A MENDIGA DE LOCARNO - Conto Clássico de Terror - Heinrich von Kleist (Acompanhado de Versão em Áudio)



A MENDIGA DE LOCARNO

Heinrich von Kleist

(1777 — 1811)

 

Músico, poeta, romancista, contista e dramaturgo, Heinrich von Kleist (1777 — 1811) é um dos grandes nomes do romantismo alemão. Respirou tão ardorosamente a atmosfera trágica de sua escola que protagonizou um dos mais dramáticos e comoventes suicídios da história: às margens do Pequeno Wanse, o poeta atirou no peito de uma companheira de infortúnios que, como ele, ansiava a morte; depois, introduziu o cano da pistola na própria boca e disparou. O atormentado e genial poeta tinha, então, apenas 34 anos. “A Mendiga de Locarno” (“Das Bettelweib von Locarno”), historieta de fantasmas, foi publicada originalmente na edição de 11 de outubro de 1810 do periódico Berliner Abendblättern, sendo posteriormente incluída na antologia Histórias (“Erzählungen"), de 1811.

 

Em Locarno, na Itália setentrional, ao pé dos Alpes, erguia-se o velho palácio de um marquês. Nos dias de hoje, vindo de São Gotardo, podemos contemplá-lo em ruínas: um palácio com aposentos grandes e espaçosos, num dos quais, por compaixão, alojaram, sobre um monte de palhas, uma anciã enferma, que fora pela governanta encontrada esmolando à porta. O marquês, que, ao voltar da caça, entrou no cômodo onde deixava os fuzis, ordenou mal-humorado à mulher que se levantasse do canto onde estava encolhida e se retirasse para detrás da estufa. Ao erguer-se, a mulher resvalou na própria muleta e caiu, machucando o ombro de tal modo que mal pôde levantar-se; mas abandonou o quarto, conforme lhe haviam ordenado. Entre gemidos, encolheu-se, desaparecendo por detrás da estufa.

Muitos anos depois, procurou o marquês um senhor florentino, com a intenção de comprar o castelo, e isso numa ocasião em que o fidalgo, em razão das guerras e de sua inatividade, encontrava-se em situação precária. O marquês, que tinha grande interesse na venda, ordenou à esposa que alojasse o hóspede no mencionado aposento vazio, que estava muito bem mobiliado. Mas qual não foi a surpresa do casal quando o cavalheiro, à meia-noite, pálido e perturbado, apareceu jurando que havia fantasmas, e que algo invisível se movia num canto do quarto, como se estivesse sobre palha, e que era possível escutar passos lentos e vacilantes a atravessar o recinto, cessando ao chegar à estufa, entre gemidos.

O marquês ficou aterrorizado. Sem saber por quê, lançou um riso falso e disse ao cavalheiro que, para maior tranquilidade do hóspede, passaria a noite com ele no quarto. Mas o cavalheiro suplicou que lhe permitisse dormir em uma poltrona na alcova do anfitrião e, quando amanheceu, mandou selar o cavalo, se despediu e empreendeu a viagem.

Este acontecimento, que causou sensação, assustou deveras os compradores, o que incomodou extraordinariamente o marquês. E mesmo entre os moradores do castelo propagava-se o incompreensível rumor de que as coisas aconteciam no quarto às doze da noite. Por isso, o marquês decidiu por si mesmo terminar com a situação e investigar em pessoa o assunto. Assim, pois, mal desceu o ocaso, mandou que pusessem a cama no quatro e permaneceu sem dormir até a meia-noite.

Mas qual não foi a sua sensação quando, ao soar do toque de meia-noite, escutou o estranho murmúrio. Era como se algo se levantasse da palha, que estalava, e atravessasse o cômodo, para desaparecer por detrás da estufa, entre suspiros e gemidos.

Na manhã seguinte, à chegada do marido, a marquesa perguntou o que havia acontecido. Ele, com o olhar temeroso e inquieto, depois de fechar a porta, lhe assegurou que era coisa de fantasmas. A mulher se assustou como nunca havia se assustado antes. Ao marido suplicou que, antes de tornar pública a coisa, voltasse — e desta vez com ela — a submeter-se a outra prova.

Na noite seguinte, acompanhados por um fiel servidor, escutaram o rumor fantasmagórico. E somente porque compelidos pelo intenso desejo que tinham de vender o castelo, souberam dissimular ante o serviçal o terror que os possuía, atribuindo o fenômeno a motivos casuais e sem qualquer importância. Ao chegar a noite do terceiro dia, ambos, para dirimir as dúvidas, com os corações aos berros, tornaram a subir as escadas que conduziam ao quarto de hóspedes e, como se depararam com o cão, que, solto, encontrava-se à porta, levaram-no consigo, com a secreta intenção, entre si não revelada, de entrar no cômodo acompanhados de outro ser vivo.

O casal, depois de haver deitado dois lumes sobre a mesa — a marquesa com roupa e tudo e o marquês munido de adaga e pistola —, caiu na cama. E, enquanto conversavam, o cão deixou-se cair no centro do quarto, encolhido, com a cabeça entre as patas. E, justamente à meia-noite, percebeu-se o terrível rumor. Algo invisível, apoiando-se em muleta se levantou do canto do quarto. Ouviu-se o ruído de palha e, quando aquilo começou a andar — tap, tap, tap —, o cão acordou, e, erguendo as orelhas, pôs-se a ladrar e a ganir, como se alguém com o passo desigual dele se aproximasse. E foi o cão retrocedendo até estufa.

Ao ver isto, a marquesa, com os cabelos eriçados, saiu do aposento. E, enquanto o marquês, com a adaga desembainhada, gritava “quem é?” e ninguém respondia, e se agitava como um louco furioso que procura o ar para respirar, a mulher mandou selar os cavalos, decidida fugir para a cidade. Mas, antes que alcançasse a porta com algumas coisas que havia recolhido precipitadamente, viu o castelo em chamas.

O marquês, mergulhado no pânico, havia tomado uma vela e, cansado que estava de viver, pusera fogo no cômodo, todo revestido de madeira. Em vão, a marquesa enviou pessoas para salvar o desafortunado. Este encontrou uma morte terrível e ainda hoje os seus ossos, recolhidos pela gente do lugar, estão no canto do cômodo onde ele ordenou que a mendiga de Locarno se levantasse.

Versão em português (tradução indireta) de Paulo Soriano.


Nota do editor:

Caso você queira ouvir o conto narrado, ele está disponível aqui:




O editor agradece a colaboração do narrador.



 

Comentários

  1. Usei a tradução e fiz um vídeo narrando o conto <3

    https://www.youtube.com/watch?v=1BpW5fxMxik

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    1. Muitíssimo obrigado, amigo! A narração ficou maravilhosa.

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