O FANTASMA DA SENHORA DAVENPORT - Conto Clássico de Terror - Frederik P. Schrader


O FANTASMA DA SENHORA DAVENPORT

Frederik P. Schrader

(1857 – 1943)

Tradução de Paulo Soriano

 

Por volta das três horas da tarde do dia 3 de fevereiro, o professor Davenport e a senhorita Ida Soutchotte — uma jovem muito pálida e delicada, que se havia submetido às sessões de Devenport por vários anos — terminavam o jantar num quarto do segundo andar de um hotel de Nova York. O professor Benjamin Davenport era uma celebridade, mas se dizia que ele devia a sua fama a meios um tanto questionáveis. Os principais espiritualistas não depositavam no doutor a mesma confiança que manifestamente assentavam em William Crookes ou Daniel Douglas Home.

 

— Médiuns gananciosos e sem escrúpulos — dizia o autor de Spiritualism in America — são os responsáveis pelos mais sombrios ataques à nossa causa. Quando as materializações não acontecem tão rapidamente quanto as circunstâncias exigem, esses médiuns recorrem a truques e fraudes para se livrarem do problema.

 

O professor Benjamin Davenport pertencia à classe desses médiuns “versáteis”. Além disso, histórias estranhas circulavam sobre ele. Ele fora secretamente acusado de roubo em rodovias na América do Sul, de trapaça em jogos de azar em São Francisco e de uso precipitado de armas de fogo contra pessoas que nunca o haviam ofendido. Foi dito — quase abertamente — que a esposa do professor, vítima de seus abusos, havia morrido de tristeza em razão da infidelidade marital. Mas, apesar desses rumores irritantes, o Sr. Davenport, em virtude de suas habilidades como faquir e fraudador, continuava a exercer grande influência sobre algumas pessoas simples e ingênuas, a quem era impossível convencer de que não haviam tocado os espíritos materializados de seus irmãos, mães ou irmãs, por meio daquele maravilhoso poder. Seu sucesso profissional recebia o acréscimo material de seu rosto moreno de Mefisto, seus olhos profundos e ardentes, seu nariz grande e curvo, da expressão cínica de sua boca e do tom sublime e quase profético de suas palavras.

 

Quando o garçom fez sua última visita — e ele não foi longe —, deu-se a seguinte conversa na sala:

 

— Haverá uma sessão, esta noite, na residência da Sra. Harding — disse o médium. — Lá estarão muitas pessoas influentes e dois ou três milionários. Esconda debaixo da saia a peruca loura e o pano branco com que costumam aparecer os espíritos.

 

 — Está certo — respondeu Ida Soutchotte, em tom resignado.

 

O garçom a ouviu caminhando pela sala. Depois de uma pausa, ela perguntou:

 

— De quem é o espírito que você vai subjugar esta noite, Benjamin?

 

O garçom ouviu uma gargalhada estridente e brutal, e a cadeira a ranger, sob o peso do professor.

 

— Adivinhe.

 

— Como eu poderia saber? — ela perguntou.

 

— Vou invocar o espírito de minha falecida esposa.

 

E outra gargalhada explodiu na sala, repleta de sinistra leviandade. Um grito de terror saiu dos lábios de Ida. Um som abafado indicou ao bisbilhoteiro da porta que esta se arrastava até os pés do professor.

 

— Benjamin, Benjamin! Não faça isso — a dama soluçou.

 

— Por que não? Dizem que parti o coração da Sra. Davenport. E esta história prejudica a minha reputação. Mas será esquecida, assim que o espírito dela dirigir-se a mim, do além, em termos carinhosos, na presença de inúmeras testemunhas. Pois você falará comigo com ternura, não é, Ida?

 

— Não, não! Você não deve fazer isso. Não deve, sequer, pensar nisso. Ouça-me, pelo amor de Deus. Durante os quatro anos em que lhe faço companhia, tenho sofrido muito, mas eu lhe obedeço fiel e pacientemente. Como você, tenho mentido e enganado as pessoas. Aprendi a imitar o sono e os sintomas dos clarividentes. Diga-me: alguma vez me recusei a servi-lo, ou reclamei de alguma coisa, mesmo quando os meus ombros se curvavam com todo peso de meu fardo? Lembra-se de quando você perfurou a carne de meus braços com agulhas de tricô? E o pior de tudo: eu imitei vozes distantes, por detrás das cortinas, e fiz mães e esposas acreditarem que seus filhos e maridos tinham vindo, de um mundo melhor, para se comunicar com elas. Quantas vezes eu realizei as mais perigosas proezas em salões, com as lâmpadas apagadas? Vestida com uma mortalha ou musselina branca, representei formas sobrenaturais, cujos olhos turvados de lágrimas as pessoas reconheciam como os de entes queridos que haviam partido. Você não sabe o que sofri neste trabalho profano... Zomba dos mistérios da eternidade. Eu padeço os tormentos de uma retribuição iminente. Meu Deus!  E se, algum dia, os mortos que eu imitei surgirem à minha presença, com os braços erguidos, dirigindo-me suas terríveis imprecações?! Esse terror constante machuca o meu coração e vai me matar! Estou consumida pela febre. Veja como estou macilenta, exausta e abatida. Mas permaneço sob o seu controle. Faça o que quiser comigo. Estou em seu poder e quero que seja assim. Por acaso eu já reclamei? Mas não me force a fazer isso, Benjamin. Tenha pena de mim! Lembre-se do que já fiz por você no passado, e veja como sofro. Não tente esse simulacro. Não me obrigue a fazer o papel de sua falecida esposa, que era tão terna e bela! Oh, de onde veio esse pensamento, que domina a sua mente? Poupe-me, Benjamin, eu imploro!

