O MELHOR AMIGO DE THOMAZ OLIVER - Conto de Horror - Ryk Barone

 


O MELHOR AMIGO DE THOMAZ OLIVER

Ryk Barone

 

Falar de Thomaz Oliver não é uma tarefa fácil, muito menos confortável. Ele era do tipo imprevisível: num dia ele me abraçava e dizia que eu era o seu melhor amigo, no outro colocava uma faca na minha garganta gritando que se eu não estivesse com ele estaria contra ele. Aqui não escreverei nada de novo, tudo o que vivi ao lado dele já contei em depoimento à polícia, mas numa tentativa de manter a memória de uma figura tão peculiar e distinta quanto Thomaz Oliver essa confissão se torna necessária, pois enquanto o mundo tenta se recuperar e apagar da existência a personalidade estranha e deslocada de Thomaz, eu tenho a obrigação como seu amigo mais chegado de lembrar o mundo de que existem outros Thomaz Oliver por aí, prontos para saltar da escuridão a qualquer momento e trazer caos ao mundo num arroubo de fúria imparável.

Podem chamar Thomaz de todos os nomes pejorativos que quiserem, porém, ninguém tem o direito de supor que ele era inconsequente, pelo contrário, cada passo dele era extremamente calculado, tanto que às vezes chego a pensar que tudo o que acontecera com ele era causado propositalmente pelo próprio Thomaz numa tentativa de justificar seus atos futuros.

Conheci Thomaz na oitava série. Nossa conexão foi quase que automática, eu um garoto de classe média alta, estudante de um colégio particular, sempre calado, introspectivo e com uma dificuldade fora do comum de falar ou me aproximar de qualquer outro adolescente da minha idade. Ele um menino magro e atarracado, de cabelos ruivos e oleosos que caíam até a altura dos ombros e óculos de com grau tão forte que mais pareciam duas lupas, fazendo com que seus olhos parecessem bolas de ping-pong, sem falar é claro do seu rosto coberto de espinhas.

Diferente de mim Thomaz Oliver não pertencia a uma família abastada. Ele vinha de um bairro na periferia da cidade, o que na nossa cidade  significava um lugar sem asfaltamento, dominado pelo tráfico de drogas e se as pessoas ouvissem barulhos de tiros (o que pelas histórias que Thomaz me contava acontecia duas ou três vezes por ano) elas logo voltavam correndo para as suas casas, fechavam as portas e as janelas, e esperavam que alguém fosse corajoso o suficiente para chamar a polícia, que demoraria no mínimo uma hora, não por causa da distância da delegacia para o bairro, e sim porque não valia o esforço de tentar ajudar gente como aquela.

A primeira vez que conversamos de fato foi quando uma das nossas professoras pediu uma redação em dupla sobre a origem da filosofia. Eu era fechado demais para que alguém quisesse fazer par comigo. Já estava pensando em como ia escrever aquilo sozinho e na vergonha que eu teria se a professora insistisse que os trabalhos deveriam ser lidos em voz alta na frente da classe, quando de repente vi aquele garoto magricelo saindo da primeira fileira da frente vindo em minha direção. Thomaz ficou de frente pra mim, estendeu a mão de forma cordial, e com um sorriso perguntou:

— Você é o Miguel, não é? Acho que não conversamos muito, mas presumo que esteja sem dupla.

— Sim... é, acho que não tenho — disse eu, um pouco espantado com a forma perfeitamente natural de Thomaz que, embora tivesse uma aparência estranha se comparado os outros alunos, possuía uma entonação de voz confiante e casual.

— Então eu vou ser sua dupla, claro se você concordar, acho que todos os outros já escolheram com quem vão trabalhar — disse ele, apontando para o resto dos alunos que se aglomeravam e conversavam alto.

Após uma breve conversa combinamos de nos encontrar na minha casa num sábado para dar vida à nossa redação. Meu pai estava em uma viagem de negócios e minha mãe tinha ido a um desses spas de luxo com minha irmã mais velha, desses que prometem emagrecimento rápido com um final de semana de massagem e saladas nas três refeições diárias, para que as mulheres dos figurões finjam serem mais magras e bonitas que as amantes dos seus maridos.

