A DIFÍCIL TAREFA DE DEMÉTRIOS NA ÚLTIMA NOITE DE NATAL - Conto de Terror - Afonso Luiz Pereira


A DIFÍCIL TAREFA DE DEMÉTRIOS NA ÚLTIMA NOITE DE NATAL

Afonso Luiz Pereira

 

Meu pai sempre me dizia que, em tempos de tribulação ou de guerra, a tarefa mais difícil de realizar era destinada apenas àquele que tinha a capacidade de suportá-la.

 

Dia 18 de dezembro de 2031.

 

Depois de dois dias de caminhada, faltando sete para o Natal, milagrosamente encontramos uma árvore saudável, em meio à vegetação rarefeita e depauperada, nascida do solo comprometido da radiação nuclear. Era um pinheiro ainda pequeno, bonito, viçoso e, apesar do tamanho, tínhamos certeza de ser suficientemente adequado para o cobrirmos de penduricalhos natalinos. Oh, sim, Senhor, por certo que poderíamos fazer dele uma verdadeira obra aos olhos das crianças. Elas finalmente teriam a oportunidade de experimentar uma festa natalina completa, como as que se faziam antigamente, e das quais não cansávamos de atiçar-lhes a imaginação. Lembrei-me do brilho dos olhos de Mateus e Alice, meus filhos, quando ouviram falar pela primeira vez das antigas festividades natalinas em nossa época de criança. Imaginem só quão reluzentes não haveriam de ficar, ainda mais, aqueles olhinhos tristes, quando estivessem na presença de um sonho que só vínhamos alimentando através de palavras?

Ontem mesmo, ao entrarmos discretamente na velha e decrépita vila de Borborema, tivemos os primeiros indícios concretos de que era possível, sim, conseguirmos a façanha de realizar uma noite de Natal completa. Abílio achou uma roupa de Papai Noel e acessórios, incluindo barba e barriga postiças, gorro, cinto, enfim, tudo bem conservado dentro de uma caixa de papelão. E se não fosse o fato de atrair as dezenas de mortos-vivos que circulavam em frente aos escombros da loja de conveniências, gritaríamos “hurras”, bateríamos palmas e riríamos alto para extravasar tamanho contentamento.

A ideia da Noite de Natal só tomou corpo, de verdade, quando o negro Ateneu, teimoso como uma mula, decidiu se embrenhar na capital infestada de mortos-vivos no intuito de demonstrar a sua valentia irresponsável, atitude típica de jovem mal saído da adolescência, e, não sabendo como, fez promessa de trazer das ruínas da cidade algum souvenir que ainda não tivéssemos no forte. Pois não é que ele trouxe, entre algumas quinquilharias sem valor, um pisca-pisca natalino e uma bateria para fazê-lo funcionar. Por isso, naquele momento, ao encontrarmos a roupa de Papai Noel, não cabíamos em nós de tanta felicidade. Possuíamos quase tudo para materializar o sonho de nossos filhos. Sim, quase tudo. Faltava a árvore.

 

Dia 19 de dezembro de 2031.

 

Hoje à tarde ocorreu algo extremamente incomum. Quando caminhávamos pelo descampado cinza, de vegetação rasteira, pontuado por umas poucas árvores mirradas e quebradiças, do que outrora fora a zona rural circunvizinha à cidade de Borborema, avistamos num aclive pedregoso, ao longe, cincos mortos-vivos postados em atitude rara de observação. Muitíssimo estranho, aquilo! Eles não eram dados a observar, muito pelo contrário, eles atacavam sem pensar em sua própria segurança. Parei abruptamente para apontá-los ao grupo. Não nos intimidamos com aquelas criaturas porque estávamos em mesmo número, e fortemente armados.

