SUA EXCELÊNCIA - Conto Clássico Fantástico - Lima Barreto

 


SUA EXCELÊNCIA

Lima Barreto

(1881-1922)

  

O ministro saiu do baile da embaixada, embarcando logo no carro. Desde duas horas estivera a sonhar com aquele momento. Ansiava estar só, só com o seu pensamento, pesando bem as palavras que proferira, relembrando as atitudes e os pasmos olhares dos circunstantes. Por isso entrara no coupé depressa, sôfrego, sem mesmo reparar se, de fato, era o seu. Vinha cegamente, tangido por sentimentos complexos: orgulho, força, valor, vaidade.

 Todo ele era um poço de certeza. Estava certo do seu valor intrínseco; estava certo das suas qualidades extraordinárias e excepcionais. A respeitosa atitude de todos e a deferência universal que o cercava eram nada mais, nada menos que o sinal da convicção geral de ser ele o resumo do país, a encarnação dos seus anseios. Nele viviam os doridos queixumes dos humildes e os espetaculosos desejos dos ricos. As obscuras determinações das cousas, acertadamente, haviam‑no erguido até ali, e mais alto levá‑lo‑iam, visto que só ele, ele só e unicamente, seria capaz de fazer o país chegar aos destinos que os antecedentes dele impunham...

 E ele sorriu, quando essa frase lhe passou pelos olhos, totalmente escrita em caracteres de imprensa, em um livro ou em um jornal qualquer. Lembrou‑se do seu discurso de ainda agora:

 “Na vida das sociedades, como na dos indivíduos”... Que maravilha! Tinha algo de filosófico, de transcendente. E o sucesso daquele trecho? Recordou‑se dele por inteiro:  

Aristóteles, Bacon, Descartes, Spinosa e Spencer, como Sólon, Justiniano, Portalis e Ihering, todos os filósofos, todos os juristas afirmam que as leis devem se basear nos costumes”...

 

O olhar, muito brilhante, cheio de admiração — o olhar do leader da oposição — foi o mais seguro penhor do efeito da frase...

 E quando terminou! Oh!

 “Senhor, o nosso tempo é de grandes reformas; estejamos com ele: reformemos!”

 A cerimônia mal conteve, nos circunstantes, o entusiasmo com que esse final foi recebido.

 O auditório delirou. As palmas estrugiram; e, dentro do grande salão iluminado, pareceu‑lhe que recebia as palmas da Terra toda.

 O carro continuava a voar. As luzes da rua extensa apareciam como um só traço de fogo; depois sumiram‑se.

 O veículo agora corria vertiginosamente dentro de uma névoa fosforescente. Era em vão que seus augustos olhos se abriam desmedidamente; não havia contornos, formas, onde eles pousassem.

 Consultou o relógio. Estava parado? Não; mas marcava a mesma hora, o mesmo minuto da sua saída da festa.

 — Cocheiro, onde vamos?

 Quis arriar as vidraças. Não pôde; queimavam.

 Redobrou os esforços, conseguindo arriar as da frente.

 Gritou ao cocheiro:

 — Onde vamos? Miserável, onde me levas?

 Apesar de ter o carro algumas vidraças arriadas, no seu interior fazia um calor de forja. Quando lhe veio esta imagem, apalpou bem, no peito, as grã‑cruzes magníficas. Graças a Deus, ainda não se haviam derretido. O Leão da Birmânia, o Dragão da China, o Lingão da Índia estavam ali, entre todas as outras, intactas.

 — Cocheiro, onde me levas?

 

Não era o mesmo cocheiro, não era o seu. Aquele homem de nariz adunco, queixo longo com uma barbicha, não era o seu fiel Manuel!

 — Canalha, para, para, senão caro me pagarás!

 O carro voava e o ministro continuava a vociferar:

 — Miserável! Traidor! Para! Para!

 Em uma dessas vezes voltou‑se o cocheiro; mas a escuridão que se ia, aos poucos fazendo quase perfeita, só lhe permitiu ver os olhos do guia da carruagem, a brilhar de um brilho brejeiro, metálico e cortante. Pareceu‑lhe que estava a rir‑se.

 O calor aumentava. Pelos cantos o carro chispava. Não podendo suportar o calor, despiu‑se. Tirou a agaloada casaca, depois o espadim, o colete, as calças...

 Sufocado, estonteado, parecia‑lhe que continuava com vida, mas que suas pernas e seus braços, seu tronco e sua cabeça dançavam, separados.

 Desmaiou; e, ao recuperar os sentidos, viu‑se vestido com uma reles “libré” e uma grotesca cartola, cochilando à porta do palácio em que estivera ainda há pouco e de onde, saíra triunfalmente, não havia minutos.

 Nas proximidades um coupé estacionava.

 Quis verificar bem as cousas circundantes; mas não houve tempo.

 Pelas escadas de mármore, gravemente, solenemente, um homem (pareceu‑lhe isso) descia os degraus, envolvido no fardão que despira, tendo no peito as mesmas magníficas grã‑cruzes...

 Logo que o personagem pisou na soleira, de um só ímpeto aproximou‑se e, abjetamente, como se até ali não tivesse feito outra coisa, indagou:

 — Vossa Excelência quer o carro?

 

 


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