UMA BATALHA COM LOBOS - Conto Clássico de Horror - George Alfred Henty


UMA BATALHA COM LOBOS

George Alfred Henty (1832 – 1920)

Tradução de Paulo Soriano

 

 

[Malchus — um jovem oficial da guarda do grande general cartaginês Aníbal — saíra com dois companheiros numa expedição de caça nas montanhas espanholas. Depois de um longo dia atividade, os caçadores não lograram encontrar o acampamento e decidiram pernoitar na floresta.]

 

I

 

Depois de comerem e conversarem por algum tempo, Halcon e seu companheiro deitaram-se para descansar. Malchus se ofereceu para manter o primeiro turno da vigilância. Por algum tempo, ele permaneceu sentado, em silêncio. Às vezes, lançava a lenha, tirada do estoque que eles haviam formado, ao fogo. Subitamente, mudou de atitude. Assuntou e se ergueu. Ouviu, repetidas vezes, os uivos dos lobos ecoando na floresta. Então, escutou um longo uivo, profundo e contínuo. Ouviu por um minuto ou dois e, então, acordou seus companheiros.

— Há uma grande matilha de lobos se aproximando — disse ele. — Pela direção do som, julgo que eles estão caçando nos rastros de nossos passos, seguindo a nossa rota, e me parece que estão subindo a encosta oposta.

— Sim. E pelo barulho que fazem, a alcateia deve ser bem grande — Halcon concordou. — Alimentem o fogo e se preparem para apanhar mais lenha o mais rápido possível. Essas feras, em grandes alcateias, são inimigos poderosos.

Os três homens começaram a trabalhar, cortando e repartindo, vigorosamente, com suas espadas, pequenos galhos de árvores.

— Façam quatro fogueiras — disse Halcon —, empilhando as lenhas no centro. Dificilmente os lobos ousarão passar por elas.

A matilha, agora, descia a encosta, mantendo um coro de uivos curtos, que provocaram um inquietante arrepio em Malchus. Quando os lobos se aproximaram, o uivo cessou repentinamente.

— Eles nos estão vendo — disse Halcon. — Fiquem atento a eles, mas não desperdicem as flexas. Precisamos de todas elas antes do amanhecer.

Permanecendo absolutamente quietos, os amigos podiam ouvir o rastejar dos lobos sobre folhas caídas; mas a Lua já havia baixado e eles não conseguiam distinguir-lhes as figuras.

— Parece-me — sussurrou Malchus — que vejo manchas de fogo brilhando nos arbustos.

— É o reflexo do fogo nos olhos dos lobos — respondeu Halcon. — Veja! Eles estão ao nosso redor! Deve haver dezenas deles.

Por algum tempo, os lobos não se acercaram. Então, encorajados pelo silêncio do pequeno e imóvel grupo, recolhido ao centro das fogueiras, duas ou três formas cinzentas apareceram no círculo de luz. Três arcos vibraram. Dois dos lobos caíram. Um terceiro, soltando um uivo de dor, fugiu na escuridão. Seguiu-se um som de uivos e rosnados. Depois, um ganido de dor, uma luta feroz e um rosnado prolongado.

— O que eles estão fazendo? — Malchus perguntou, estremecendo.

— Creio que eles estão comendo o lobo ferido — respondeu Halcon. — Ouvi dizer que esse é o costume desses brutos selvagens. Veja, as carcaças dos outros dois já desapareceram.

 

II

 

Por mais rápidas que tenham sido aquelas quedas, alguns lobos se esgueiraram e arrastaram os dois outros corpos. Aquele incidente — evidência de quão extrema era a fome dos lobos e quão silenciosos eram seus movimentos — redobrou a vigilância dos caçadores.

Malchus jogou um punhado de lenha em cada uma das fogueiras.

— Devemos ter cuidado com a lenha — disse Halcon. — Seria bom que tivéssemos pensado nisso antes de nos deitarmos. Se tivéssemos juntado lenha suficiente para nossas fogueiras, estaríamos seguros. Mas duvido muito que nosso suprimento dure até o amanhecer.

À medida que transcorriam as horas, a atitude dos lobos tornava-se cada vez mais ameaçadora. Eles já se achegavam às fogueiras. A cada vez que se aproximavam, braçadas de lenha eram arremessadas às fogueiras. À medida que as chamas saltavam com intensidade, os animais recuavam e a alcateia perdia vários de seus integrantes, que caíam, vitimados pelas flexas atiradas pelo pequeno grupo. Mas a pilha de madeira, agora, rapidamente se exauria, e — salvo quando os lobos avançavam — era preciso deixar o fogo queimar por si mesmo.