Thomaz chegou uma hora antes do combinado, não por um espírito de pontualidade fora do comum, mas porque nos finais de semana a frota de ônibus é reduzida e se ele demorasse um pouco mais para sair de casa era bem provável que chegasse perto do anoitecer.

— Eu tive que pegar dois ônibus pra chegar aqui, um a mais do que o eu tomo pra ir à escola — disse ele após cruzar a porta da minha casa. Ele estacou no meio da sala, lançou ao cômodo um olhar espantado e curioso, como uma criança que vê o mar pela primeira vez. —Caramba, eu sabia que você era riquinho, mas não sabia que era tanto assim.

— Não, Thomaz   — disse eu —, meus pais são ricos, e do jeito que eles se importam comigo isso aqui, os negócios do meu pai e todo resto vão ficar pra minha irmã. No máximo eu fico com um dos poodles da minha mãe.

— Relaxa cara, se eles te deserdarem, você contrata um advogado, ou então pode matar a sua irmã e ficar com a herança toda, queiram seus pais ou não.

Naquele momento nós caímos na gargalhada, pois é claro que naquela época eu pensava que o comentário era uma brincadeira infantil de um adolescente inconsequente demais para se importar se suas falas eram ou não moralmente corretas. Entretanto, como eu já tinha dito, Thomaz não era inconsequente. Agora, depois que tudo aconteceu, eu fico me perguntando se aquelas palavras não passavam de uma brincadeira calculada ou se era um sibilar sombrio de uma mente perturbada que logo mais entraria em ebulição.

O tempo passava e a nossa amizade se fortalecia cada dia mais. Eu descobri que ele ganhara uma bolsa de estudos do Estado que possibilitou sua entrada na escola o qual eu frequentava, após vencer um concurso de redação.

— Fácil como caçar coelhinhos — disse ele um dia na hora do recreio, quando conversávamos, vendo os outros garotos jogar futebol no pátio. —Aqueles burros da minha escola antiga mal sabiam ler direito, quanto mais escrever uma redação argumentativa, eles não saberiam diferenciar um texto didático de um conto de fadas dos irmãos Grimm nem se seu esfregasse o texto na cara deles.

É claro que uma grande parte dos adolescentes modernos tem dificuldade quando o assunto é leitura e escrita, e a maioria deles se quer sabem quem eram os irmãos Grimm, mas não Thomaz Oliver, ele era superior aos demais em vários aspectos e sabia muito bem disso. Era o primeiro da classe, respondia a qualquer pergunta sobre Filosofia e História no ato, quase que instantaneamente, sua perícia em Biologia poderia ser invejada até mesmo por estudantes de nível universitário. Tinha um pouco de dificuldade em matemática e física, mas nada que uma consulta os livros da biblioteca ou uma conversa com um professor entre os corredores não desse conta.

E foi justamente quando essa sagacidade e inteligência vieram a público que os problemas de Thomas começaram. Quando se é um garoto gênio numa escola no bairro pobre da cidade o máximo que pode acontecer são  duas coisas: ou você sai em alguma reportagem no jornal local com o título “garoto gênio surpreende seus professores”, e logo depois ninguém liga pra sua existência, até que você cresça e passe no vestibular de Medicina numa universidade pública e, ao invés do jornal local você ganha uma matéria no telejornal estadual com o título “garoto gênio estudante de colégio público passa em curso dos sonhos”. Mas quando se está no mesmo ambiente que os filhos de homens e mulheres bem sucedidos e famosos é diferente, a banda toca de outra maneira.

Pessoas ricas têm um olhar fantasioso acerca dos próprios filhos. Eles têm certeza que os filhos serão tão disciplinados e bem sucedidos quanto eles, que, ao invés de fazer besteira e postar maluquices sem sentido na internet (assim como todo mundo que tenha a mente minimamente equilibrada), sua prole está vendo vídeos educativos ou doando uma parte da sua mesada para os médicos da MSF em missão na África. Além, é claro, da visão antiquada de que bullying é coisa de adolescentes suburbanos que não sabem conviver com as diferenças, pois seus filhos estão um patamar acima dessas frugalidades caipiras. Ledo engano.