 

O professor mais não riu. Em meio à confusão de móveis revirados, o garçom distinguiu o som de uma crânio batendo no chão. Ele concluiu que o professor Davenport derrubou a srta. Ida com um soco ou a chutou quando ela se aproximava. Mas o garçom não entrou na sala, pois ninguém o chamara.

 

II

 

Naquela noite, quarenta pessoas, reunidas no salão da Sra. Joanne Harding, olhavam para a cortina. Lá, um espírito estava em processo de materialização. Uma lanterna escura, num canto da sala, contribuía com um lume que enfatizava a escuridão, em vez de amenizá-la. Um silêncio profundo impregnava o salão, salvo a respiração acelerada e contida dos espectadores. O fogo da lareira espargia misteriosos raios de luz, semelhantes a espíritos fugidios, sobre os objetos ao redor, quase indistinguíveis na penumbra.

 

O professor Davenport estava, naquela noite, em sua melhor forma. O mundo espiritual o obedecia sem hesitação, como ele fosse o seu legítimo mestre. Ele era o poderoso príncipe das almas. Viram-se mãos, sem braços, colhendo flores dos vasos; o toque de um espírito invisível evocava doces melodias das teclas do piano; a mobília respondia com batidas inteligentes às perguntas mais imprevistas. O professor elevou-se, em distorções simbólicas, do chão, a uma altura — indicada pela Sra. Harding — de três pés, e permaneceu suspenso no ar por um quarto de hora, segurando brasas vivas nas mãos.

 

III

 

Mas o fenômeno mais interessante e conclusivo seria a materialização do espírito da Sra. Arabella Davenport, conforme prometera o professor no início da sessão.

 

— Chegou a hora! — exclamou o médium.

 

E, enquanto os corações de todos os presentes pulsavam ansiosamente, e seus olhos se dilatavam com a dolorosa expectativa da materialização prometida, Benjamin Davenport permanecia diante da cortina. No crepúsculo, o homem alto, de cabelos desgrenhados e demoníaca aparência, era realmente belo e terrível.

 

— Apareça, Arabela! — exclamou, com a mesma voz de comando e com os mesmos gestos do Nazareno junto ao sepulcro de Lázaro.

 

Todos esperavam.

 

De repente, um grito irrompeu por trás da cortina. Um grito penetrante, estremecedor e terrível. Era o um grito de uma alma que se extingue.

 

Os espectadores estremeceram. A Sra. Harding quase desmaiou. O próprio médium pareceu surpreso.

 

Mas Benjamin recobrou a compostura ao ver a cortina se mexer e deixar entrar o espírito.

 

A aparição era de uma jovem com longos cabelos loiros. Ela era linda e pálida, vestida com algum tecido claro e esbranquiçado. Seu seio estava nu, e no lado esquerdo aparecia uma ferida sangrenta, na qual tremia uma faca.

 

Os espectadores se levantaram e recuaram, empurrando suas cadeiras contra a parede. Os que, por acaso, olharam para o médium, notaram que uma palidez mortal se espalhava pelo seu rosto e que ele se encolhia e tremia.

 

Mas a jovem senhora Arabella — a verdadeira, de quem ele se lembrava perfeitamente — veio em resposta à sua invocação, e avançou, em linha reta, na direção do médium. Benjamin, cheio de terror, cobriu os olhos para impedir aquela visão medonha, e, soltando um grito, fugiu, escondendo-se por detrás do mobiliário. Mas a aparição mergulhou o dedo de uma mão descarnada no sangue de sua ferida e traçou-o na testa do médium inconsciente, enquanto repetia, num tom lento e monótono, que soava como o eco de um lamento, repetidas vezes:

 

— Você é o meu assassino! Você é o meu assassino!

 

E, enquanto ele rolava e se revirava no chão, aterrorizado, acenderam-se as luzes.  

 

O espírito havia desaparecido. Todavia, na sala adjunta, por detrás da cortina, encontraram o corpo da pobre Srta. Ida Soutchotte. Estava ela com feições horrivelmente distorcidas. Um médico, que se fazia presente, declarou que ela fora vítima de um ataque cardíaco.

 

E essa é a razão pela qual o Prof. Benjamin Davenport apareceu, sozinho, em um tribunal de Nova York, para responder à acusação de ter assassinado sua esposa há quatro anos, em San Francisco.

 

Fonte: “Twenty-Five Ghost Stories”, J. S. Ogilvie Publishing Company, 1904. 


 

Comentários

  1. o título, creio, tem um erro de digitação, é DAvenport mas está escrito DEvenport...mas é ótimo o conto!

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