A escolha de se fazer o caminho por áreas mais afastadas dos centros urbanos destruídos era justamente no sentido de evitar as concentrações de zumbis, muito mais comuns nas cidades abandonadas. Levei o binóculo aos olhos, e o que vi me deixou estarrecido! O morto-vivo mais alto, vestido com uma camisa amarela da Petrobrás, na verdade um conjunto de trapos e tiras de pano encardido por sobre o corpo coberto de enormes feridas, lançava seus olhos esbranquiçados, sem vida, sobre nós de uma maneira diferente. Ele torcia a cabeça bruscamente para um lado e para o outro, como se buscasse entender por que cinco apetitosos humanos se arriscavam a carregar uma inútil árvore, sem frutos, em campo aberto. “Acho que o maldito está pensando!”, falei, sem me voltar aos demais. Não gostei nem um pouco da situação. De repente, ele emitiu alguns grunhidos e se encaminhou, levando os outros com ele, para o lado oposto do aclive pedregoso, sumindo de nossas vistas. Todos nós ficamos pasmos, sem entender, olhando apatetados uns para os outros como que a dizer: “o que deu neles?”

 

Dia 20 de dezembro de 2031.

 

O que eu mais temia aconteceu: caímos numa emboscada. Para chegarmos mais rapidamente ao forte, decidimos encurtar caminho através da estrada principal da Vila do Sossego. Depois de avançarmos quase à metade da rua deserta, coberta de poeira e lixo, fomos surpreendidos! Os mortos-vivos, bem mais aterradores à noite, inesperadamente, começaram a surgir das vielas escuras de ambos os lados da passagem. Nunca, em todos estes anos, havia testemunhado por parte dos zumbis semelhante planejamento sincronizado de ataque. E qual não foi a minha surpresa ao perceber, lá no final da rua, a figura grotesca, mal cheirosa e pútrida do “Camisa Amarela”, emitindo grunhidos altos e gesticulando os braços, como se fosse um regente conduzindo a sua orquestra apocalíptica. Filho da puta, esbravejei com ódio.

“Abílio, você arrasta o pinheiro, enquanto lhe damos cobertura. Vamos sair deste inferno.” – Disse alto, tomando a decisão de imediato.

Escolhemos a formação de defesa retangular, em paralelo com as laterais da rua, formação esta que nos permitiria abrir fogo para todos os lados, sem descuidar da retaguarda. Vimos Abílio, o homem fisicamente mais forte do grupo, no centro do retângulo, sacar a sua metralhadora de pequeno porte com a mão direita e, com a esquerda, agarrar uma das grossas hastes da nossa preciosa árvore. “Estou pronto. Vamos embora”, ele disse, começando a puxá-la de arrasto enquanto já apontava e estourava, com uma rajada breve e seca, o peitoral do zumbi incauto mais audacioso. O sangue preto que espirrou da criatura pareceu instigar a selvageria nos outros.

“Vamos recuar, pessoal” – falei alto, decidido, na

intenção de abrir caminho à força na retaguarda mesmo, por esta, aparentemente, conter um menor número de mortos-vivos. E olha, não economizamos munição. Atiramos no que vimos e não vimos, opondo resistência desesperada contra os monstros que se projetavam mais próximos da formação retangular. O jovem Trindade, impetuoso, porém inexperiente, berrava alucinado apontando a metralhadora de um lado para o outro, tentando varrer a bala as coisas ensanguentadas que lhe vinham no encalço. “Na cabeça, Trindade. Um por vez, na cabeça”, eu berrava em meio à confusão. Trindade foi agarrado pelo antebraço por um deles e puxado para dentro do turbilhão de criaturas esfomeadas. Recuso-me a descrever a cena grotesca que se seguiu.

Abílio, Hermes, Juarez e eu, homens experientes na exploração de campo, talhados para reagir a um ataque como aquele, tínhamos ciência que em dado momento da peleja não seria possível recarregar as armas em tempo hábil para rechaçar as investidas, cada vez mais próximas. Um vacilo qualquer de um de nós, certamente condenaria os quatros, enquanto não chegássemos à boca da rua para correr em campo aberto, fugindo dali como pudéssemos. Mas antes que abandonássemos as armas sem munição e puxássemos os facões da cintura, ouvimos os grunhidos graves, urgentes, que se destacaram pontualmente acima da confusão à nossa volta. Imediatamente a cena, coalhada de zumbis, clareou como num passe de mágica. Eles, inexplicavelmente, recuaram à escuridão das vielas de onde vieram e nos deixaram sozinhos, assustados, esbaforidos, com os nervos em frangalhos. Pasmem! Escafederam-se todos, exceto o maldito Camisa Amarela da Petrobrás!

