REMINISCÊNCIAS VAMPÍRICAS - Narrativa Clássica de Terror - Sheridan Le Fanu


REMINISCÊNCIAS VAMPÍRICAS

Sheridan Le Fanu

(1814 – 1873)

(Excerto de Carmilla, a Vampira de Karnstein)

Tradução de Paulo Soriano

 

Um acontecimento, ocorrido no limiar de minha existência, produziu em meu espírito uma impressão tão terrível que, de fato, nunca foi apagada. Algumas pessoas acharão este incidente — um dos primeiros de que posso me recordar — tão insignificante que não deveria ser aqui registrado. Todavia, logo você ficará sabendo por que eu o relato.

O “quarto das crianças”, como era chamado — embora fosse exclusivamente meu —, era uma um amplo aposento, situado no andar superior do castelo, coberto por um telhado de carvalho inclinado. Eu não devia ter mais de seis anos quando, certa noite, acordei em minha cama e, olhando ao redor, não vi a minha babá. Nem mesmo a minha aia estava no quarto. Pensei, então, que estivesse sozinha. Eu não estava com medo, pois era uma daquelas crianças felizes que são cuidadosamente mantidas à distância das histórias de fantasmas, dos contos de fadas, e de todas essas tradições populares que nos fazem cobrir a cabeça com o lençol quando a porta estala repentinamente, ou quando o bruxulear de uma vela, ao se apagar, faz dançar, sobre a parede, bem perto de nossos rostos, as sombras das colunas de uma cama. Fiquei aborrecida e me senti insultada por me descobrir — conforme me sentia — tão negligenciada, e comecei a choramingar, preparando-me para uma forte explosão de rugidos raivosos.

Foi quando, para minha surpresa, vi um rosto de expressão solene, mas muito gracioso, olhando para mim, ao lado de minha cama. Era o semblante de uma jovem mulher, ajoelhada e com as mãos pousadas sob a minha colcha. Olhei para ela com uma espécie de admiração prazerosa e parei de choramingar. Ela me acariciou, deitou-se a meu lado na cama e, sorrindo, puxou-me para junto de si. Senti-me imediatamente aliviada e adormeci novamente. Mas fui, depois, acordada por uma sensação semelhante à de duas agulhas penetrando simultânea e profundamente em meu peito. Então, soltei um grito estridente. A moça recuou, com os olhos fixos em mim; depois, escorregou para o chão e, como pensei que o faria, escondeu-se debaixo da minha cama.

Era a primeira vez em minha vida que eu me assustava verdadeiramente e gritei, energicamente, com toda a minha força. Quando ouviram o meu berro, a aia, a babá e a governanta vieram correndo em meu socorro. Ouviram a minha história, mas fizeram pouco caso dela. Procuraram, então, acalmar-me como podiam. Mas, embora eu fosse apenas uma criança, pude perceber que elas estavam pálidas e que os seus semblantes transpiravam uma ansiedade anormal. Vi que espiavam embaixo da cama e ao redor do quarto, e que olhavam por sob as mesas e abriam os armários. E ouvi a governanta sussurrando à aia:

— Passe a sua mão ao longo dessa depressão na cama. Estou certa de que alguém realmente se deitou ali. Note que o lugar ainda está quente.

Lembro-me da babá fazendo-me carinhos e de todas as três examinando-me no lugar onde eu lhes dissera que sentira as picadas. Mas elas me disseram que não havia em meu peito qualquer vestígio de que semelhante coisa tivesse acontecido comigo.

A governanta e as duas outras criadas que cuidavam de meu quarto ficaram sentadas, ao meu lado, a noite toda; e, desde então, e até eu beirar os meus quatorze anos, havia sempre uma criada velando-me a noite inteira.

Por muito tempo, depois deste incidente, o nervosismo abateu o meu espírito. Chamaram um médico, que era lívido e idoso. Lembro-me perfeitamente de seu rosto comprido e taciturno, ligeiramente marcado pela varíola, e de sua peruca castanha. Por um bom tempo, a cada dois dias, ele vinha e me dava remédios — e, é evidente, eu os odiava.

No dia seguinte àquela aparição, o meu estado de terror era de tal monta que eu não conseguia permanecer sozinha, por um instante sequer, mesmo à luz do Sol.

Lembro-me de meu pai, que viera ao meu quarto, ao lado de minha cama, conversando animadamente, fazendo perguntas à aia e rindo muito de suas respostas. Recordo-me de que ele me dera afavelmente tapinhas no ombro, beijara-me a face, e me dissera para não ter medo, pois que tudo não passara de um sonho e que nada poderia me machucar.

Mas nada daquilo me reconfortou: eu sabia perfeitamente que a visita da estranha dama não havia sido o sonho. Na verdade, eu estava terrivelmente assustada.

A babá tentou consolar-me, garantindo-me que fora ela quem viera à minha cama e se deitara ao meu lado. Disse-me que eu devia estar semiadormecida, e, por isto, não havia reconhecido o seu rosto. Conquanto a aia corroborasse aquela história, eu não ficara nem um pouco satisfeito com o que me disseram.

Lembro-me de que, no decorrer daquele dia, um venerável ancião, de batina preta, entrou no meu quarto, acompanhado da babá e da governanta. O velho homem conversou um pouco com as mulheres e mui gentilmente comigo. E, convidando-me a orar, juntou minhas mãos e me pediu, com sua doce e gentil fisionomia, que eu dissesse baixinho, durante a prece: “Senhor, ouve todas as boas orações por nós, pelo amor de Jesus.” Creio que essas foram exatamente as palavras, pois eu frequentemente as repetia para mim mesma, e, durante anos, a minha aia esforçou-se em que eu não as olvidasse em minhas orações.

Recordo-me perfeitamente do rosto benevolente, doce e pensativo daquele velho de cabelos brancos, metido em sua batina preta, parado naquele quarto baço, rústico e imponente, com sua tosca mobília de trezentos anos, e da luz pardacenta penetrando naquela sombria atmosfera através de uma pequena gelosia.

Ele se ajoelhou, juntamente com as três mulheres, e orou, em voz alta, com uma entonação fervorosa e trêmula, por um tempo que me pareceu demasiadamente longo.

Não me lembro de minha vida anterior a esse evento, e muito do que se seguiu a ele ainda me permanece obscuro. Mas as cenas que acabo de descrever se destacam vívidas em minha mente como imagens isoladas de uma fantasmagoria cercada pela escuridão.


 

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