Essas mesmas crianças “evoluídas” começaram a implicar com Thomaz. No começo foram apenas uns xingamentos inofensivos como “nerd” ou “computador humano”. Porém, quando a oitava série tinha ficado para trás e o primeiro ano do ensino médio chegou, as ofensas passaram de verbais para físicas. Esbarroes, chutes, socos sem prévio aviso da parte dos meninos, cuspidas, bilhetes maldosos e risadas por partes das meninas.

Eram como uma mensagem velada, uma carta de repudio à imagem raquítica e fisicamente impotente de Thomaz, algo que dizia “Tudo bem você estar aqui por um ato de caridade do Estado, que as vezes inventa de olhar para pessoas mal nutridas e pobres como você, mas vir aqui usar sua inteligência para tentar ser melhor que a gente? Isso é demais pra pessoas como nós.”

No começo até tentei intervir e ajudar Thomaz. Eu não era lá muito diferente dele em aspectos físicos, eu poderia no máximo dar força moral a ele no momento em que algum valentão da nossa sala o estivesse espancando atrás do muro da escola.

— Não se meta Miguel, essa briga não é sua – dizia ele quando eu tentava impedir que algum idiota o machucasse.

Lembro-me de uma conversa quando ele veio passar o final de semana em casa, todos tinham saído para cuidar de suas vidas, então tínhamos a casa só pra nós.

— Por que você não procura a direção da escola? Eles têm que fazer alguma coisa com relação aos outros garotos — disse eu.

— Até parece – disse Thomaz tirando os ósculos e limpando na ponta da camisa. – Se fosse você eu teria certeza que eles iriam fazer algo, seus pais são mais ricos que pais daqueles garotos, mas eu? Eu sou só um moleque sardento da zona pobre, ninguém liga pra gente assim.

— E seus pais? Eles não dizem nada?

Naquele momento eu vi rosto do meu amigo se contorcer com seriedade, seus olhos ficaram frios como gelo, de tal forma que os óculos de fundo de garrafa que ele recolocara davam-lhes um aspecto ainda mais sombrio.

— Minha mãe foi embora há muito tempo, e meu pai... chega, não quero mais falar sobre isso.

Existem fatos sobre Thomaz Oliver que eu prefiro omitir, porém o que vou relatar agora parece forte demais para ser deixado de lado. Ele raramente era visto sem hematomas nos braços ou na altura do pescoço. Uma vez, quando Thomaz veio à minha casa na intenção de me ajudar com algumas questões de história, seu olho direito estava roxo, como se tivesse levado um soco de um boxeador profissional.

— Eu caí da escada — disse ele quando eu perguntei como ele adquirira tal machucado.

Porém, não havia escada alguma em sua casa, coisa que eu descobri após grande insistência em conhecê-la. Depois de muito protesto e ressalvas sobre a humildade da casa, Thomaz me convidou para passar um final de semana com ele. Seu pai estava fora da cidade para visitar o irmão e, mais uma vez, ficaríamos sozinhos, só que dessa vez não teríamos empregadas para fazer nossas refeições como na minha casa, mas isso não era problema, pois, segundo Thomaz, um de seus inúmeros talentos era cozinhar.

Após chegar ao endereço (e de um sermão do meu motorista sobre como era perigoso andar com um carro como aquele por aquelas bandas) e bater na porta algumas vezes, fui atendido por ele. O que eu vi só não me chocou mais do que aquilo que viria posteriormente. Thomaz estava lá do outro lado da porta aberta, com os cabelos ruivos e oleosos, que naquela época apresentavam um corte singelo o suficiente para impedir que as pontas crescessem para mais abaixo dos ombros, com as mãos e a camisa impregnadas com algo que, a julgar pelo forte cheiro metálico, parecia ser sangue.

Ele me cumprimentou ignorando minha feição de espanto e me convidou para entrar. Sua casa era pequena, porém nos moldes da comunidade em que vivia era considerada um palacete. Era perfeitamente organizada e pouco enfeitada, e se eu não soubesse que a mãe de Thomaz tinha fugido eu julgaria que tamanha arrumação só poderia ser produto de um senso de estética feminino. 