O horroroso e temível líder impunha respeito. Ele nos constrangia deliberadamente impondo a força do mesmo olhar esbranquiçado e inquisidor do dia anterior. Senti horror àquela criatura. Medo. Senti medo. Senti mais medo da maneira como ele parecia nos avaliar do que o combate corpo-a-corpo, poucos minutos antes. Aquela coisa não se deixaria matar facilmente como os outros. Abílio e eu, sem trocar palavras, colocamos a árvore nos ombros. Em seguida, cuidamos de imprimir um trote urgente para bem longe da Vila do Sossego. Mesmo depois de meia hora de caminhada forçada, minhas costas pareciam arder, não pelo peso incômodo do pinheiro, mas por ter uma certeza desagradável de estar sendo observado, de modo meticuloso, por olhos impossíveis de vencer a escuridão da noite.

 

Dia 24 de dezembro, véspera de Natal.

 

Era a árvore de Natal mais bela e resplandecente que eu já vira. As crianças estavam maravilhadas, alegres, sorridentes, falantes. E, como eu havia previsto, testemunhar a vivacidade nos seus olhos era uma dádiva para se guardar por uma vida inteira. O pisca-pisca, envolto no pinheiro, entrelaçado de centenas de pequenas lâmpadas, espargia aquele brilho aleatório, intermitente, a partir do centro da sala, entremeado de flashes cintilantes das bolas de plástico reluzente, nas quais as crianças se olhavam e riam à toa, fazendo caretas, divertindo-se com seus reflexos circulares. Mateus e Alice, com os rostos lambuzados de chocolate, olhavam-me e apontavam-me, orgulhosos, às dezenas de amiguinhos tão felizes quanto eles. Foi a cena mais bonita que eu já tive a oportunidade de ver nesta minha vida e, certamente, haveria de ser a derradeira.

Antes de deixar os pequenos, entregues às brincadeiras, fui até ao pequeno aparelho de som, conectei o cabo de força na bateria e coloquei o velho CD de Natal, o mesmo das minhas noites natalinas de outrora. Aumentei o volume ao máximo. As crianças pararam de brincar por alguns minutos, envolvidas pela melodia das harpas e canções clássicas que nunca tinham ouvido. Olhei para a mesa, um pouco mais ao fundo, quase na penumbra, cheia de toda sorte de guloseimas, resgatadas do porão de um supermercado, na verdade um monte de entulho, no mês anterior. Sorri orgulhoso. Era uma noite de Natal completa. Depois, fiz um sinal discreto para Abílio, vestido de Papai Noel, para que me acompanhasse lá fora. Saímos os dois. Tranquei a porta por fora. Tínhamos de enfrentar o inferno a poucos metros dali.

A sala escolhida para abrigar a árvore e a decoração natalina foi o cômodo mais alto e seguro do forte. Seria ali, entre aquelas quatro paredes de clima alegre e festivo, provavelmente o último reduto da humanidade a sucumbir à selvageria das criaturas mefíticas que tomaram de assalto o planeta inteiro.

Os mortos-vivos, surpreendentemente, começaram a chegar de todas as direções ao mesmo tempo antes do sol abandonar a vegetação seca e pardacenta que circundava por quilômetros o nosso forte, e até onde sabíamos, a construção fortificada mais segura da região. Mas, então, naquele início de noite, o que parecia ser mais um confronto contra algumas poucas dezenas de criaturas errantes, tornou-se algo de maior vulto, algo que excedia de longe o comportamento de ataque atabalhoado e irracional costumeiro. Eles não se apresentaram para derrubar cercas nem portões, com a finalidade de invadir, deixando-se aniquilar facilmente por nossas armas. Desta vez, eles foram chegando, foram se aglomerando ao redor do forte, sem atacar, apenas rendendo-se à uma espera, para nós, gradativamente angustiante e, no andar do tempo, constatado os fatos, desesperadora. Em duas ou três horas, das poucas dezenas de mortos-vivos que se punham às nossas vistas, passaram-se às centenas! Não mais do que cinco horas de cerco depois, olhávamos estupefatos as milhares de cabeças famintas, cercando-nos por todos os lados. Quando demos pela gravidade, já era tarde. Estávamos sitiados naquele mar horroroso de zumbis, sem opção de retirada.

