma fresta da veneziana, viu que o Capitão amolava os dentes. No dia seguinte, aplicou o ouvido o dia inteiro, e o escutou a fazer gracejos sobre a cordeirinha doméstica. E, no mês seguinte, ele abriu a massa, cortou a cabeça da bela gêmea, picou a moça em pedacinhos, temperou-a com pimenta, salgou-a, levou-a ao forno, devorou-a toda e chupou-lhe os ossos.

Ora, as suspeitas da gêmea morena cresceram imensamente quando viu o Capitão amolar os dentes e fazer os gracejos sobre a cordeirinha doméstica.  Assim, quando ele anunciou que a gêmea branca estava morta, a morena, reunindo aqueles indícios, adivinhou a verdade e decidiu vingar-se.

Foi, então, à casa do Capitão Assassino, bateu à porta com a aldrava e tangeu a campainha. Chegando o Capitão à porta, disse-lhe:

— Prezado Capitão Assassino, case-se agora comigo, pois eu sempre o amei, e tinha ciúmes de minha irmã.

Lisonjeado, o Capitão deu-lhe uma resposta galante, e as bodas foram logo marcadas.

Na véspera do casamento, a noiva subiu novamente à janela e de novo o viu a amolar os dentes. Tendo contemplado aquela cena, ela soltou uma risada tão terrível pela fresta na veneziana, que o sangue do capitão gelou. Então ele disse:

—Espero que nada tenha me tenha feito mal! 

Ouvindo isto, a moça voltou a rir, soltando agora uma risada ainda mais terrível. O Capitão abriu a veneziana e realizou uma busca no lugar, mas, mas, como a jovem já havia escapado, não achou ninguém.

No dia seguinte, eles foram à igreja numa carruagem puxada pelos doze corcéis e se casaram. Um mês depois, a jovem abriu a massa da torta, o Capitão Assassino cortou-lhe a cabeça, temperou a gêmea com pimenta, salgou-a, levou-a ao forno, devorou-a toda e chupou-lhe os ossos.

Todavia, antes de abrir a massa, ela havia tomado um veneno terrível e letal, destilado de olhos de sapo e joelhos de aranha. Mal havia terminado de chupar o último osso, o Capitão Assassino pôs-se a inchar, a ficar azul e coberto de manchas. Gritando, azulou e encheu-se mais ainda de manchas, e inchou até expandir-se do chão ao teto e de uma à outra parede. Finalmente, a uma hora da madrugada, rebentou numa sonora explosão.

No estábulo, ouvindo aquele estrépito, os cavalos brancos romperam os seus cabrestos e, enlouquecidos, puseram-se a  atropelar os que viviam na casa do Capitão Assassino (começando pela família do ferreiro, que  lhes limava os dentes), até matar todo mundo,  para depois fugir, aos galopes, para bem longe dali.  


 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O GATO PRETO - Conto Clássico de Terror - Edgar Allan Poe

O RETRATO OVAL - Conto Clássico de Terror - Edgar Allan Poe

O CORAÇÃO DELATOR. Conto clássico de terror. Edgar Allan Poe