Minutos depois de conhecer sua casa fui convidado por Thomaz a um pequeno quintal nos fundos, e ali pendurado num galho grosso de uma arvora que, pelo aspecto bem podado e brilhante das folhas, era constantemente cuidada e adubada, estava o motivo da tamanha sujeira nas mãos e na roupa de Thomaz. Um gato preto de olhos saltados exibia as vísceras despencando do que antes devia ser seu pequeno estomago, o corte que originou o ferimento era uma linha horizontal perfeita.

Aquela visão me deu náuseas quase que instantaneamente, tanto que tive que fazer um esforço acima do comum para não pôr o café da manhã para fora ali mesmo.

— Calma, Miguel — disse ele, rindo do meu estado quase que catatônico —, não sabia que você tinha estomago frágil. Era pra eu ter me livrado dessa coisa antes que você chegasse, mas eu fiquei tão entretido e...

— Mas que porra é essa? — gritei eu. — Foi você que fez isso? Você é algum tipo de psicopata?

—Não, cara, vou te explicar, deixa eu tirar isso daqui e tomar um banho — disse ele, indo em direção ao animal abatido. – Por favor não vá embora.

Depois de meia hora eu já estava ficando impaciente, meu instinto de autopreservação dizia que eu devia ir embora daquela casa e nunca mais falar com Thomaz outra vez. Se ele fosse algum tipo de psicopata animal, que matava e estripava gatos, tudo bem, mas eu me recusava a ter contato com alguém que praticasse esses tipos de aberrações, mesmo que fosse o único amigo de verdade que eu tinha no mundo.

Thomaz apareceu. Estava vestindo uma camisa limpa e o sangue tinha sumido se suas mãos. Logo depois, ele me explicou que o pai dele era açougueiro, o que permitia que ele tivesse um pouco mais conforto que a maioria das pessoas do bairro.

— Uma vez eu vi o meu pai estripando um porco no trabalho. Eu devia ter uns 10 anos na época — disse ele —; eu me lembro do corte perfeito que ele fez pra tirar as vísceras do coitado.

— Mas o porco estava morto, não é? — disse eu, ainda assustado, pois a visão do pobre gato ainda não saia da minha cabeça; porém, o fato de Thomaz estar se abrindo o bastante para falar do pai comigo pela primeira vez abrandou meu espírito. Se ele fez com sinceridade ou para me impedir de ir embora eu não sei, e talvez nunca saiba, a cabeça de Thomaz se mostrou um mistério complexo demais para mim.

— Sim, estava — respondeu ele. — Mas eu queria saber como era, se eu me lembrava realmente do corte e se poderia reproduzi-lo tão perfeitamente quando meu pai. Eu não tinha um porco, e aquele gato estava rondando a cozinha todo dia, pulando o muro da vizinha e alcançando meu telhado, ou seja, era uma praga, tinha de ser eliminado, o mundo está melhor sem ele.

Essa era a visão de Thomaz sobre o mundo, e mais tarde eu descobriria que não se resumia somente a gatos perdidos, cães de rua e coisas do tipo, sua filosofia ia muito além de exterminar pragas irracionais.

Daquele dia em diante eu notei uma mudança no comportamento de Thomaz: seu aspecto risonho e receptivo adquiriu uma tonalidade cada vez mais sombria. Suas notas estavam caindo consideravelmente, ele não respondia mais às perguntas que nossos professores faziam com tanta frequência como antes, e, além dos hematomas costumeiros e olhos roxos, que eram impossíveis de esconder, algumas manchas de sangue começaram a aparecer nas mãos e na roupa de Thomaz.

Uma vez ele chegou com uma enorme marca de sangue coagulado no rosto, que só foi percebida por ele quando foi alvo de uma infeliz brincadeira de um dos nossos colegas, que perguntou se ele estava usando o sangue de menstruação da mãe como maquiagem. Nesse dia Thomaz saiu em fúria pela sala, sem sequer me dirigir a palavra. Não retornou e nem apareceu pelo resto da semana.

Eu gostaria de dizer que não tive culpa pelo incidente causado por Thomaz, mas no fundo minha consciência não me deixa mentir. Sim, eu tive uma grande parcela de culpa e viverei o resto da vida com essa chaga aberta. Eu sabia muito bem que aquele sangue não era de Thomaz. Talvez ele estava usando os gatos da vizinhança como cobaia para seu plano derradeiro, ou apenas extravasando a raiva do mundo. O mundo que estava cheio de pragas, mas pragas, segundo ele, deviam ser eliminadas, o mundo estará melhor se elas forem eliminadas.