“O que estas coisas estão esperando?” – perguntou-me Abílio, retirando o gorro e a barba postiça, sem virar-se para mim, olhando a multidão infecta, parada, além das paredes de madeira velha que nos guardavam.

Os sobreviventes, meus amigos, a minha grande família, todos em seus postos de combate dentro do pátio próximo ao portão principal, ou nas áreas mais vulneráveis, olhavam-nos lá de baixo, como se a visão do exército de mortos-vivos confirmasse a cena final do apocalipse. Havia em cada rosto um misto de medo e determinação de lutarem até o fim. Finalmente, um movimento diferente começou a criar uma onda em torno dos infectados. Um corredor se abria à chegada de alguém e eu já bem sabia de quem se tratava: era o Camisa Amarela.

Respondi a pergunta de Abílio apontando a nossa desgraça com o dedo indicador: “Ele. Todos estão esperando por ele!”

Camisa Amarela, à frente do maior contingente de mortos-vivos que eu já presenciara, levantou a cabeça para cima. Seus olhos, parecendo dois feixes de luz dentro da noite, alcançaram-me de modo implacável, perscrutando-me, como já esperava que fizesse. Não desviei o meu olhar da intimação. Havia me preparado para não demonstrar medo diante dele. Ignorei os glóbulos esbranquiçados daquele zumbi. No entanto, quando um sorriso sarcástico incomum se assomou na face purulenta e devastada daquela insólita criatura, um arrepio me tomou todo o corpo, como se o próprio diabo, tendo somente ele a habilidade de expressar semelhante fisionomia malévola, o fosse. Percebi, então, que estávamos irremediavelmente condenados. Não havia para onde fugir, ou a quem recorrer. Se Deus nos havia deixado à revelia, o demônio, não!

Abílio também viu a face de malignidade sobrepor-se à selvageria irracional do líder da horda. “Que nossa Senhora, mãe de Jesus, nos receba bem”, ele disse num sussurro. E antes que eu pudesse dizer-lhe qualquer coisa, ele me abraçou forte, levando-me aos ouvidos o dever de minhas obrigações: “Força, Demétrios, não hesite! Cuide de nossos filhos!”. Sem mais, meu velho amigo deixou-me só em meu posto inglório, e desceu as escadas rapidamente, tomando lugar próximo ao portão de acesso principal.

E, assim, deu-se o massacre!

Os primeiros grunhidos odiosos da besta empurraram a massa virulenta de mortos-vivos contra as desgastadas paredes apodrecidas do forte e as puseram abaixo em menos de um minuto.

Não consegui ver mais nada!

Os sobreviventes confiavam em mim. Eu não podia, de modo algum, fraquejar diante da tarefa que eles deram-me a incumbência de cumprir. Por isso, fui até à porta da Sala Natalina e escorei a testa nela. Fechei os olhos. Busquei coragem nos últimos ruídos da noite. Ouvi nitidamente a última sinfonia da vida esvaindo-se célere, era a percepção dos sons que se misturavam no fundo de minha alma: o matraquear das metralhadoras abafadas por corpos apodrecidos lançando-se sobre elas, o burburinho festivo das crianças rindo à toa ali pertinho, os gritos desesperados de homens e mulheres lá embaixo, as gargalhadas de Alice, minha filha querida, o arrastar de pés vacilantes, mortais, das coisas que iniciavam o subir das escadas e... a música ao fundo, ressoando além daquelas paredes... a melodia suave impunha-me vislumbres da criança alegre, de olhos reluzentes dos enfeites natalinos, de outras noites, que um dia fui...

 

Noite feliz

Noite feliz

Ó senhor, Deus do amor...

 

E, agora, minha última noite de Natal.

Força, Demétrios, não hesite! Cuide de nossos filhos!”

Apertei com força a metralhadora, levantei a cabeça, respirei fundo e abri a porta decidido, porque meu pai sempre me dizia que, em tempos de tribulação ou de guerra, a tarefa mais difícil de realizar era destinada apenas àquele que tinha a capacidade de suportá-la.


 

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