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Mostrando postagens de julho, 2022

PRESAS QUE RASGAM MINHA CARNE - Conto de Terror - Maycon Guedes

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  PRESAS QUE RASGAM MINHA CARNE Maycon Guedes     Samanta acelerou o passo no exato momento em que viu o portão do cemitério aberto. Ela não tinha outra escolha a não ser entrar naquele local macabro para fugir de seu agressor. Seu marido a perseguia ferozmente e, sabendo dos danos que sofreria, Samanta não hesitou em se esconder na escuridão daquele lugar fúnebre. Permeada pelo sono eterno dos mortos, sentindo o calafrio percorrendo todo o seu corpo marcado pela violência, a pobre vítima refletiu que, por mais assustador que aquele lugar demonstrava ser, não era mais assustador que a vida fora dali; era muito melhor estar entre os mortos naquela madrugada fria. Um grande jazigo velho de grades enferrujadas chamou a atenção de Samanta - ali seria o local de seu refúgio. Com facilidade ela abriu as grades, sentindo a ferrugem úmida grudar em suas mãos e, em silêncio e imóvel, ela se camuflou entre as velhas coroas de flores que estavam ali dentro.    ...

LÚCIO TRANSFORMADO EM ASNO - Narrativa Clássica Sobrenatural - Lúcio Apuleio

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LÚCIO TRANSFORMADO EM ASNO Lúcio Apuleio (c. 125 – c. 170)   Certo dia, Fótis, tomada pelo medo, correu para mim e disse que a sua senhora, querendo juntar-se a um homem que desejava, e não tendo outros meios de satisfazer-se, pretendia, na noite seguinte, transformar-se num pássaro e voar ao bel-prazer. Disse-me, pois, que eu me preparasse para ver, secretamente, aquele prodígio. E quando chegou a meia-noite, ela me levou, discretamente, nas pontas dos pés, para uma câmara alta, e me mandou olhar pela fresta de uma porta. Primeiro, vi como a senhora Panfília desnudou-se completamente. Depois, abriu um pequeno cofre, de onde tirou algumas bolsas, e, abrindo uma destas, derramou nas palmas das mãos uma espécie de unguento. Então, com ele, esfregou o corpo, untando-se da ponta dos pés ao topo da cabeça. E, depois de ter pronunciado, em segredo, palavras sacramentais, tendo a vela na mão, começou a sacudir e a ondular todos os membros. Foi quando notei que plumas começaram...

TRAVESSURAS OU TRAVESSURAS - Conto de Terror - Maycon Guedes

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  TRAVESSURAS OU TRAVESSURAS Maycon Guedes     É noite de Halloween no cemitério. Abóboras decoram os túmulos e velas roxas derretem nos jazigos. Os defuntos saem de suas sepulturas, e as fúnebres criancinhas, com suas sacolinhas, pedem doces de cova em cova: Gostosuras ou Travessuras? Toda noite de 31 de outubro, à meia-noite, após o coveiro Tavares deixar o cemitério para curtir o famoso “Baile Horripilante dos Idosos”, a festa nefasta se inicia entre os túmulos. A frase “Descanse em Paz”, perpetuada nas lápides, deveria ser substituída para “Descanse em Paz… até a noite de Halloween”, pois nesta data, os falecidos voltam à superfície para uma noite de curtição, dança com esqueletos, bebedeira, histórias assustadoras de como morreram e sinistras orgias. As criancinhas pútridas e inocentes usam máscaras durante essa noite, mesmo sabendo que seus próprios rostos já são assustadores - coitadinhas. Elas vagueiam pelo cemitério, pulando e cantando “Silver Shamrock”, pa...

TRÊS SOMBRAS NA ESTRADA - Conto de Terror - Ângelo Brea

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TRÊS SOMBRAS NA ESTRADA Ângelo Brea   Esse ano estava a trabalhar em Vimianço, a formosa vila onde senhoreia o castelo que os irmandinhos derrubaram na rebelião de 1467 e que o arcebispo Fonseca reconstruíra poucos anos depois, passando logo à nobre família dos Moscoso de Altamira. Vimianço é uma vila de interesse e a terra que a circunda é agradável e com gentes trabalhadoras e de bom coração. Ali passei uns anos que sempre lembro com saudade, já que pude conhecer bem os rapazes e as raparigas que iam estudar ao meu Liceu. Enquanto trabalhava ali, tinha alugado um andar em Baio, onde me fiz cliente dos locais dos arredores, almoçando quase sempre no restaurante Casa Cruz , onde fazem uma comida caseira de fundas raízes galegas. Como tinha família em Santiago, vinha muitas vezes à cidade pela estrada que une Baio e Santa Comba, ou bem pela que vai desde Vimianço a Negreira. As duas estradas acabavam de ser arranjadas e conduzia indistintamente por uma ou por outra, depe...