— Devem faltar, ainda, quatro horas para o amanhecer — disse Halcon, enquanto jogava o último pedaço de lenha. — Olhem em volta, enquanto o fogo arde, e vejam se conseguem distinguir alguma árvore que possa ser escalada. Seria melhor que tivéssemos nos aproximado das árvores desde o início, em vez de confiar em nossas fogueira.

Infelizmente, os homens haviam escolhido uma área um tanto aberta para o acampamento, pois o mato crescia denso entre as árvores.

— Eis ali uma árvore — disse Malchus, apontando. — E ela tem um galho a menos de dois metros do chão. Basta que a escalemos e estaremos seguros

— Muito bem — concordou Halcon. —Tentaremos saltar à árvore imediatamente, antes que o fogo se apague. Coloquem as espadas nas bainhas, conservem os arcos nos ombros e mantenham os archotes acesos. As tochas serão as nossas melhores armas, superiores a espadas ou lanças. Agora! Todos prontos, agora!

Agitando as tochas acesas sobre suas cabeças, os três cartagineses correram em direção à árvore.

Os lobos pareciam conscientes de que suas presas tentavam escapar. Com um uivo feroz, saltaram de sob os arbustos e correram para enfrentá-los. E, indiferentes às tochas em chamas, lançaram-se sobre os homens.

Malchus mal sabia o que acontecera na luta breve e feroz. Um lobo saltou sobre seu escudo e quase o derrubou; mas dentes afiados perfuraram-lhe o corpo. O soldado arremessou um dos lobos para longe de si, ao mesmo tempo em que lançou a tocha, em cheio, no rosto de outro. Um terceiro lobo saltou sobre o seu ombro e o homem sentiu aquele hálito quente no rosto.

Tendo lançado o archote, o soldado enfiou profundamente a sua adaga no flanco do lobo. Depois, arremessou o pesado escudo na massa de lobos à sua frente. Então, saltou para eles, e, agarrando o galho, pulou para a árvore. Lá se susteve com as pernas dobradas, enquanto um grupo de lobos saltava em sua direção com as goelas abertas.

Malchus deixou escapar um grito de terror: seus dois companheiros jaziam no chão, e apenas uma massa confusa de corpos, em luta, mostrava onde eles haviam caído. Por um instante, ele hesitou, considerando se deveria pular e tentar resgatá-los; mas, olhando para baixo, sentiu que seria arrancado dali muito antes de chegar ao local onde os outros soldados haviam caído.

Movendo-se ao longo do galho até alcançar o tronco, ele se ergueu e disparou as flechas, vingativamente, no meio da massa de lobos em luta, até que lhe restassem apenas três ou quatro flechas. Ele as reservou como último recurso.

 

III

 

Agora, nada havia a fazer. Sentado sobre o galho, chorou pelo destino dos companheiros. Depois, viu que tudo estava quieto. O feroz bando havia devorado não apenas os soldados, mas seus próprios companheiros caídos. Agora, os lobos sentavam-se em círculo, expondo as línguas vermelhas, com os olhos fixos no sobrevivente. À medida que o fogo, gradualmente, se extinguia, suas formas desapareciam. Malchus, todavia, podia ouvir-lhes a rápida respiração e sabia que os lobos ainda mantinham a guarda.

Malchus subiu na árvore até chegar a uma bifurcação, onde poderia sentar-se à vontade, e ali aguardou pelo advento da manhã. Esperava que a alvorada dispersasse os seus inimigos. Mas quando assomou a luz cinzenta, que precede o amanhecer, o soldado percebeu que a alcateia mantinha firme a vigília. E nem mesmo quando irrompeu a aurora, clareando o dia, os lobos exibiram qualquer sinal de movimento.

Quando percebeu que os lobos não tinham a intenção de abandonar a posição, Malchus começou a considerar, seriamente, o que seria melhor a fazer. Pelo que sabia, ele ainda poderia estar a milhas de distância do acampamento, e seus amigos não teriam meios de saber onde ele se encontrava agora. Sem dúvida, a guarnição enviaria soldados em busca do grupo perdido. Mas, mas naquele deserto de floresta e montanha, as chances de ser encontrado eram mínimas.

Ainda assim, parecia-lhe que aquela era a única possibilidade de ser resgatado. Ali, as árvores cresciam muito próximas umas às outras, e ele poderia facilmente passar de uma a outra, percorrendo, assim, alguma distância. Todavia, como os lobos o observavam e podiam ver tão bem de dia quanto de noite, não se via vantagem em sair de onde estava.