Se você chegou até aqui já deve ter percebido que Thomaz era um vulcão prestes a explodir. E explodiu realmente, mas deixe-me lhe contar qual foi a gota d’água, o evento final que fez com que Thomaz Oliver decidisse que humanos, assim como gatos pretos perdidos, são como pragas.

Depois do episódio em que Thomaz tinha saído da sala em fúria, eu telefonei para ele durante dias. Eu iria até a casa dele, mas tinha medo de que seu pai estivesse lá, e, depois da minha partida, o pobre Thomaz fosse castigado por levar estranhos em casa. Então, após várias insistências na noite de domingo, ele me atendeu.

Meu amigo estava decidido a voltar a seu colégio antigo e desistir da bolsa. A implicância dos nossos colegas de sala era demais para que ele suportasse. Mesmo uma mente brilhante como a dele não era emocionalmente forte para aguentar tudo aquilo. E, embora Thomaz não admitisse, as coisas com o pai dele não eram muito melhores.

—Eles fazem aquilo porque sabem que você é superior e mais inteligente do que eles seriam em um milhão de anos — disse eu com uma voz meio histérica. — Se você sair; eles vencem; é isso que você quer? Vai deixar os engomadinhos filhos da puta vencerem?

— Não sei, cara — disse ele —, mas talvez você tenha razão, eu mereço estar lá tanto quanto eles, até mais que eles.

E assim eu convenci meu amigo a voltar pro seu inferno particular.

Na segunda-feira estávamos lá, Thomaz e eu, de volta àquele antro de burrice velada e vaidade burlesca que chamávamos de escola. Antes de entrarmos na sala, fomos ao banheiro como de costume, meu amigo não costumava sair durante as aulas, pois gostava de extrair todo o conhecimento que nossos professores tinham a proporcionar. Mas para nossa surpresa, e futura desgraça, alguns dos valentões que implicavam com Thomaz estavam lá, jogando conversa fora e rindo como numa colônia de férias.

Eles voltaram seu olhar para o meu amigo e quando Thomaz virou as costas na intenção de sair daquele lugar, um deles agarrou o braço dele e disse, furioso:

— Onde pensa que vai, veado do cabelo oleoso?

— Deixa ele em paz —, gritei eu, tentando livrar o meu amigo da fúria dos idiotas, porém sem sucesso.

Sem sequer olhar pra mim, mantendo uma feição segura e fitando seu antagonista, Thomaz disse as palavras que sempre utilizava quando eu tentava ajudá-lo:

— Não se meta, Miguel, essa briga não é sua.

Eu juro pelos deuses que aquela frase soou diferente daquela vez. Pareceu que Thomaz estava realmente conformado com aquela situação, mais do que isso, ele inconscientemente queria se tornar mais uma vez vítima de poderes que, ao menos naquele momento, não poderia combater. Por esse motivo ele não tentou se defender quando um outro garoto o pegou pelo cabelo, abriu a porta de um dos banheiros privados, enfiou sua cabeça no vazo sanitário e deu a descarga.

Segundos depois da trupe de valentões terem ido embora, rindo e gargalhando do seu recente feito, Thomaz saiu. Seu rosto estava calmo e tranquilo. Ele pegou um maço de papel higiênico, secou os cabelos o melhor que pôde e disse:

—Vamos, a aula de geografia já vai começar, e, a propósito – disse ele me dando um abraço forte e repentino —, você é meu melhor amigo, e eu te amo.

— Eu também te amo – respondi, retribuindo o abraço.

Naquele momento algo despertou em Thomaz, algo como uma tempestade que chega sem avisar e carrega tudo o que tem em sua frente. Um novo Thomaz Oliver nasceu; pena que esse era mortalmente diferente do seu antecessor.

No outro dia, quando cheguei na escola, senti a falta de Thomaz. Nós sempre nos encontrávamos no portão de entrada para irmos juntos a sala de aula. Depois de alguns minutos, desisti de esperar meu amigo, talvez seu ônibus tivesse atrasado ou ele devia ter ficado doente. Então fui para a sala prometendo a mim mesmo que telefonaria para ele assim que chegasse em casa, só para ter certeza que ele não desistira mais uma vez de voltar à escola.

