O VIOLADOR DE SEPULTURAS - Narrativa Clássica de Horror - Sabine Baring-Gould


O VIOLADOR DE SEPULTURAS

Sabine Baring-Gould

(1834–1924)

Tradução de Paulo Soriano

 

No outono de 1848, vários cemitérios na vizinhança de Paris foram alvo de invasões noturnas e túmulos foram profanados. Aquilo não era façanha de estudantes de medicina, pois os corpos não haviam sido levados, senão deixados ali mesmo, espalhados sobre os túmulos fragmentados.

A princípio, supôs-se que essas ações ultrajantes eram obra de algum animal selvagem, mas pegadas na terra macia não deixavam dúvidas de que um homem fizera aquilo. Redobrou-se a vigilância no cemitério do Père la Chaise; mas, depois que alguns cadáveres foram mutilados ali, as violações cessaram.

No inverno, outro cemitério foi vilipendiado e somente em março de 1849 uma spiring gun[1], que havia sido armada no cemitério de Monteparnasse, disparou durante à noite, avisando os vigias de que o misterioso visitante havia caído na armadilha. Correram para o local para vislumbrar apenas uma sombria silhueta, envolta numa capa militar, escalar o muro e desaparecer na escuridão. Marcas de sangue, no entanto, evidenciavam que ele havia sido atingido pela arma quando esta disparou. Entrementes, encontraram um fragmento de pano azul, arrancado da capa, que forneceu uma pista para a identificação do violador de sepulturas.

No dia seguinte, a polícia foi de quartel em quartel, perguntando se havia algum soldado ou policial ferido por arma de fogo. Dessa forma, eles chegaram ao culpado. Era um oficial subalterno do 1º Regimento de Infantaria chamado Bertrand[2].

Levaram o oficial ao hospital para ser tratado de seu ferimento e, ao se recuperar, foi julgado pela corte marcial.

Sua história era esta:

Bertrand estudara no seminário teológico de Langres, até que, aos vinte anos, entrou para o exército. Era um jovem de hábitos retraídos, franco e alegre com os camaradas, a ponto de ser muito querido por eles. Era dotado de delicadeza e requinte femininos, e era sujeito a acessos de depressão e melancolia. 

Em fevereiro de 1847, enquanto caminhava com um amigo no campo, chegou a um cemitério, cujo portão estava aberto. No dia anterior, uma mulher havia sido enterrada, mas o sacristão, por conta de uma tempestade, que o obrigou a procurar abrigo alhures, não havia coberto, completamente, a sepultura.

Bertrand notou a pá e a picareta ao lado da sepultura e — para usar suas próprias palavras — “a esta visão surgiram-me pensamentos sombrios; uma dor de cabeça violenta assaltou-me e meu coração disparou: eu já não era senhor de mim mesmo“.

Ele conseguiu, com uma desculpa, livrar-se do companheiro e, ao voltar ao cemitério, pegou uma pá e começou a cavar a cova. 

“Logo eu tirei o cadáver da terra, e comecei a mexer nele com a pá, mas sem saber ao certo o que fazia. Um trabalhador me viu; então, eu me deitei no chão, até que ele sumisse de vista. Depois, lancei o corpo de volta à sepultura. Saí, banhado em suor frio, para um pequeno bosque, onde repousei por várias horas, apesar da chuva fria que caía, num estado de cansaço absoluto. Quando me levantei, senti os membros como se estivessem quebrados e a mente debilitada. A mesma prostração e sensação se seguiam cada ataque. 

“Dois dias depois, voltei ao cemitério e escavei a sepultura com as mãos. Elas sangraram, mas não senti dor alguma. Rasguei o cadáver em pedaços e joguei-o de volta na cova”.

Por quatro meses, não sucumbiu a novos ataques, até que o seu regimento chegou a Paris. Enquanto caminhava, um dia, pelas alamedas obscuras e sombrias do cemitério do Père la Chaise, a mesma sensação o dominou como uma torrente. À noite, escalou o muro e desenterrou uma menina de sete anos. Ele a rompeu ao meio. Poucos dias depois, abriu o túmulo de uma mulher que morrera no parto e estava na sepultura há treze dias. No dia 16 de novembro, desenterrou uma senhora de cinquenta anos e, despedaçando-a, fê-la rolar entre os fragmentos. Repetiu a experiência com outro cadáver no dia 12 de dezembro. Esses são apenas alguns dos numerosos casos de violação de túmulos que Bertrand perpetrara. Foi na noite de 15 de março que a arma, preparada para uma armadilha, o apanhou.

Bertrand declarou em seu julgamento que, enquanto estava no hospital, nenhum desejo sentia de renovar suas tentativas, e que se considerava curado de suas hediondas propensões, pois tinha visto homens morrendo nas camas ao seu redor. Dizia: “Estou são, pois agora tenho medo da morte”.

Os acessos de exaustão que se seguiram a seus acessos são muito notáveis, pois se assemelham precisamente aos que se seguiram às fúrias berserkir [3] dos nórdicos e às expedições dos licantropos.

O caso de M. Bertrand é indubitavelmente o mais singular e anômalo: mal tem o caráter de insanidade, e antes parece apontar para uma espécie de possessão diabólica. No início, os acessos afloravam, principalmente, quando ele bebia vinho, mas, depois de um certo tempo, acometiam-no sem que fizesse uso de estimulantes. A maneira como ele mutilava os mortos era diversificada. Alguns, ele cortava com a pá; outros, rasgava e dilacerava com seus dentes e unhas. Às vezes, rasgava a boca até as orelhas; outras vezes, abria os estômagos ou arrancava os membros dos cadáveres. Embora tenha desenterrado os corpos de vários homens, não tinha vontade de mutilá-los, ao passo que se deliciava em dilacerar cadáveres femininos[4]. Bertrand foi condenado a um ano de prisão.

 



[1] Armadilha consistente em uma corda conectada ao gatilho de uma arma de fogo. Sempre que alguém, inadvertidamente, tropeça na corda, a arma dispara.

[2] O incidente de François Bertrand (1823 – 1978), conhecido como “o Vampiro de Monteparnasse”, inspirou um célebre conto de Guy de Maupassant, “A tumba”.

[3] Fúria incontrolável que dominava os guerreiros nórdicos antes das batalhas.

[4] Eis um excerto de sua confissão, na qual relata a sua experiência com um cadáver de uma adolescente de 16 anos: “Eu a cobri de beijos e apertei-a violentamente contra o meu coração. Tudo o que se pode desfrutar com uma mulher viva não é nada em comparação com o prazer que com ela experimentei. Depois de deleitar-me por cerca de um quarto de hora, retalhei-lhe o corpo, como sempre, e arranquei as suas entranhas. Então enterrei o cadáver novamente".  

 


 

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