A VELHA BRUXA DE RODEZ - Conto Clássico de Terror - E. M.


A VELHA BRUXA DE RODEZ

E. M.

(Início do século XX)

Tradução de Paulo Soriano

 

Por volta de 1830, morava em Rodez, perto do passeio de Prêtres, uma bruxa chamada Marie Trébas. Ele merecia, além disso, em todos os aspectos, o nome que lhe foi dado — afirma nosso magistrado —, e sua aparência exterior, como sua vida e seus atos, concorreram para considerá-la uma verdadeira trèbe:  vestia-se apenas com trapos imundos, cujas cores díspares, contrastando umas com as outras, davam-lhe um aspecto estranho; cobria-lhe uma vasta touca preta, da qual às vezes escapavam mechas de cabelos grisalhos e desgrenhados, e sob as voltas dos quais se viam dois olhos negros brilhando, ainda vivos e penetrantes.

No inverno, ela colocava sobre o vestido uma grande capa preta que o cobria inteiramente, e ela sempre carregava na mão um cajado nodoso, sem o qual nunca tinha sido vista. Seu rosto inspirava uma espécie de terror; seu nariz aquilino e adunco parecia querer encontrar-se com o queixo, e sua boca se contorcia num sorriso satânico. Suas mãos eram ossudas e esqueléticas, e dizia-se que aqueles que se acercassem da mulher viriam que seu pé terminava em forquilha.

Seu refúgio era uma espécie de estábulo no qual uma porção de objetos se amontoava desordenadamente e, em um de seus cantos, notava-se uma enorme pilha de trapos. Era lá, diziam, que Marie Trébas fazia o misterioso unguento de “pé dé fuelho” com o qual só bastava esfregar a palma da mão e gritar três vezes: “pé de fuelho, pé de fuelho, fuelho”, para, depois de montada numa vassoura, sentir-se levada pelo ar até o lugar onde realizava o sabá.  

Entende-se que, com todos esses antecedentes, Marie Trébas não cheirava a santidade em Rodez, e as crianças, assim que a viam, ou passaram em frente ao seu pequeno armarinho, situado no meio do morro pavimentado, corriam para se esconder o mais rápido possível ou se agarrar-se ao avental da mãe, sem ousar erguer os olhos. Acrescente a isso que Marie Trébas era má, e que ela lançava maldições sobre aqueles que não queriam atendê-la: teremos, então, a medida do medo inspirado pela bruxa.

Um dia, quando Marie Trébas estava sentada — ou melhor, agachada — como de costume, em frente à sua pequena loja de miudezas, seu rosto expressava ainda mais maldade  que a habitual — se isto é possível. À sua frente, passou uma mulher carregando o filhinho de apenas alguns meses de idade. A criança, chamada Josépou, estava doente, e eles a trouxeram de Pont Viel para Rodez para ser tratado pelo Sr. Anglade. Ao ver a criança, Marie Trébas foi tomada por um pensamento sombrio e, dirigindo-se à mulher, disse:

— Vamos, deixe-me ver essa criança!

— Bruxa má do diabo — respondeu a mulher. — Cuide do sabá e do que lhe diz respeito. Deixe-me em paz.

— Tome cuidado — redarguiu Marie Trébas. — Se não me mostra a criança, um infortúnio recairá sobre ela.

— Cale a boca! Você me aborrece!

Então, um lampejo de maldade perpassou os olhos da bruxa, e ouviram-na murmurar palavras estranhas e confusas entre os dentes. Quando digo por entre os dentes, eu me engano — relata o magistrado, contando-nos esta história —, porque ela só tinha um, o canino esquerdo que, descendo pelo lábio inferior, mais parecia uma presa de elefante.

As palavras ditas pela velha mulher eram um feitiço lançado sobre a criança. De fato, quando o pequeno voltou a Pont Viel, sucumbiu a uma doença estranha e desconhecida, que nunca lhe proporcionou minuto, sequer, de descanso. Ele gritava, não queria mamar no seio materno e todos os remédios experimentados foram inúteis. Foi então que se lembraram do feitiço lançado pela velha bruxa. Era preciso encontrar os meios de acabar com aquele fado.   Para isto, depois de consultarem os habitantes mais antigos de Pont Viel, as mulheres se reuniram numa sala.

Fechadas as portas, tiraram o fígado de uma lebre recém-abatida e trouxeram um punhado de pregos comprado no dia anterior em Rodez. Colocou-se a víscera numa panela e nela deitou-se, três vezes, vinagre. Assim cozido, o fígado foi posto num prato sobre a mesa e, nele, enfiaram-se os pregos, um a um.  No entanto, sabe-se que, ao realizarem-se todas essas cerimônias, o bruxo ou a bruxa, que lançou o feitiço, sente dor nas nádegas, como se os pregos tivessem sido mergulhados naquela parte corpo. A dor faz com que o bruxo ou a bruxa se apresente. Então, quem fez o feitiço é obrigado a desfazê-lo.

Foi o que aconteceu, pois, mal três ou quatro pregos foram enfiados no fígado, ouviram-se passos no caminho, juntamente com alguns murmúrios confusos. Era Marie Trébas que vinha a toda pressa, com as mãos nos quartos, e dizendo:

— Não era preciso me ferir tanto! É muito doloroso para mim!

— Vamos, Belzebu — disseram-lhe —, tire o feitiço imediatamente, senão ...

— Não se preocupem tanto... vocês já me feriram.

— Vamos, apresse-se.

— Sim, mas...

Vendo que ela não queria se decidir, enfiaram outro prego no fígado. A velha deu um grito de dor, rapidamente colocou as mãos nas nádegas e, depois de retirar o feitiço, saiu rapidamente. A criança ficou curada.

Quando Marie Trébas morreu, uma grande fogueira foi feita com todas as suas roupas, e as pessoas tiveram o cuidado de não tocar o cadáver, por medo de serem enfeitiçados. Quando estava morrendo, a velha tinha uma sobrinha ao seu lado, e, atormentada pelo sofrimento, implorou que ela viesse e lhe tocasse a mão.

— Venha — disse a bruxa à sobrinha —, venha e me dê sua mão. Não me negue esse prazer. Será a última coisa que fará por mim.

— Não, não! — disse a sobrinha. — Eu sei que, quando uma bruxa morre, tem que passar a feitiçaria a alguém. Você quer passá-la para mim.

— Oh, venha, venha, pois sinto muita dor.

Não! Mas você tem uma vassoura; toque nela, então!

E jogou uma vassoura para a velha, que a tocou. A vassoura, enfeitiçada, voou aqui e ali pela sala, dando mil saltos e cambalhotas e acabou voando pela chaminé.

Então Marie Trébas morreu.


 

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