Alguns minutos após a aula começar e a professora de filosofia (concidentemente a mesma que foi a responsável pela redação que iniciou a nossa amizade) começar a tratar do pensamento de um filósofo romano chamado Cícero, Thomaz entrou na sala e, sem dizer nada, fazer alguma menção ou esperneio, tirou da cintura um revólver calibre 38 e atirou na testa da pobre docente.

Os gritos estridentes começaram bem na hora em que o corpo da primeira vítima de Thomaz Oliver desabou ao chão, inerte, como uma boneca de pano que caiu das mãos de uma criança.

O rosto do meu amigo estava totalmente inexpressivo, era como se o ato de ter acabado de tirar a vida de uma pessoa inocente não significasse nada, era como cortar a barriga de um gato, as pragas deveriam ser eliminadas.

Sem perder tempo, Thomaz arrastou uma mesa a sua frente para bloquear parcialmente a porta, na intenção de retardar momentaneamente a entrada de algum intruso. Em seguida, ele passou o olho ao redor da sala, nossos olhos se encontraram, e ele me deu um sorriso de contentamento. E eu que estava estacado de medo e com a mente confusa demais para processar as coisas, rapidamente me levantei, num súbito arroubo de coragem (ou senso de  autopreservação) e corri em direção a Thomaz que, sem perceber meu movimento, mirou na cabeça de um dos garotos que estavam presentes no episódio do banheiro e disparou mais uma vez.

— Thomaz que porra é essa? O que está fazendo — gritei.

— Uma coisa que já deveria ter feito há muito tempo Miguel, me vingando, acabando com as pragas que infernizaram minha vida, porque não aguentaram conviver com alguém melhor que eles — disse ele, mirando uma garota na fileira do meio,  que estava chorando e tremendo de modo tão histérico que despencou da cadeira ao chão.

Nesse momento, eu tentei impedir que meu amigo, em sua fúria assassina, fizesse mais uma de suas vítimas e segurei o braço que empunhava a arma. Numa luta, que me pareceu interminável e cansativa, eu consegui arrancar o revólver das mãos dele, depois de tê-lo acertado no rosto com tanta força que os óculos voaram do rosto. Mas Thomaz estava longe de acabar seu pequeno massacre.

Seguindo o meu infeliz exemplo, Vitor, um garoto corpulento e de bochechas inchadas, lançou seu imenso corpanzil sobre Thomaz, fazendo com que ambos caíssem no chão. Entretanto, meu amigo era mais ágil que o pobre Vitor, e é por esse motivo que quem se refere a Thomaz Oliver como um inconsequente é porque não o conhecia, pelo contrário, entrevendo que poderia ficar sem munição ou entrar em luta corporal, Thomaz havia trazido consigo embaixo da camisa, embalada em uma pequena toalha, uma das facas afiadas de cabo de madeira de seu pai açougueiro. Com um movimento rápido, ele pegou a faca e apunhalou Vitor na jugular, e, com uma força quase que sobre-humana, lançou o corpo gordo do menino para longe. Os gritos recomeçaram, e com eles podiam-se ouvir passos no corredor.

— Eu estou armado, porra; se alguém entrar aqui, eu mato pelo menos mais dois antes de ser pego, eu estou avisando, caralho — disse Thomaz para as vozes que gritavam atrás da porta e vindo em minha direção com seus olhos fervendo de ódio.

Você deve estar se perguntando: se eu estava com a arma, então por que não atirei em Thomaz e acabei logo com isso tudo? Sobre isso não vou me explicar, pois nem eu sei direito a resposta. Talvez por medo, talvez por amar Thomaz demais para feri-lo.

Eu ainda tinha esperanças de que tudo aquilo fosse só um pesadelo, e que quando eu acordasse iria estar tudo bem. Eu encontraria Thomaz na entrada do colégio, assistiríamos nossas aulas em nossas mesas, uma ao lado da outra, e nos encontraríamos no final de semana onde teríamos a casa só pra gente mais uma vez. Mas não, aquilo era a realidade, e, seja lá como aquilo acabaria, eu tinha certeza que nunca mais teria meu amigo de volta.