O dia transcorria lentamente. A maior parte dos lobos havia partido, mas alguns mantiveram, constantes, os seus postos sob a árvore. Malchus sabia que os outros lobos estavam deitados sob os arbustos, não muito longe, pois era possível ouvir-lhe os frequentes rosnados, e às vezes, erguia-se uma cabeça cinzenta, e um par de olhos ansiosos voltavam-se, avidamente, para ele.

De vez em quando, Malchus, sem fôlego, afiava os ouvidos, na esperança de ouvir os gritos distantes de seus camaradas. Todavia, tudo permanecia quieto na floresta e ele tinha certeza de que os lobos ouviriam, antes dele, qualquer um que se aproximasse dali.

Uma ou duas vezes, de fato, supôs que os lobos — atentos, com suas orelhas em riste — estariam a ouvir sons inaudíveis aos humanos. Mas o alarme — se é que o foi — logo passou. Talvez os lobos ouvissem, apenas, os passos distantes de algum cervo passando pela floresta.

 

IV

 

A noite voltou com suas horas longas e tristonhas. Malchus amarrou-se à árvore pelo cinto, para evitar a queda. Conseguiu, assim, algumas horas de sono inquieto, acordando sempre sobressaltado, coberto pelo suor frio, cria do medo, acreditando estar caindo nas mandíbulas famintas, que se abriam lá embaixo. Pela manhã, um desejo feroz de matar alguns de seus inimigos o dominou, e ele desceu para o galho mais baixo.

Os lobos, vendo sua presa tão próxima, aglomeraram-se sob o galho e se esforçaram para pular sobre o homem. Deitando-se no galho, e trançando firmemente as penas, para obter o necessário apoio, Malchus enfiou a espada, quase até o cabo, entre as mandíbulas, que estalaram ferozmente, quando um lobo saltou, a poucos centímetros do galho. Vários morreram, e o restante, advertido, recuou a uma curta distância.

De repente, uma ideia ocorreu a Malchus. Ele tirou o cinto e, com ele, fez um laço. Esperou até que os lobos reunissem coragem para atacar novamente. Não demorou muito. Enfurecidos pela fome, aguçada pelas presas já devoradas, os lobos, outra vez, se aproximaram, e começaram a saltar contra o galho.

Malchus jogou o laço no pescoço de um deles e, com esforço, puxou-o para o galho e o matou com sua adaga. Depois, moveu-o ao longo do galho e o pendurou-o noutro, a cerca de três metros do chão, abrindo com sua adaga o peito e o ventre do animal. Feito isso, retornou para o lugar de origem.

Seis lobos, um após o outro, foram içados e despachados, e, como Malchus esperava, o cheiro de sangue tornou o bando mais selvagem do que nunca. Os lobos se reuniram ao pé da árvore e continuaram a pular em direção ao tronco, fazendo esforços inúteis na obtenção daquele suprimento de comida, que pendia tentadoramente a uma distância muito curta, mas além de seu alcance.

Passou-se o dia, mas sem sinais da tropa de resgate. Quando escureceu, Malchus desceu, novamente, ao galho mais baixo e disparou suas três flechas restantes aos lobos, que se reuniam abaixo dele. Altos uivos se seguiram a cada disparo, seguida do som de uma luta desesperada.

Malchus deixou cair os seis lobos dependurados. E, depois, o mais silenciosamente possível, abriu caminho, ao longo de um galho, até uma árvore adjacente. Passou desta à outra, sucessivamente, até que alcançou uma distância razoável do lugar onde os lobos lutavam e rosnavam sobre os restos mortais de seus companheiros, muito absortos em seu trabalho para voltar qualquer pensamento ao homem em fuga.

Silenciosamente, Malchus desceu ao chão e fugiu, correndo ao máximo de sua velocidade. Demoraria — ele tinha certeza — algum tempo até que os lobos terminassem seu banquete; e, mesmo que descobrissem que ele não mais estava na árvore, provavelmente levaria algum tempo até que pudessem sentir o seu cheiro, especialmente porque, tendo acabado o banquete de sangue, aqueles olfatos estariam entorpecidos.

Por várias vezes, o soldado parava para escutar, temeroso de ouvir os uivos distantes — sinal de que que o bando estaria novamente em seu encalço. Mas tudo permanecia quieto, exceto pelos gritos e sonidos habituais da floresta. Duas horas depois, vislumbrou um brilho distante de luz e logo alcançou o acampamento de seus companheiros.

 

Fonte: “Tales from the Works”, Londres, 1915.

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