A CASA MAL-ASSOMBRADA - Narrativa Clássica Verídica Sobrenatural - Plínio, o Jovem

 

A CASA MAL-ASSOMBRADA

Plínio, o Jovem1 (61 ou 62 – 114 d. C.) 

 

Havia em Atenas uma casa ampla e confortável, mas de má reputação e perniciosa à saúde.  No silêncio da noite, ouviam-se  ruídos  de ferro e, se se prestava bem atenção, escutava-se o estrépito de correntes, que a princípio parecia vir de longe, mas que,  depois,  se aproximava paulatinamente.  Em seguida, surgia o fantasma de um velho consumido pela fraqueza e pela miséria,  de barba longa e cabelos eriçados. Tinha grilhões nos pés e correntes nos pulsos, que ele agitava e sacudia terrivelmente.

Em razão da aparição, os moradores da casa passavam, amedrontados, em vigília, tristes e terríveis noites.  A prolongada insônia trazia a enfermidade, e esta, intensificada pelo medo, causava a morte, pois, malgrado o espectro não aparecesse durante o dia, a sua memória ficava impressa nos olhos e, assim, o terror se prolongava além das próprias causas. Portanto, a casa ficou deserta, condenada à solidão, completamente abandonada,  à mercê do espectro terrível. Apesar disso, a casa foi exposta à venda ou locação, esperando-se que alguém, que não soubesse da terrível maldição, se dispusesse a adquiri-la ou alugá-la.

A Atenas chegou o filósofo Atenodoro2, que leu o anúncio. Uma vez ciente do preço, e como sua modicidade despertava suspeitas, cuidou de indagar o motivo. Inteirado do que ocorria na  casa,  longe de desistir do negócio, o filósofo  ainda mais interessado ficou em alugá-la.  No limiar da noite, já na casa instalado, ordenou que lhe preparassem o leito no cômodo da frente. Pediu suas tábuas de escrita, um estilete e luz, determinando que os demais se retirassem aos fundos da vivenda. Concentrou, pois, o seu ânimo, olhos e mãos no exercício da escrita, para que sua mente não desse azo a ruídos imaginários ou medos absurdos.

A princípio, como em qualquer outro lugar, ouviu-se apenas o silêncio da noite.  Mas, em sequência, chegaram a ele o ruído de ferro agitado e o estrépito dos movimentos das correntes. O filósofo não ergueu os olhos nem abandonou o seu estilete, pondo, resolutamente, a vontade à frente dos ouvidos.

O espectro estava ali, de pé. Com um dedo, fazia um sinal, chamando-o.  O filósofo, de sua vez, acenava para que o fantasma esperasse um pouco, retomando o trabalho com suas tábuas e estilete. Mas o espectro insistia, fazendo soar as correntes para atrair-lhe a atenção. O filósofo voltou a cabeça para a aparição, que continuava a chamá-lo com um dedo. Então, tomando a  lamparina, prontamente a seguiu.

O espectro seguia a passos lentos, como se o peso das correntes o oprimisse.  Então,  desceu ao pátio da casa e, de repente, após desvanecer-se, abandonou o seu acompanhante. O filósofo recolheu folhas e ervas e, com elas, marcou o lugar onde o fantasma desaparecera.

No dia seguinte, procurou os magistrados, deles obtendo a licença para escavar o lugar. Encontraram-se ossos, ainda enredados em correntes. A carne, apodrecida pelo efeito do tempo e da terra, havia sido consumida, expondo os ossos jungidos aos seus grilhões. Reunidos cuidadosamente os ossos, foram enterrados em cerimônia pública. Depois disto, a casa ficou finalmente livre do fantasma, uma vez que os seus restos mortais foram sepultados convenientemente3.


Versão em português de Paulo Soriano.

Ilustração: Henry Justice Ford (1860–1941).

 

 Notas:

1 Caio Plínio Cecílio Segundo, chamado Plínio, o Jovem, foi um célebre orador, escritor, jurista e político romano.

2Atenodoro de Tarso (74 a.C. – 7 d.C.), filósofo estoico grego.

3A narrativa consta da Carta de Plínio a Sura (Livro VII, carta XXVII).  Muitos estudiosos consideram-na a primeira história de fantasmas, a  narrativa pioneira em que releva o componente sobrenatural. Pode o leitor verificar que, ao longo dos séculos, e mesmo na atualidade, tem-se explorado, nas histórias de fantasmas, os elementos centrais da narrativa do vetusto autor romano: uma casa assombrada;  uma alma penada arrastando correntes; moradores que, aterrorizados, buscam liberar-se da entidade alienando  a casa mal-assombrada  a preço vil; um novo morador que,  empregando fórmulas ou meios rituais,  obtém a liberação do ente fantasmagórico.  O título que conferimos ao conto parece ser o entre nós consagrado (Cf. Massaud Moisés, “A Criação Literária – Prosa I”, 23ª. edição, p. 33).


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