Rapidamente ele me jogou no chão com violência, tirou a arma das minhas mãos, pôs a faca ensanguentada em minha garganta e disse aquelas palavras. Ah! aquelas palavras, eu jamais vou esquecer:

— Qual é a sua, seu filho da puta? Ou você está comigo ou está contra mim, caralho!

Após tomar o revólver das minhas mãos, Thomaz apontou para a fina porta de madeira e deu dois disparos que foram respondidos com um grito do que parecia ser uma voz masculina. Depois ele simplesmente “fez a festa”: todos estavam com medo demais para correr e só conseguiam gritar, ninguém de fora tinha coragem o suficiente para entrar, os seguranças do colégio não andavam armados e, até a polícia chegar, Thomaz já teria sido bem sucedido em sua vingança.

Thomaz descarregou as últimas duas balas na menina que outrora havia caído da cadeira, abriu o tambor e com a rapidez de um especialista e o recarregou. Atirou mais duas vezes na porta para ter certeza de que ninguém estava por de trás e fez mais uma vítima, uma garota loura que certa vez lhe havia mandado um cartão do dia dos namorados, cujo conteúdo continha uma frase de deboche sobre suas espinhas.

Depois, apontou para um Renato, rapaz negro que tinha tentado se esconder entre alguns alunos que se aglomeravam agachados no canto esquerdo da sala. Fora aquele garoto que tinha enfiado a cabeça de Thomaz no vaso sanitário. Ele fez com que o menino ficasse de joelhos à sua frente e o apunhalou no peito, e, logo após um jato de sangue ter saído da boca do rapaz, que alguns segundos atrás implorava pela vida, Thomaz segurou seu cabelo afro penteado em estilo black power e mostrou para todos os presentes o que aprendeu com o pai quando colocou o revólver mais uma vez na cintura e degolou o Renato, da mesma maneira que um profissional experiente arranca a cabeça de um boi.

A essa hora, eu já estava caído no chão, tremendo de pavor. Aquele não era o Thomaz Oliver que eu tinha conhecido: era um mostro cruel que tinha tomado a forma do único amigo que eu tive.

Foi então que o barulho das sirenes de polícia começara a ser ouvidas ao longe. O pesadelo estava prestes acabar e com ele o tempo de Thomaz. Foi então que meu amigo olhou para mim com uma feição de satisfação, deixou cair a cabeça degolada de Renato, que pingava gotas grossas e incessantes de sangue, sorriu, sussurrou algo que eu não entendi, pegou o revólver, posicionou o cano embaixo do queixo e puxou o gatilho.

As lembranças do que aconteceu depois são um borrão não minha memória, eu só me lembro de me arrastar em direção ao corpo inerte de Thomaz, posicionar a cabeça dele no meu colo e chorar, chorar como uma donzela de coração partido. Foi assim que a polícia me encontrou quando entrou na sala vazia, exceto pelos corpos das vítimas, pois todos os sobreviventes já tinham corrido em disparada após o suicídio de Thomaz.

Mais tarde ficamos sabendo que a professora não foi a primeira a ser morta por Thomaz. Antes de chegar na escola ele havia atirado e degolado o próprio pai, cujo corpo foi encontrado embaixo da árvore do quintal dos fundos, e a cabeça, que apresentava um buraco de bala no meio da testa, estava na lata de lixo da cozinha.

Eu poderia discorrer aqui sobre os eventos posteriores as ações de Thomaz, mas sinceramente eu não me importo. Também não vou discutir se meu único amigo tinha planejado aquele atentado desde cedo ou se tudo não passou de uma tentativa de vingança de uma mente emocionalmente frágil, isso eu deixo pros aspirantes a psicólogos e filósofos descobrirem. Tudo o que eu quero por meio desse relato é manter viva a memória de alguém que o mundo quer esquecer, não por aprovar os seus atos, mas por saber que existem vários outros Thomaz Oliver por aí, mentes brilhantes que o mundo quer soterrar por não fazerem parte daquilo que ele julga aceitável.

Mas é inevitável que mais cedo ou mais tarde eles se deem conta de que certas pragas devem simplesmente ser exterminadas.


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